Segunda-feira, Julho 21, 2008

Atirar a toalha ao chão

Adriano Pimenta escreve no dia 20 de Maio a Simas Machado dando-lhe conta do seu desencanto com a nova situação e não aceitando o convite para ingressar no Partido Evolucionista, optando por retirar-se da vida política.

Meu amigo

Escrevo-lhe sob a impressão dos últimos acontecimentos; e, todavia, com a fria serenidade de absoluta descrença e desencanto. E isto me parece, também, ser ensejo próprio e inadiável de responder à sua carta a definir a minha atitude perante a sua amizade.
Tardei em responder-lhe, absorvido com andava em regular coisas íntimas de relativa urgência e forçado, a seguir, a um conveniente repouso por um estado de saúde, que de todo me preocupou.
São estes os motivos e não outros, que foram retardando esta carta, que lhe devia; não pensando sequer, que a qualquer equivoco se prestou o meu retraimento. Conhecemo-nos bastante bem para que eu não duvidasse em confiar-lhe, à sua amizade inteligente, qualquer circunstâncias delicadas que me cortavam o empenho de alinhar ao seu lado e ao dos seus amigos se, melhor pensando, outra orientação tomasse. E assim poupei-me a este esforço, que os meus nervos, a esse tempo, mal consentiriam, tanto mais que me pareceu que a minha resposta era apenas formal e cuja demora não podia ferir a susceptibilidade de amigo.
Enganei-me, pelo que discretamente me informam e eu depreendo. Esse equívoco deu-se. E se muito lamento pela nossa amizade, ela vem mostrar-me, mais uma vez, quanto me é avessa a política. Nela me sacrifiquei e não ganhando amigos novos, quase corri o risco de perder os antigos.
Neste momento, porém, em que nós adivinhamos as dolorosas coisas, que nos perturbam, eu sentiria que um equivoco fosse uma recordação amarga entre nós ambos.
Daí esta explicação que lhe devia.
Posto isto vou responder à sua carta, correspondendo ao honroso convite que me faz para ingressar no partido evolucionista. E responderei com a lealdade que nos devemos à nossa amizade.
Conhece, porque tantas vezes lhe afirmei a minha simpatia pelo partido evolucionista. E disso dei provas, na última fase da minha modesta acção parlamentar, combatendo ao lado dele na defesa da justiça e moralidade republicana. E fi-lo espontaneamente, posto que nem sempre, (vá dito de passagem) lá encontrei a melhor das solidariedades.
Era que se harmonizavam com muitos dos meus pontos de vista; e os seus processos distanciavam-se infinitamente de uma democracia brava e inculta de selecção regressiva, que agora tripudia, sem decoro, sobre os farrapos de uma pátria.
E porque, quaisquer que fossem as nossas divergências e friezas, eu faço justiça ao Dr. António José de Almeida cujo carácter é para mim garantia segura de que, sob a sua direcção, a República não voltaria a ser a agência de negócios escuros para clientes vorazes. Isto considerei-o eu como fundamental, porque não pode ser outra a orientação da República, que se fez e o país acatou, menos, por considerações de ordem filosófica ou política, do que por uma afirmação moral.
Era pois lógico que fosse a esse partido que eu desse toda a minha cooperação, ao lado dos homens. O meu amigo, no dia em que me determinar, por um dever moral, a abandonar o retraimento político em que me isolei.
Somente, a minha filiação partidária dependeria da oportunidade que logicamente me imporem o ingresso de novo na política e depois de esclarecidos alguns pontos de vista da acção politica desse partido e que eu considero essenciais. Isso se combinou, como sabe, constando como um simples incidente, fácil de remover, o estado das relações tensas entre mim e o Dr. Almeida. Na refrega política jogamo-nos alguns agravos, sem afectar, creio eu, o carácter de cada um; e entendi sempre que, nestas circunstâncias, os superiores interesses do país e da República sobre elevavam em muito às arranhaduras de vaidades.
O rumo que, a seguir, tomavam as coisas políticas, o emaranhou de uma situação cada vez mais complexa em que mal se podia prever a atitude de cada um, retardavam a oportunidade, parecendo mesmo que a minha intervenção na vida do partido seria mais prejudicial que profícua, mercê de possíveis discrepâncias, que no momento eu antevi.
Hoje, ante os últimos acontecimentos, no seu duplo aspecto de golpe de estado e de cobardia, eu sinto que para mim desinteresso-me de um regímen cuja agonia ameaça matar a própria. Dizem os papéis que a República está condenada. Pois meu amigo, nunca a via tão próxima do seu fim, ante a repulsa e a antipatia duma opinião que percebe muito bem que a mentira oficial esconde apenas o triunfo efémero de uma demagogia cada vez mais opressiva e tirânica e pressinto que já não é com as reacções internas que nos salvaremos tão cedo do “democratismo”, que em nada escrupulisa.
Oxalá que me engane e que a nação por algum dos seus homens de inteligência e carácter possa sacudir, antes de mais desastres, por um repelão da consciência colectiva, a quadrilha que nos infama.
Até lá, meu amigo, não estou disposto a pegar no andor do Afonsismo bárbaro e vilão. Porque é dar-lhe alento até o combatê-lo. O que é preciso é isolá-lo, abandonando-o ao impulso da sua incompetência e ambição.
Para despertar a consciência pública é necessário que o país fique sozinho e bem em frente do bando democrático, a aparar-lhe os golpes, sem o anteparo das oposições.
E quando sentir quanto lhe doe é possível que tome juízo.
Voltarei, portanto a ser o que dantes era; um amigo seu, devotado mas sincero e orgulhoso do seu carácter e cioso da sua estima.
Á política deu ficar alheio.

Abraça-o

Seu amigo

Adriano Pimenta

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Domingo, Julho 13, 2008

Entregando as Chaves

A 18 de Maio, Artur Jorge Guimarães escreve a Simas Machado a dar-lhe conta das perseguições de que estava a ser alvo por parte de apoiantes do Partido de Afonso Costa. Alertado por um amigo, o medo foi tão grande que Artur Guimarães foge de casa, demite-se e envia na carta, as chaves do centro republicano evolucionista a Simas Machado.

Porto, 18/5/1915

Meu Exmo. Camarada e prezadíssimo amigo

Nos agitados dias que passaram não pude falar-lhe, embora procurasse por várias vezes fazê-lo. Na segunda-feira (17 de Maio) saí para cumprir com as obrigações que estão a meu cargo e julgava poder continuar a minha vida habitual, pois nunca julguei que pudesse ser perseguido por republicanos por pertencer a um partido republicano, que só tem honrado a republica. Porém procurou-me na minha casa pessoa categorizada e chefe revolucionário que me foi pedir para me retirar da minha casa e afastar-me por algum tempo daqui. Estranhei tal pedido e respondi-lhe o que a minha consciência e a minha dignidade me ditavam. Porém, as razões que me expôs convenceram-me a retirar. Não sei ainda ara onde irei, mas antes de partir era meu dever comunicar-lhe o que se passava e dizer-lhe, antes de escrever ao Dr. Almeida, quais as disposições do meu espírito, ante a tremenda catástrofe que abalou tão desgraçado país. Completamente desiludido, perdida toda a fé, julgando mesmo já impossível de realizar o programa do nosso partido, único que poderia dar a felicidade a este povo e assentar em bases sólidas a republica eu resolvera retirar-me completamente da política diante da hecatombe. Retirava-me por julgar inútil, todo o meu esforço por maior que ele pudesse ser. Mas depois de me ver perseguido pelos próprios republicanos a quem eu sempre ajudei quanto pude, não procurando mesmo saber a que partido pertenciam, pois nunca nutri ódio ou desprezo por ninguém, eu julgo que só tenho um caminho a seguir que é o de me retirar completamente de tudo. Assim lho comunico, antes de o fazer a mais ninguém, pela muita estima e consideração que me merece.
Peço-lhe o favor de transmitir aos nossos dedicados correligionários as razões expostas e pelas quais não me poderão ver ao seu lado, não esquecendo o Alfredo de Magalhães cujo carácter muito apreciei sempre. Junto remeto duas chaves, sendo uma da porta do centro e a outra da secretária. Muito desejava saber as impressões do meu bom amigo e se tiver um momento disponível pode escrever-me para a minha casa, Avenida do Brasil, 791, porque ficou lá pessoa encarregue de me remeter a correspondência. E disponha sempre do exilado.

Do amigo muito dedicado
Arthur Jorge Guimarães

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Quarta-feira, Julho 02, 2008

O novo Governo

O Governo indigitado pela junta revolucionária era presidido por João Chagas (1) e era constituído por (2) Magalhães Lima – Instrução; (3) Teixeira Queiroz – Estrangeiros; (4) Fernandes Costa – Marinha; (5) Manuel Monteiro – Fomento; (6) José de Castro – Guerra; (7) Paulo Falcão – Justiça e (8) Barros Queiroz – Finanças.

Apesar de o novo governo ter apenas um ministro oriundo do Partido Democrático (Monteiro) era na realidade totalmente controlado por ele, pois Magalhães Lima, Chagas, Teixeira Queiroz e Falcão eram republicanos históricos desde o tempo da Propaganda e completamente fieis a Afonso Costa. Barros Queirós era Unionista e Fernandes Costa filiado no Partido Evolucionista, participava no governo a título pessoal pois António José de Almeida retirou-lhe a qualidade de representante do partido.

No entanto João Chagas nunca chegaria a tomar posse. Vindo do Porto no Comboio da noite, Chagas sofreria um atentado no Entroncamento perpetrado pelo Senador João de Freitas que o baleou na cabeça e tórax. Chagas perdeu um olho, mas salvou-se milagrosamente. Para o Senador João de Freitas não houve milagre. Preso pela Guarda Republicana do Entroncamento, foi adequadamente abandonado na sala de espera, onde a Formiga Branca o espancou até à morte.

Com João Chagas debatendo-se entre a vida e a morte, José de Castro (O decano) assume a presidência do Conselho de Ministros.

No dia 18 de Maio ocorre a primeira reunião do novo executivo. O jornalista de “A Capital” interpela alguns dos ministros.

Magalhães Lima afirma que irá pagar os ordenados em atraso e que no ministério irá continuar a “obra propagandística do ideal republicano”.

Manuel Monteiro afirma sinceramente que “Vim de Braga sem saber que ia ser encarregado da gerência de uma pasta. Ainda quis furtar-me, mas não pude.”

José de Castro, afirma que o objectivo do governo é “Pacificar a família republicana e garantir a todos os cidadãos, o livre exercício dos direitos que a Constituição lhes faculta. […] A nova revolução demonstrou que a República é o regime do povo, que para a defender é capaz de todos os sacrifícios e provou que não é possível a nenhum governo atropelar a Constituição nem desrespeitar as leis. Procederemos de harmonia com a vontade do povo, que é a grande força que nos apoia.”
Populares armados (Formiga Branca) festejando a vitória
Foto de Anselmo Franco – Arquivo fotográfico da C.M.L.

José de Castro, falou e o governo cumpriu. No entanto o “Povo” a que ele se refere não é constituído pela grande massa do operariado rural e urbano analfabeto. O “Povo” de José de Castro são os pequenos comerciantes, funcionários públicos menores; a pequena burguesia urbana que compõe as hostes radicais da formiga branca. No dia 14 de Maio foram estes 15 000 homens que pegaram em armas e nas futuras eleições será este “Povo” que irá autorização para votar - 16 000 votos no Partido democrático e quase 7000 nos restantes partidos. Apesar de a taxa oficial de abstenção ser de 40%, apenas votaram 18.6% da população masculina maior de 21 anos.

Fontes:
"A República Velha (1910-1917) Ensaio", Valente, Vasco Pulido, Gradiva, Lisboa 1997
"O Poder e a Guerra 1914-1918", Teixeira, Nuno Severiano, Estampa
"História Politica de Portugal 1910-1926, Wheeler, Douglas L., Europa-América
Jornal "A Capital"

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Terça-feira, Junho 24, 2008

Os dias seguintes

A pesquisa sobre os dias seguintes à revolução do 14 de Maio está limitada aos recursos online, nomeadamente o Jornal “A Capital”, jornal que, segundo David Ferreira, foi um dos focos onde se preparou a Revolução.
Esse facto nota-se na leitura do jornal, os seus jornalistas estiveram presentes a bordo do Cruzador Vasco da Gama e do Almirante Reis, de onde relataram os acontecimentos. Os restantes artigos eram perfeitamente laudatórios da nova situação, entremeados de pequenos apontamentos que relatavam a situação nos bancos dos hospitais.

À direita, Leote do Rego, em cima Assis Camilo e do lado esquerdo, os Cruzadores Vasco da Gana, Almirante Reis e São Gabriel – Ilustração Portuguesa
O repórter que esteve no Vasco da Gama, entrevista um dos chefes da revolução, Leote do Rego, grande apoiante de João Franco, Monárquico a 4 de Outubro e republicano histórico no dia seguinte. Na entrevista Leote revela todo o seu cinismo, característico da sua personalidade “adesiva”, ao descrever o assassinato pela tripulação do anterior comandante do navio, Assis Camilo, quando Leote abordou o navio. “Foi um momento pungente. Era um camarada e um amigo. Foi morto pela tripulação em legitima defesa”

Mais caricato é o artigo de Brito Camacho publicado na Luta, que “A Capital” dá destaque. Camacho, apoiante de Pimenta de Castro até 24 horas antes da revolta, ataca fortemente o governo que apoiou, chamando de “vaidosos e medíocres” aos seus membros. O alvo da sua “ira” era Guilherme Moreira que apoda de “Criatura de mesquinha inteligência, Republicano de tirar e pôr, como os colarinhos de borracha.”
Nesse mesmo editorial, Camacho, que tudo tentou para ser ele, e não Pimenta de Castro a ser nomeado Presidente do Conselho, remata cinicamente dizendo que “A União Republicana participaria no novo governo apenas porque o presidente o havia solicitado, pois está muito bem assim, sentimos que a velhice precoce indica-nos que nos devemos afastar para dar lugar aos mais novos, aos sãos e robustos. Nunca tivemos ambições políticas e neste momento quasi nenhuma outra ambição temos senão a de nos apagarmos na sombra de uma honesta mediocridade entregue às predilecções do nosso espírito."
Brito Camacho, provavelmente o Político republicano com mais ambições, sempre disposto a dar passos maiores que as curtas pernas, que ele e o seu partido dispunham, não escreveu isto a pensar nele.
Estes dois últimos parágrafos são directamente dirigidos a António José de Almeida, esse sim com problemas de saúde e precocemente envelhecido, como as cartas de Luís Mesquita de Carvalho o demonstram, e que permaneceu neutral na disputa de 14 de Maio.


Pânico na Praça do Município – Ilustração Portuguesa
Sobre tudo o resto o Jornal apenas se limita a descrever que Lisboa está calma, não dando quase relevo às acções da formiga branca.

Piquete de populares e Marinheiros a revistarem automóveis – Ilustração Portuguesa

“A Capital” informa da presença das esquadras Inglesa (Alguns cruzadores) e Espanhola (1 Couraçado e 3 Cruzadores), afirmando que não havia qualquer motivo para a sua presença intimidatória.

NOTA: As fotografias foram obtidas a partir das digitalizações que Mariana Pinheiro fez da sua colecção da Ilustração Portuguesa" as quais podem ser consultadas no seu blogue "A Ilustração Portuguesa" e publicadas com sua autorização.

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Segunda-feira, Junho 02, 2008

A revolução de 14 de Maio

A seguir ao congresso de 4 de Março, os democráticos estabeleceram uma junta revolucionária constituída por José de Freitas Ribeiro (Marinha), Norton de Matos, Álvaro de Castro e Sá Cardoso (Exército) e Antó￳nio Maria da Silva(Maçonaria e Carbonária) para preparar o golpe contra o governo de Pimenta de Castro. Este golpe deveria ser em tudo idêntico ao 5 de Outubro e apoiava-se na Marinha (O Ramo mais favorável aos democráticos) e nas violentas organizações civis (Carbonária e Formiga Branca), uma vez que os apoios do exército eram reduzidos ou de pouca confiança.

Marinheiros Revoltosos carregam uma peça do cruzador Vasco da Gama - Ilustração Portuguesa
No dia 14 de Maio, a Marinha, Guarda-fiscal, uma parte da Guarda Republicana e 15000 civis armados enquadrados pela Carbonária e formiga branca revoltam-se e ocupam o arsenal da Marinha, onde se apoderam de um grande número de armas. Estas são distribuídas pelos civis. A reacção das tropas fiéis ao governo é tímida e apenas eficaz no primeiro dia. Infantaria 16 ainda cerca o arsenal da Marinha, mas é violentamente bombardeado pelos navios da armada. Artilharia tenta ainda bombardear os navios, mas estes ripostam e arrasam o alto de Santa Catarina. Ao todo crê-se que a revolta de 14 de Maio provocou entre 200 a 500 mortos e mais de 1000 feridos, Até hoje, o 14 de Maio foi a mais violenta revolta que sucedeu em Portugal.

Sá Cardoso proclamando o fim do Governo de Pimenta de Castro – Benoliel-Arquivo fotográfico da C.M.L.

No entanto a maioria dos mortos não ocorreu com os bombardeamentos navais do dia 14, mas sim com as perseguições e ajustes de contas da Carbonária e formiga branca. Entre 14 e 17 de Maio não existiu lei na cidade de Lisboa, o que deu mão livre à carbonária e à formiga branca para realizarem razias, pilhagens e assassinatos dos seus inimigos (+ de 20 policias e vários cadetes da escola de guerra foram sumariamente executados). Tal violência motivou o envio de esquadras de França, Espanha e Inglaterra, e foi apenas a sua presença que acalmou os ânimos e obrigou as novas autoridades a restabelecerem a ordem.

Elementos da Formiga Branca à Porta do Arsenal da Marinha
Sobre a actuação da Formiga Branca, Afonso Costa tece-lhe um profundo elogio nas Páginas do Jornal “O Mundo” –
"A verdade é que a Formiga Branca, como associação ou instituição revolucionária, não existe. A chamada Formiga Branca é apenas o povo que ama a republica, hoje como em 5 de Outubro, e que, por muito a amar, zelosamente a vigia e a defende. O partido republicano português não tem que enjeitar essa formiga branca, porque o partido republicano português tem de ser, e é, um partido popular, no exacto sentido do termo"

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Sábado, Maio 17, 2008

Aquecer a Campanha!

Meu Exmo. amigo

No Domingo (2) realizam-se comícios em todas as capitais de distrito e cidades importantes. Para Viana vai com o delegado do distrito o Dr. Augusto Soares. Para que a manifestação seja imponente, é conveniente que V.Ex.ª, escreva para Viana a recomendar a maior concorrência.

Até Breve
Abraça-o o dedicado amigo

Afonso Costa
Lisboa 28/4/1915

PS: Convém aquecer a campanha, sobretudo no norte.

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Quinta-feira, Maio 08, 2008

Aquecer a campanha

No mesmo dia, Afonso Costa, escreve a Raimundo Meira, a solicitar a sua intervenção no sentido de tentar obter a maior participação nos comícios do Partido Democrático. A sua carta denota uma certa insegurança nos apoios e é bem diferente da que escreveu durante a campanha de 1913, quando era presidente do Conselho de Ministros

Meu Exmo. amigo

No Domingo (2) realizam-se comícios em todas as capitais de distrito e cidades importantes. Para Viana vai com o delegado do distrito o Dr. Augusto Soares. Para que a manifestação seja imponente, é conveniente que V.Ex.ª, escreva para Viana a recomendar a maior concorrência.

Até Breve
Abraça-o o dedicado amigo

Afonso Costa
Lisboa 28/4/1915

PS: Convém aquecer a campanha, sobretudo no norte.

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Quarta-feira, Abril 23, 2008

Os Nomes

Definitivamente sanados os conflitos internos no Porto, António José de Almeida escreve a Simas Machado a pedir nomes para a elaboração da lista de candidatos a Deputado pelo círculo do Porto para o Partido Evolucionista. Entretanto aproveita para dar conta do andamento das amigáveis conversações com Pimenta de Castro.

Meu Exmo. e Prezado amigo

Recebi a sua carta que muito agradeço, apresentando-lhe em nome da Junta Central os protestos da nossa satisfação por se terem composto as coisas aí no Porto. Peço-lhe que nunca deixe de vigiar de perto os procedimentos das nossas juntas, que sendo imensamente dedicadas e sempre cheias das melhores intenções, por vezes se deixam arrebatar em demasia.
V.Ex.ª, com o seu bom critério e o seu alto prestígio, auxiliado pelos seus colegas da junta distrital, tudo poderá fazer.
Peço-lhe o obséquio de mandar dizer, na volta do correio, se possível for, quantos são os membros que o Partido Unionista tem nas comissões administrativas do Porto. Os evolucionistas, creio que são dois: Capitão Artur Jorge e Manuel Granjo*. Também lhe peço o favor de me mandar dizer, e com toda a urgência, quem são os nomes que os nossos correligionários do Porto preferem para meter na lista dos deputados e dos Senadores. Devo ter no Domingo ou na segunda-feira uma conferência que espero que seja definitiva, sobre os assuntos eleitorais, com o Pimenta de Castro.
O governo deseja que os nossos nomes entrem na lista com os nomes do governo e eu preciso de estar habilitado com dados o mais positivo possível a entender-me com ele.
Aceite os protestos da minha mais alta consideração e amizade.

O seu amigo certo e obrigado

António José de Almeida
28/4/1915



António José de Almeida conferencia com Pimenta de Castro
Foto de Benoliel – Arquivo fotográfico da C.M.L.
Faltavam 16 dias para a revolução de 14 de Maio de 1915

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Quarta-feira, Abril 09, 2008

Instruções

Em 25 de Abril, António José de Almeida escreve a Simas Machado, visivelmente satisfeito por os diversos contratempos surgidos terem sido ultrapassados. Aproveita para lhe dar conta do andamento de conversações com o governo e dá-lhe instruções para a realização de acordos e pedindo-lhe para vigiar a acção das diversas comissões.

Meu Exmo. e Prezado amigo

Ainda bem que as nossas juntas emendaram o erro que tinham praticado e que aqui me ia causando certos embaraços, chegando-nos a fazer algum mal.
Bem sei que o Governador Civil tem procedido, para com o Partido Evolucionista, de uma maneira quase inqualificável, mas não podíamos, por causa desse cavalheiro e da sua felonia, prejudicar a política geral do Partido.
Agradeço-lhe o cuidado que pôs neste assunto e peço-lhe que vigie sempre de perto os actos das nossas juntas, que cheias de patriotismo e de dedicação partidária, se deixam por vezes arrebatar prematura e excessivamente.
Ainda nada está assente com o governo sobre a maneira de intervir no acto eleitoral, não porque tenhamos posto embaraço, mas porque o governo ainda não aceitou um plano.
Em qualquer hipótese, porém, nós devemos ter sobre os unionistas aí no Porto uma superioridade de dois deputados pelo menos. Levar-lhes a vantagem de um apenas, seria, além de mesquinho, ridículo.
Nesse sentido pois, deverá V.Ex.ª, em cujo bom senso temos confiança ilimitada, dirigir qualquer entendimento que se lhe proporcionem, mas sempre com carácter provisório, nada acertando definitivamente sem de aqui ir à opinião da Junta central que se fundamentará combinações que fizer com o governo.
Apresento-lhe os protestos da minha mais alta consideração e desejando-lhe a melhor saúde

António José de Almeida
25/4/1915

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Sábado, Março 29, 2008

O Congresso Evolucionista III - Vãs palavras

Luís Mesquita Carvalho ataca fortemente Afonso Costa e Brito Camacho, que acusa de conspirarem para a destruição do Partido Evolucionista e recusa qualquer entendimento com eles pois segundo Mesquita Carvalho, o Partido Evolucionista está prestes a assumir o poder.

Sempre que
António José de Almeida usa da palavra, apenas o consegue fazer após longos minutos de efusivos aplausos. No seu discurso final, e certamente arrebatado pela audiência. António José afirma que “ O Partido Evolucionista é uma agremiação política, mas também é uma religião.” Continua o seu discurso atacando sem dói nem piedade Afonso Costa e Brito Camacho e termina com dificuldade os seu discurso, devido aos aplausos dos assistentes propondo uma moção de apoio a Pimenta de Castro, a qual foi aprovada por unanimidade.

Mas no Portugal de 1915 as convicções eram mais voláteis que a gasolina, e estas belas palavras de apoio a Pimenta de Castro, “firmeza”, “ardor”, “convicção plena”, “missão patriótica”, não eram mais que meras “Palavras”. E um mês mais tarde serviriam mesmo para, atabalhoadamente, os evolucionistas darem o dito pelo não dito, apoiarem a revolução de 14 de Maio, e a tentarem um entendimento com aqueles que, de acordo com Mesquita Carvalho, conspiravam para a destruição do Partido.

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Terça-feira, Março 25, 2008

O Congresso Evolucionista II - António José discursa


António José de Almeida discursando no congresso (Simas Machado está sentado ao centro com a mão a apoiar a face)
Foto de Benoliel – Arquivo fotográfico da C.M.L.

Para António José de Almeida a situação que se vivia era transitória e que só havia uma força política capaz de salvar a república – O Partido Evolucionista.
"Pode o governo estar na ilegalidade, mas esta ilegalidade, tem por fim salvar a Pátria e a República". António José ataca fortemente os Democráticos de Afonso Costa dizendo "Aqueles que o combatem (O Governo) fazem alarde de uma ilegalidade mentirosa pelas frinchas da qual entram todos os crimes".
Escreve a Capital que estas palavras foram proferidas com extraordinária violência. Segundo António José, "Os evolucionistas apoiam o governo, porque á sua frente está um homem honrado e que lhe merece toda a sua confiança". António José termina o discurso propondo Simas Machado para presidente da mesa do congresso, ao qual se segue uma chuva de aplausos que dura vário minutos.

O Discurso de Simas Machado
Simas Machado começa por agradecer a nomeação para presidente da mesa do congresso e explica que a sua decisão em aderir ao Partido Evolucionista foi motivada às opressões e enxovalhos que António José de Almeida foi vítima no Porto.
Para Simas Machado o congresso servia para o Partido Evolucionista provar ao país que era um partido de governo.
Para Simas, a republica tinha-se transviado e era necessário levá-la para o caminho correcto:
- Suavizar a lei de separação;
- Modificar a lei do registo civil;
- Reformar, em bases sólidas o exército.

Os restantes discursos, para além de mútuos elogios defendem a revogação da Lei da Separação e sua substituição por uma concordata e a Liga Naval propõe uma lei eleitoral no qual o recenseamento fosse o mais alargado possível.

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Segunda-feira, Março 24, 2008

O Congresso Evolucionista I

O congresso realizou-se nos dias 10 e 11 de Abril de 1915. Inicialmente estava previsto para se efectuar no Coliseu da Rua da Palma, mas o proprietário, Conde de Folgosa, não o permitiu, pelo que o congresso foi transferido para o Teatro Politeama.


Noticía o Jornal "A Capital"
Chegam os Marechais do Partido – Mesquita Carvalho, Júlio Martins, Simas Machado, Arnaldo Bigote, Celestino de Almeida, Trindade Coelho assiste ao congresso do primeiro balcão.
No "Foyer" vendem-se retratos de António José de Almeida e de … Pimenta da Castro.

Diz o mesmo Jornal que Antero de Figueiredo, parece meditar num novo livro, de tão alheio se mostrava ao desenrolar do congresso.
A entrada de António José de Almeida no palco, provoca longos minutos de aplausos entusiásticos.

Terça-feira, Março 04, 2008

Recenseamento a passo de caracol

O recenseamento pela nova lei avançava muito lentamente, pois as câmaras municipais, controladas na sua maioria por elementos afectos ao partido de Afonso Costa, não o estavam a implementar na prática. O motivo disto prendia-se com o facto de que um escrutínio mais alargado iria penalizar fortemente o Partido Democrático, afastando desse modo Afonso Costa do poder.Urgia pois, e por qualquer meio impedir a concessão do direito de voto a todos aqueles que não simpatizavam com os democráticos. Para obstar a este bloqueio o governo de Pimenta de Castro dissolve as câmaras municipais que se opunham à realização do recenseamento. Esta seguinte carta, com uma assinatura desconhecida, mas de um camarada de armas, foi remetida em 18 de Abril de 1915.



Meu Exmo. Amigo

Aqui me conservo, por enquanto, visto ter requerido para ir à junta.
Quero ver, até onde chega a perseguição do Justino, Assis e cia. Limitada.
E, dizem, que fizeram um movimento para que os civis não interferissem na tropa!! Pois eu sei que os meus camaradas todos, embora alguns com pouca vontade, da guarnição fizeram sentir o seu desgosto para o Ministro da Guerra. Logo e concerteza, fará de nós monárquicos e conspiradores.
A isto chegamos.
Resistirei e se chegar o açoite, vir-me-hei embora desta coisa, ainda que a desgraça me bata à Porta.
Isto vai ao fundo e já não há dúvidas.
Hoje, violentamente e sem o mais pequeno pretexto, foi dissolvida a câmara daqui.
Quem mais manda aqui no Distrito é o Manuel Tomás e filho.

Meu caro amigo

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Sábado, Março 01, 2008

Amuos

A organização do congresso não correu de feição a Simas Machado, que em carta escrita a António José de Almeida ponderou não se deslocar a Lisboa. Este, em carta datada de 6 de Abril o tenta demover dessa decisão.

Meu prezado Amigo

Recebi a sua carta e escrevo-lhe esta para o demover da resolução em que está de não vir ao congresso.
É indispensável que V.Ex.ª assista a essa reunião do nosso partido porque se a questão do número é muito importante, a questão da qualidade não o é menos. E o meu amigo ao aumentar a quantidade em mais um, aumenta a qualidade em mais mil.
Peço-lhe pois encarecidamente que disponha as suas coisas e apareça cá ainda que não seja senão de passagem.
Desculpe a impertinência e creia-me sempre na amizade sincera do seu dedicado amigo

António José de Almeida

P.S. – peço-lhe que insista junto do Carvalho Mourão e outros amigos de maior relevo para que não faltem

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Sexta-feira, Fevereiro 08, 2008

Preparando o Congresso Evolucionista

No mesmo dia, Luís Mesquita Carvalho, advogado, genro de Guerra Junqueiro e deputado do Partido Evolucionista por Santo Tirso, escreve a Simas Machado dando instruções sobre a preparação do congresso.

Meu Caro Simas

Quando recebi a sua carta, estava já publicada no “República” a nota da constituição da Junta Distrital partidária do Porto, o que para todos os efeitos equivale ao seu reconhecimento oficial e o deve ter satisfeito. No entanto, falei com o António José sobre o assunto; dizendo-me de que a demora na aprovação pela Junta Central resultou apenas do seu estado de Saúde e de um novo ataque de gota na mão direita, que o tem em casa há uma semana e o impossibilita absolutamente de escrever.
Pelo que respeita ao Miguel de Abreu, compete à comissão organizadora do congresso entender-se com ele; o que fará agora com facilidade, visto ele estar em Lisboa.
Não descure o meu amigo no distrito do Porto a representação ao congresso; lembre-se que a sua importância pela numerosa concorrência é para nós, neste momento, politicamente decisiva.
E lá nos entenderemos todos animados da mais viva fé para influirmos poderosamente, como convém, nos destinos desta infeliz República.

Abraça-o o seu amigo dedicado e obrigado

Luís de Mesquita Carvalho
Lisboa, 30/3/1915

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Terça-feira, Fevereiro 05, 2008

Almeida, António José de (1866-1929)

(Penacova, 18 de Julho de 1866 - Lisboa, 31 de Outubro de 1929). Médico, jornalista e político, 6° Presidente da República Portuguesa, nasceu de uma família de modestos lavradores (José António de Almeida e Maria Rita das Neves e Almeida) que o mandaram estudar a Coimbra, onde se formou (1895). Republicano desde os bancos da escola, viveu intensamente o período do Ultimato (1890), distinguindo-se por um contundente ataque ao rei D. Carlos no jornal académico O Ultimato, que intitulou «Bragança o último» e que lhe valeu a cadeia por três meses. Esteve também implicado na revolta republicana de 1891, mas sem lhe sofrer consequências. Concluído o curso de Medicina, embarcou para São Tomé onde exerceu clínica (1896-1903), se espe¬cializou em doenças tropicais e amealhou uma pequena fortuna que gastaria mais tarde no jornalismo e na política. De regresso à Europa, e depois de um breve estágio em clínicas de Paris (1903-04), abriu consultório em Lisboa, onde se tornou querido de uma vasta clientela popular.
Ingressando no Partido Republicano Português e, mais tarde, também na Maçonaria e na Carbonária, António José de Almeida depressa se tornou uma das figuras mais conhecidas e prestigiadas do republicanismo, quer pelas suas capacidades como orador impetuoso, agressivo e completamente demagógico.
Escreveu para vários jornais, sobretudo para A Luta, mas foi no Parlamento (1906-07; 1908-10) e nos comícios dos últimos anos da Monarquia que o seu talento oratório o impôs como caudilho indiscutível, além de o revelar como mestre de arte retórica. Em 1910 fundou a revista Alma Nacional, que dirigiu, e onde colaborou assiduamente até à proclamação da República.
Conspirador contra a ditadura de João Franco, preso e logo libertado após o Regicídio (1908), participou activamente na preparação do movimento republicano, sendo natural que lhe colhesse parte dos louros como ministro do Interior no Governo Provisório (5-X-1910 a 3-IX-1911) e como deputado (1911-15; 1915-17; 1919).
Como ministro deveu-se-lhe uma actividade fecunda, sobretudo no campo da Instrução pública. A necessidade da manutenção da ordem numa época difícil e conturbada por toda a espécie de fermentos políticos e sociais valeu-lhe a má vontade de parte das populações de Lisboa e Porto, que o acusaram de traidor e de certa maneira o empurraram para uma posição conservadora que nunca fora a sua. Ainda ministro, fundara e começara a dirigir o jornal República (1911), que se tornou o órgão de combate e de expressão de toda uma camada de republicanos que se opunham a Afonso Costa e às suas tendências radicais. Aí escreveu continuadamente até 1919. Fundou o Partido Republicano Evolucionista (1912), agrupamento heterogéneo e confusamente programado, onde militavam conservadores, extremistas e simples despeitados. Apesar da sua aparente força e da projecção nacional que teve, o Partido justificava-se tão-somente pela figura do seu chefe. Em 1916 reconciliou-se com Afonso Costa e aceitou a presidência de um governo de guerra conhecido como governo da União Sagrada (16-111-1916 a 25-IV-1917), onde também geriu a pasta das Colónias. Abandonando-o mais tarde, continuou porém a apoiar Afonso Costa até ao Sidonismo, que sempre repudiou, ao contrário da maioria dos evolucionistas.
Em Agosto de 1919, proposto pêlos Partidos Evolucionista e Unionista, mas com o apoio de muitos Democráticos, foi eleito presidente da República, cargo que desempenhou até ao fim do mandato (1919-23), com o aplauso e respeito unânime dos vários agrupamentos políticos e entre escolhos que pareciam insuperáveis. Visitou o Brasil (1922) para tomar parte nas festividades do centenário da Independência, deixando fama quase lendária pelas suas capa¬cidades oratórias. Ainda voltou a ser deputado por Lisboa em 1925 mas depois, doente e prematuramente envelhecido, passou em silêncio literário e político os últimos anos de vida.
Iniciado maçon por comunicação em 1907 (Álvaro Vaz de Almada), pertenceu à loja Montanha. Foi eleito Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano em 1929, nunca podendo tomar posse devido ao seu estado de saúde.
Ministros e Parlamentares da 1ª Republica - Guinote et al - Lisboa - 1991 - Assembleia da República

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Entretanto, no campo Evolucionista

Simas Machado, simpatizante do Partido Evolucionista de António José de Almeida, é eleito presidente da Junta distrital do Porto desta agremiação política. António José, a convalescer de um ataque de gota (Excesso de ácido úrico), escreve-lhe a dar instruções para o congresso próximo.

Meu Ex.mo e prezado amigo

A doença não tem permitido que eu lhe escrevesse há mais tempo. V.Ex.ª me desculpará esta falta que tem sido inteiramente involuntária e que eu sou o primeiro a lamentar.
A junta Distrital do Porto foi sancionada e com muito prazer pela junta central. Esperamos agora que ela desempenhe as suas funções com o entusiasmo e o ardor próprio dos homens que a compõem entre os quais, com o mais alto prazer para mim, se encontre V.Ex.ª que muito estimo e respeito. Entre os trabalhos mais urgentes que essa junta tem a desempenhar deve contar-se uma grande representação de todo o distrito do Porto ao próximo congresso e que V.Exas. promoverão, tudo em vista que nas localidades onde não houver comissões organizadas nem por isso as diferentes tendências devem deixar de se fazer representar, porque qualquer núcleo de evolucionistas, à face do nosso estatuto tem o direito a enviar delegado.
Considero este assunto como muito importante, pois de uma larga e idónea representação do nosso congresso, dependerá em grande parte o nosso sucesso político no meio dos acontecimentos que se estão desenrolando.
Espero que V.Ex.ª e por sua parte como membro da junta distrital faça tudo o que puder para que neste momento difícil, mas tão cheio de esperanças para nós, o Partido Evolucionista consiga definitivamente a situação a que tem direito. Muito folgarei também de ver V.Ex.ª no congresso de Lisboa onde a sua alta inteligência e o seu grande critério muito úteis serão à orientação partidária.
Desculpe V.Ex.ª não escrever esta carta mais cedo, mas um fortíssimo ataque de gota me impede de escrever há mais de dez dias.
Aceite os protestos da minha consideração e da minha mais devota amizade.

Afectuosos cumprimentos

António José de Almeida

30/3/1915

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Terça-feira, Janeiro 29, 2008

Apoios a qualquer preço

A 23 de Março, Rodrigo de Abreu, escreve a Raimundo Meira das diligências que tem vindo a fazer no sentido de granjear mais apoios para o lado republicano.

23/3/1915

No correio de hoje seguiram para o directório, registados, os documentos constantes da circular confidencial, os quais requeri à câmara por meu próprio punho. De Coura nada sei por enquanto mas não admira. Estive, como lhe disse com o Manuel Tomás. Não lhe fiz confidências, porque as não faço senão a quem deve ser. O homem diz que os monárquicos não vão às urnas, como também afirmam os mais entendidos. Se forem, diz, têm de perder, se não for a bem é a mal. Eu, diz ele, não sou hoje um político, mas tenho todo o interesse e orgulho em que o nome de meu irmão, que foi sempre republicano, fique ligado à história e só pode ficar salvando a República, pois que a monarquia nunca mais volta. Não tem ligações com partidos e conta com todos os republicanos. Foi a primeira vez que vi aquele homem a falar sem se rir e dizer que dava a sua palavra de honra, que serviria, sem ser político, a República com toda a dedicação. Que estava pronto a receber os republicanos sempre que quisessem e agradecer todos os informes que lhe dessem. A opinião e informe dele é que os monárquicos não vão às urnas, mas são capazes de fazerem qualquer garotice para perturbar, mais nada.
Em resumo. O nosso partido poderá sofrer nesta triste conjuntura que atravessa a República, mas os monárquicos ainda desta não vencem.
Note, eu declarei ao homem logo de princípio, que era republicano acima de tudo mas filiado num partido, o Democrático, cuja orientação e programa acompanhava. Falou-me em si com as melhores referências.
Seria bom vir por cá e abordá-lo também. Em artilharia houve uma festa militar onde oficiais e sargentos fizeram declarações de amor à República. Que pândegos. Pareciam mais republicanos que nós! Estive com o Segismundo.

Seu amigo certo

Rodrigo de Abreu

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Domingo, Janeiro 27, 2008

O Pânico aumenta

A 18 de Março, Rodrigo de Abreu, informa Raimundo Meira do enorme pânico que grassa em todas as hostes republicanas devido à grande adesão que os monárquicos vêem registando nas suas acções de campanha.

18/3/1915,
São duas horas da noite e chego a casa onde encontro a sua carta. Vou dar-lhe cumprimentos amanhã e por isso hoje fica pronta com a circular dentro, a carta para Coura dirigida ao A.V. para seguir no primeiro correio.
Isto por aqui corre mal se houver eleições. Eu ando a ver se conserto o que posso, mas não vejo as coisas bem.
Os evolucionistas de cá estão descontentíssimos e apavorados com as reuniões monárquicas, bem como com as autoridades e o trabalho eleitoral que têm feito. Amanhã vou terminar uma conferência com Manuel Tomás velho, o qual disse que pretendia ouvir-me sobre as questões monárquicas e sobre os regedores, que eu considero conspiradores. O homem deu a sua palavra de honra ao Ferreira Soares que estava resolvido a combater os monárquicos por todos os processos, embora o irmão lho proibisse, (1) pois só assim seria possível fazer alguma coisa e ele desejava servir o irmão que no presente momento tinha o seu nome ligado a uma missão histórica que havia de honrar a sua família. Ele não era republicano, mas que o irmão sempre o foi e havia de servir a República através de tudo, que podia ter a certeza disso. Este homem é um velhaco mas eu não direi senão o que me convém e ficamos a conhecê-lo mais. O Soares ficou surpreendido com a atitude dele, que não o esperava. Eu avisei desta entrevista apenas o Brandão. O Zé de Abreu trabalha com eles incondicionalmente. O António Carvalho da mesma forma. O Martinho Cerqueira e o Conde de Azevedo recolheram ontem a casa depois das duas horas. O Reimão foi procurado pelo Zé Gatuno em Casa. Por a minha parte estarei sempre firme para tudo o que for possível, nada me apavora, nada me altera, no caminho que devo seguir, sempre pela República, enquanto ela precisar e viver. Mande sempre e se puder apareça. Tenho empenho de ir ao congresso. Vamos a ver se o poderei fazer.
A questão económica é sempre a dificuldade. Leia no Povo a atitude da Câmara. Para os outros mandei indicações idênticas. Dar-lhe-ei conhecimento das démarches junto do Manuel Tomás.

Seu amigo certo

Rodrigo de Abreu

PS: Dê sempre informes de tudo, pois preciso sempre de estar a par de tudo! Homem prevenido vale por dois …
Vai ao Congresso?

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Sexta-feira, Janeiro 25, 2008

O Pânico democrata

Em Março de 1915, os Democráticos de Viana do Castelo estavam em pânico. Viam conspirações em todos os cantos e esquinas. A perspectiva de umas eleições nas quais todos pudessem votar, afigurava-se-lhes uma catástrofe anunciada. A organização e apoio que pela primeira vez os monárquicos demonstravam, estavam a pôr os cabelos em pé aos partidários de Afonso Costa. Em face disto, era necessário prepararem-se para o pior e vigiar de perto as acções monárquicas.

Viana, 16/3/1915

Meu caro amigo

Ontem houve aqui grande reunião monárquica. Nela estiveram vários conspiradores de categoria. Esteve o Zé gatuno, Luís de Magalhães, Conde de Azevedo, Adolfo Pimentel, Reitor de Caminha, Regos de Caminha, Conde Vitorino, Amândio Lisboa, António Carvalho e outros. O Zé gatuno procurou e falou com o Reimão*.
O Zé de Abreu de Ponte de Lima mandou dizer que estava com os monárquicos ainda mesmo que pelo distrito propusessem o filho.
O assunto que, segundo me informou, foi discutida a questão eleitoral. Resolveram, depois de breve discussão ir às urnas em todos os concelhos onde pudessem ganhar. Onde não fossem disputariam as eleições camarárias e paroquiais.
Participei este assunto ao Governador Civil sem entrar em pormenores, porque não confio nele, e só lhe disse isto, que tinham cá estado estes membros, foi apenas para ver o que ele dizia. Continuam, ao mesmo tempo que preparam estas coisas, a conspirar à bruta, aguardando o momento propício para um movimento pela força armada. Veja se decifra esse papel que aí vai a lápis duns apontamentos que tirei à pressa para uso próprio.
Eu talvez vá ao Porto brevemente. Por aqui tem nomeado conspiradores para regedores. Já estão dois nomeados, um em Santa Marta outro na Meadela.
Não tenho tempo agora para mais. Escreva e conte coisas.

Seu amigo certo

Rodrigo de Abreu


* Malheiro Reimão - Ministro do Governo de João Franco de Castelo Branco

Este é o manuscrito referido por Rodrigo de Abreu, provavelmente copiado de um relatório de uma toupeira que actuava dentro da organização monárquica.

Dia 4 – Rua formosa, 237- Zé de Azevedo, Joaquim Machado, G. Abreu, P. Torres, Luís Magalhães e Reitor de Caminha – Esperam tumultos por ocasião da Reunião do congresso ou o assassinato de Afonso Costa.
Adiamento (das eleições) – Não lhes foram favoráveis as notícias de Lisboa.
Nova Reunião no Porto com O. Lima e Abel Martins Pinto dizendo este – é questão de mais uns dias – Paiva continua na Galiza. Padre Domingos continua em Vigo.
Dia 6 – Às 16 horas, Hotel Universal, Batalha. Vão aliciados falar com Reitor de Caminha por serem chamados. Recomendam vigiar os quartéis para não serem atacados pelos carbonários. Confirmando-se este assalto aos quartéis, devem participá-lo imediatamente aos dirigentes do Hotel Universal para serem avisados grupos e conjuntamente com a polícia assaltarem casas de republicanos e fazerem a anunciada matança.
Dia 8 – Teve uma conferência com D.C. de Menezes.
Dia 9 – Reunião no Hotel Universal com Abel Ferreira, Abel Pereira, Reitor de Caminha e Luís de Magalhães. Este diz "A coisa vai bem. O Pimenta de Castro tem quase tudo na ordem".

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Sexta-feira, Janeiro 18, 2008

Uma cunha no meio da "barafunda"

Em 15 de Março, Simas Machado recebe mais uma carta de Luís Mesquita de Carvalho, no meio da "barafunda" política em que o país se encontra, a “cunha” para o lugar de Barcelos continua a ser uma preocupação para Simas Machado.

Meu Caro Simas

Obrigado pela amabilidade do seu telegrama; infelizmente não pode você servir-me desta vez.
Não suponha que me esqueci do seu pedido acerca do Dr. Porfírio, de Barcelos. Simplesmente ele veio encontrar-me de cama, onde estive quatro dias com forte dose de gripe. Hoje que já pude levantar-me, procurei falar ao Afonso de Mello (Chefe de Gabinete) pelo telefone; mas, em resposta, informam-me neste momento que ele não está em Lisboa. Se amanhã já me puder levantar (o que não creio) procurá-lo-ei pessoalmente; no caso contrário, voltarei a insistir pelo telefone.
De política nem me anima a falar-lhe. Isto está sendo uma barafunda em que nem o diabo se entende. A atitude do governo é um tanto enigmática e a gente não sabe bem para onde caminha. A ver vamos se isto tomará uma orientação mais firme e decidida. Na minha opinião, não há dúvida que o governo pensa e procura amarfanhar os democráticos; mas onde para mim existe a grande incógnita é em saber se procura auxiliar-nos a nós ou fazer política. Se assim for, resultará no futuro congresso para as direitas um gachis mil vezes pior do que o anterior, de que só poderão sair governos a viverem à mercê de apoios traiçoeiros, sem força própria, sem hegemonia partidária, sem programa definido de reformas: uma embrulhada de lutas de grupelhos e de ambições pessoais, de que afinal resultará cada vez maior o enfraquecimento da Republica e sua lenta agonia.
Deus super omnia. Mas mal irá a inspiração divina se os homens não conseguem entender-se e … ter juízo.
Abraça-o o seu amigo dedicado e obrigado

Mesquita Carvalho
Lisboa. 15/3/1915

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Terça-feira, Janeiro 15, 2008

A reacção democrática e a Retracção “Moderada”

O Partido Democrático após a publicação da nova lei eleitoral declarou guerra ao governo de Pimenta de Castro.

O Presidente do Parlamento (Manuel Monteiro) é informado por um oficial da Guarda da proibição da abertura do Congresso (Foto de Benoliel)

Estava marcado para o dia 4 de Março uma reunião do Congresso da República (Sessão conjunta das duas câmaras). Nesse dia os deputados e senadores ao chegarem a São Bento viram o edifício cercado por tropas da Guarda Nacional Republica, que impediram o acesso ao interior do Edifício, impossibilitando assim a reunião parlamentar.

Desafiando o governo, Afonso Costa e os seus deputados e senadores, reuniu-se no Palácio da Mitra em São Julião do Tojal, Loures. Acção que os deputados moderados (Unionistas, Evolucionistas e independentes) não secundaram. Mesmo assim o Partido Democrático considerou a reunião como um congresso das duas câmaras mesmo não passando de uma reunião do grupo parlamentar.


Reunião dos parlamentares do partido Democrático na Mitra (Foto de Benoliel)
Nesta reunião, e por unanimidade, o governo de Pimenta de Castro foi considerado “fora-da-lei” e os seus actos legislativos foram considerandos “nulos e sem efeito”. Mais ainda, Afonso Costa, no seu discurso compara Pimenta de Castro a João Franco, dizendo que a "ditadura” de Pimenta era pior, mais indigna e mais infame, rematando o seu discurso dizendo “[…] Não sei que horas sombrias virão, o que sei é que a república vingará”. Tal como Nuno Severiano Teixeira afirma no seu livro “O Poder e a Guerra 1914-1918” - “Se não era o incitamento ao derrube do ditador, era pelo menos uma declaração de guerra à ditadura, que o mesmo era dizer, a ameaça de uma nova revolução”.
Perante esta ameaça de revolução bastaria a Pimenta de Castro o apoio cada vez mais relutante dos moderados e do exército? Não.
Nem os moderados tinham grande poder, nem o exército desejava combater para apoiar Camacho e Almeida, que considerava parte da "Canalha reinante". Por isso Pimenta de Castro voltou-se para outro sector da sociedade que até aí estava legalmente excluído da vida cívica – Os monárquicos.
Pimenta de Castro a coberto de uma politica "Nacional" começou a atribuir cargos a monárquicos, incluindo os membros do Integralismo Lusitano. A 20 de Abril publica uma lei da amnistia a todos os monárquicos e levanta a proibição da constituição de centros e partidos monárquicos. Isto enfurece os republicanos, que não admitiam que a republica pudesse tolerar os monárquicos no seu seio. Com a lei eleitoral de Pimenta de Castro, que diluía o voto urbano (Democrático) no voto rural (Monárquico), com os mecanismos de recenseamento nas mãos do governo, que o queria o mais alargado possível, as eleições estariam ganhas à partida pelos monárquicos.
Com a amnistia Pimenta de Castro perde o apoio dos moderados, com excepção de Brito Camacho, que como não possuía qualquer poder, optou por permanecer ao lado de Pimenta, bem como Machado dos Santos, este último mais por ódio a Afonso Costa, que por apoio às políticas de Pimenta de Castro.

Fontes:
A Republica Velha (1910-1917) Ensaio, Vasco Pulido Valente, Gradiva Publicações Lda. – Lisboa 1997
O Poder e a Guerra 1914-1918 – Objectivos nacionais e estratégicos na entrada de Portugal na Grande Guerra, Nuno Severiano Teixeira – Editorial Estampa Lda. - Lisboa 1996
História de Portugal - Suplemento - Direcção de Damião Peres, Portucalense Editora - Porto 1954

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Segunda-feira, Abril 23, 2007

Contando espingardas

A 14 de Março Segismundo A. Pereira, militar, escreve a Raimundo Meira a combinar um encontro no Porto. Pela Carta Segismundo informa Raimundo Meira da sua disponibilidade para secundar um possível golpe militar.

Meu caro Meira

Há palavras da tua carta anterior à que anteontem recebi que não dei o sentido restrito do seu significado literal, mas antes (conforme fiz ver ao Manuel dos Santos, que foi chamado à barra) dei-lhes uma interpretação de tal modo diferente que sem dúvida nela há de caber ou moldar-se a causa que a mim ou ao Manuel reclama aí. Presumo do que se trata e deve tratar-se. Não surgindo daí qualquer contrariedade irei na próxima Sexta-Feira no comboio-correio da tarde e seguirei para o hotel Aliança onde te esperarei pelas oito e meia.
Que não haja desânimo, dizes-me que sim, eu pelo menos não desanimo: antes vibro com franca fé pela República, meu único credo político no passado e no presente, e no futuro se não surgir um certo rei perfeito.
Trago sim confrangido o coração com o hiper-desvairamento que se encontram muitos republicanos por causa da organização deste ministério, da sua política, da sua obra, que não sei se tem por objectivo hostilizar o partido democrático, se por bem intencionado reparar erros, ou ainda se, pelo andar que as coisas estão tomando, irritado, azedado, atalassado, preparar a intriga, como por vezes se chega a presumir da República à nação. Seja como for, creio assim a República uma tal situação quer os seus amigos, sobretudo nos meios pequenos, remetem-se humilhados. Mas não ficará por aqui a nova revolução. Se com este ministério a Talassaria concorrer às urnas, neste distrito e no de Braga e por certo nos outros, os republicanos nem talvez apanhem as minorias.
Ora tudo isto não fazendo perder a fé numa vida sadia da República, vai no entretanto torturando muito e muito aqueles que não cultivaram o “sport” de atirar à república em vez de atirar à nação, obras que lhe dessem prosperidade e achatassem a talassaria. Agora sem ruído é preciso restabelecer a Republica. Para isso tem o meu franco concurso. Falaremos. Até Sexta-Feira à noite.

Teu certo e estimado amigo
Viana 14/03/1915
Ségis

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Terça-feira, Abril 17, 2007

Preparando o golpe

No dia seguinte Sá Cardoso relata a Raimundo Meira o ambiente que se vive na capital, onde impera o ódio aos Democráticos. Dois meses antes do golpe que organizou, Sá Cardoso não deixa transparecer as suas intenções nesta carta.

Lisboa 13/3/1915

Meu caro amigo

Fiquei contentíssimo com o que me conta. Oxalá um dia, eu possa dizer-lhe o mesmo de Lisboa.
Por enquanto isto por cá não está bem. Em verdade pode dizer-se que predomina o ódio aos democráticos e que, a isto, tudo se […], opiniões, República, tudo enfim.
Em Lisboa só há, por assim dizer, democráticos e anti-democráticos, estando todos, unionistas, evolucionistas, machadistas e monárquicos unidos contra nós.
Isto faz com que qualquer movimento que aqui se tentam agora tirem todo o carácter partidário, o que não convém nem mesmo ao partido que possa defender a República e os seus interesses.
Para mim, tenho por certo que isto não acabe bem. As perseguições são constantes aos republicanos e não só aos democráticos, havendo blandicias para os monárquicos, que são afinal, quem manda no Ministério da Guerra.
Temos de deixar passar a opinião para então aqui e deixar desde já preparadas as coisas para pararmos o grande golpe que se está a preparar na sombra.
A República não morrerá porque tem o povo a defendê-la mas tenho a certeza que vai ser minada fortemente pelos monárquicos que habilmente estão a preparar o voto favorável para prepararem a volta do tigre com o amotinamento, ie, queria dizer consentimento do António José e do Camacho.
O que importa é saber, porque de vários pontos me chegam notícias, que fora de Lisboa a atmosfera é democrática.
O caso do empréstimo, este está ao cuidado dos próprios que têm para o despachar. Que deve de estar por um fio se o novo ministro não levantar embaraços
Adeus caro amigo

Sá Cardoso

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Domingo, Abril 08, 2007

Viana ao Rubro

Os democráticos, por outro lado, estavam extremamente nervosos, pois, ao não possuírem qualquer apoio no governo, estavam a perder o controlo dos governos civis e das administrações de concelhos, conforme podemos ler nesta carta de Rodrigo de Abreu a Raimundo Meira escrita a 12 de Março de 1915.

Meu caro Amigo

Recebi a sua carta. Eu também tenho trabalhado na defesa da República quanto tenho podido e para mim não há desânimos, nem mesmo na hora de maior perigo. As violências já começaram também por cá. Eu estou envolvido num caso de bombas, acusado por o Esgueira Machado e outros conspiradores da Meadela. Estão a instaurar um processo e falam em buscas. Não tenho nada na minha casa, mas só lá entram à força porque eu não consinto que lá entrem doutro modo enquanto não está no trono o D. Manuel. Já disse ao administrador que trabalho nestes assuntos desde 1904 e não me deixo cair assim à boa nas artimanhas dum parvo como ele e que me vendo caro. Os talassas continuam radiantes e fazem no Domingo a procissão dos Passos. Estão a ser nomeados os regedores entre tudo o que há de mais talassas.
São mais covardes. Há dias escreveram uma insolência ao nosso partido por debaixo do telegrama que anunciava a reunião do congresso em Loures. Estava presente o A. Campos, o Sabonete, o General Marques, o Capitão Branco, os filhos e outros. Desafiei-os, chamei-lhes Garotos, disse tudo quanto me veio à cabeça e os tipos rasparam-se sem dar um pio. Disse-lhes que era formiga mas que antes dos talassas me porem um dedo eu havia de fazer virar a algum, as pernas por cima da cabeça – Nem assim!!! Quanto à Câmara mandou a sua adesão e vou reunir a deliberativa que alguma coisa fará também.
Entre os requerimentos nossos, evolucionistas e talassas entraram 800 e tantos, mas desses, 300 devem ser deles, dos talassas. Vai-se fazer o protesto contra a entrada dos requerimentos depois do dia 28. Ficou hoje de manhã alguém encarregue disso. Hoje esteve cá o Ramos Pereira e mostra grande empenho que alguém vá daqui à reunião do congresso. Vou hoje ver se se pode conseguir alguma coisa nesse sentido, porque eu, somente á minha custa não posso ir, porque os tempos estão bicudos … Se não for ninguém, delegaremos na gente de Lisboa.
O Congresso é muito importante e não se deve dar lá uma impressão de fraqueza que o torne inferior ao da Figueira. Eu queria ir mas talvez não o consiga.
Vou mandar a sua carta ao Oliveira. Também me parece que este governo não chega às eleições, mas é preciso estar a pau porque isto não está nada bem. Mande sempre

O seu amigo

Rodrigo de Abreu

12/3/1915

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Quinta-feira, Abril 05, 2007

Convites a candidatos

O partido Evolucionista, porém jogava tudo por tudo nas eleições organizadas por Pimenta de Castro. Simas Machado tentava convencer Alfredo de Magalhães a se apresentar como candidato pelo Porto.

Meu caro Simas

Recebi ontem essa carta do Fontinha e respondi-lhe nos termos que também lhe envio a si por cópia.
Se os Evolucionistas me gramarem a conferência como a tenho fisgada, só depois dela poderei definir a minha atitude política.
Isto não quer dizer que não tenha a maior satisfação em reatar relações com o António José, se ele entretanto vier ao Porto; mas no interesse de todos, convém que eu proceda assim. Entendido?

Seu amigo

Alfredo

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Quarta-feira, Março 28, 2007

Luís Augusto de Sales Pinto Mesquita de Carvalho (1868-1931)

Nasceu no Porto em 1868, filho do General Luís Pinto de Mesquita Carvalho e de Mafalda Júlia de Lemos Barbosa de Albuquerque.
Frequentou a Faculdade de Direito de Coimbra, tendo obtido o grau de Bacharel em 1890. Dedicou a sua vida profissional à advocacia e ao notariado.
Foi notário público em Vila do Conde, Vila da Feira, advogado em Aveiro, Vila do Conde, Porto e Lisboa. 1º oficial da Direcção Geral de Saúde do Ministério do Interior (Até 1917).
Foi membro do s Partidos Evolucionista e Liberal. Deputado por Santo Tirso (1911 e 1915). Ministro da Justiça entre 16 de Março de 1916 e 25 de Abril de 1917, e novamente entre Janeiro e Março de 1920. Esteve preso em 1918, tendo retomado o assento parlamentar por Oliveira de Azeméis em 1919. Casou com Fernanda Elísia de Catalã do Amaral Osório da qual teve dois filhos e mais tarde viria a casar com Maria Isabel de Guerra Junqueiro, filha do famoso escritor. Faleceu em 1931.
Publicou as Obras A Família o Casamento (1908) e Projecto de Lei do divórcio em Portugal (1910).
Constituiu a fundação Maria Isabel Guerra Junqueiro e Luís Mesquita de Carvalho, pertença da Câmara Municipal do Porto, a qual mantém ainda hoje a casa-museu Guerra Junqueiro no Porto
Ministros e Parlamentares da 1ª Republica - Guinote et al - Lisboa - 1991 - Assembleia da República

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Apreensões e esperanças Evolucionistas

No campo Evolucionista existiam algumas apreensões, mas reinava um comedido optimismo com a perspectiva de uma maioria absoluta no futuro acto eleitoral.
Em 26 de Fevereiro, Luís Mesquita de Carvalho, dá conta das suas apreensões a Simas Machado. Para ele havia de facto uma ditadura que, apesar de ferir os seu temperamento democrático, julgava necessária para por cobro aos desmandos de quase 5 anos de poder de Afonso Costa.

Meu caro Amigo

A esta hora talvez saiba que na vaga de notário do Porto foi colocado o Pinto Osório, que exercia idênticas funções em Braga. Quando falei ao ministro da Justiça, já ele tinha o caso resolvido e até o decreto lavrado. É possível que nada se tivesse conseguido, mas a verdade é que o seu pedido veio tarde. Infelizmente, como vê, nada se pode arranjar, por este lado; mas, em compensação, o ministro deu-me as melhores esperanças de que seria atendido no outro pedido – o da transferência do delegado de Ponte de Lima para Barcelos. Se assim for já não conseguíamos pouco, porque a vaga de Barcelos é muito e muito disputada.

De política, meu amigo, havendo imenso de importante, há afinal pouco que dizer. Como compreende, a situação nos últimos dias variou por completo. O governo enveredou pela ditadura franca e rasgada contra os democráticos. O facto, como precedente é gravíssimo pela violência das medidas; como providência política, tornava-se sem dúvida indispensável. Para onde caminhamos? Não sei bem. Fazer uma afirmativa optimista sem algumas preocupações parece-me temerário; pôr as coisas em negro (de luto como fez “o mundo”) ante o espectro da monarquia, parece-me também exagerado desvairo.
Não, Tenho para mim que o governo é sinceramente republicano e que as instituições não correm risco. Os próprios monárquicos não estão contentes e vão-se desiludindo de encontrarem uma maré de favor, como a principio supuseram. A meu ver, o governo tem um programa único e imediato: reduzir os democráticos a proporções inofensivas e meter na ordem a formiga. E esse, creio, há de esforçar-se por o realizar.
Quanto a nós, como partido, prevejo que a monção nos virá a ser propícia. Dentro da República somos os únicos que padecemos e devemos governar. As eleições, convenientemente trabalhadas em propaganda e sem perseguição do governo, devem dar-nos maioria parlamentar, pelo menos a indispensável para constitucionalmente governarmos. E então, dentro da lei e dos princípios realizarmos o nosso programa e de se sair deste pesadelo de ditadura e de farsa que, embora necessária e consequência fatal os destemperos democráticos é da perfídia Camachista, nem por isso deixa de ferir os temperamentos, como o meu, e de penalizar as almas, como a minha, verdadeiramente imparciais e republicanas. Os fins muitas vezes justificam os meios; mas nem sempre se podem aceitar sem inteira relutância. Certo é, porém, que os democráticos não têm de se queixar-se e são indignos de protestar: foi esta a sua desgraçada obra; é esta a deplorável situação que criaram.
A nova resolução partidária vai ser tomada logo numa reunião que temos à noite; mas não lhe será difícil presumir qual seja. Não há senão uma…
Adeus. Apareça. Impaciente por vê-lo e abraçá-lo está o seu amigo muito dedicado

Luís Mesquita de Carvalho
Lisboa, 26/2/1915

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Terça-feira, Março 27, 2007

Nervosismo Democrático

O nervosismo dos democráticos é bem patente nesta carta dirigida a Raimundo Enes Meira, para eles a Monarquia já estava instalada. A perda de poder estava a traduzir-se no recenseamento eleitoral de adversários políticos a que rotulavam de Talassas (monárquicos) independentemente de o serem ou não.
Carta escrita no dia 23 de Fevereiro de 1915, de remetente desconhecido. O sobrescrito tinha o timbre do Colégio Beira-Mar de Leça da Palmeira.

Como tem passado em face de toda esta temperatura politica?
Na minha humilde opinião, se os monárquicos não forem tão chapadamente burros como os republicanos, têm agora uma magnífica oportunidade única de consultar o país com a celebração do plebiscito Couceirista. E olhe que vencem em toda a linha, ou a lógica é uma cebola.
Com a nova lei eleitoral só podem lucrar os monárquicos e os democráticos, ou a lógica continuará a ser uma abóbora.
Olhe que só neste concelho têm sido recenseados nos últimos dias cerca de setecentos talassas…
Preparam o golpe. Como vê, e levarão de vencida os republicanos. Só quem for cego de alma e de corpo não verá em tudo isto, um plano monárquico habilmente levado a bom termo e com quase certeza de um êxito seguro.
As maiorias serão vencidas pelos monárquicos se, a sério as disputassem e pelos democráticos se aqueles não quiserem trabalhar como devem.
Eis na minha humilde opinião o estupendo resultado das manobras do traidor Camacho e dos poltrões de espada a quem ele, no seu cobotinismo piramidal, pensou servir de Saldanha de lata!
Não haverá meio de dissolver o chamado nosso exército? …
Se não há, só nos resta entoar um “de profundis” em honra da república e de nossa independência.

Quando aparece por aqui?
Cumprimentos à sua Exma. esposa e um abraço do

G?


Átrio do Colégio Beira-Mar em Leça da Palmeira (Bilhete Postal Ilustrado)

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Segunda-feira, Março 26, 2007

O Governo Pimenta de Castro (A Lei Eleitoral)

O governo de Pimenta de Castro era essencialmente um governo militar. Estes ocupavam 7 das 9 pastas ministeriais.
Os militares desprezavam os partidos em geral, não apenas os democráticos e, aspiravam a mantê-los na ordem. Não admitiam, ou pelos menos afectavam não admitir distinções entre os Portugueses. A nação pertencia igualmente a republicanos e a monárquicos, a moderados e a radicais. Todos tinham os mesmos direitos e, em particular, o mesmo direito à vida política.
O Governo de Pimenta de Castro demitiu por isso, os militares democráticos (de Sargentos a Generais) que exerciam cargos de comando. Protegida a sua retaguarda, Pimenta de Castro adiou as eleições marcadas para 4 de Março e iniciou a elaboração de uma nova lei eleitoral.
Pimenta da Castro era um perito em questões eleitorais, para ele “A lei eleitoral de um país deveria ser uma lei imutável, equitativa e justa, nunca uma lei transitória e arbritrária”. Pimenta da Castro já em 1884 e 1890 tentara, em vão, realizar uma reforma eleitoral. Tinha portanto uma ideia clara e definitiva sobre o assunto. A proposta inicial da lei era baseada no sistema de lista incompleta, uninominal, “sem alçapões nem escaninhos”, que impedisse “as tricas e estorvos politiqueiros” e estabelecia o sufrágio universal.
Os republicanos, moderados e radicais, ficaram em sobressalto, pois este tipo de lei faria com que a república não sobrevivesse, pois conduziria a um governo conservador e mais tarde à restauração do regime Monárquico. Como Pimenta de Castro dependia do apoio de Manuel de Arriaga e dos moderados (Unionistas e Evolucionistas), teve de encetar negociações, para poder chegar a um compromisso.
A lei resultante desse compromisso, publicada a 24 de Fevereiro, pouco mudou em relação às leis eleitorais de Afonso Costa. Devolvia o voto aos militares, simplificava os processos de candidatura e recenseamento e retomava, com poucas adaptações os círculos eleitorais do tempo da monarquia, que a propaganda republicana havia apodado de “ignóbil porcaria”. Na nova ignóbil porcaria, o voto democrático (urbano) seria afogado com o voto provinciano (conservador). Os unionistas e Evolucionistas ficavam dependentes da boa vontade do Governo, cuja influência era tanto maior quanto maiores eram os círculos.

Fontes:
A Republica Velha (1910-1917) Ensaio, Vasco Pulido Valente, Gradiva Publicações Lda. – Lisboa 1997
O Poder e a Guerra 1914-1918 – Objectivos nacionais e estratégicos na entrada de Portugal na Grande Guerra, Nuno Severiano Teixeira – Editorial Estampa Lda. - Lisboa 1996

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Terça-feira, Março 13, 2007

Um "Fait-Divers" - Ajudando um criador de Porcos

A 16 de Fevereiro, Alfredo de Magalhães escreve a Simas Machado, a pedir uma “cunha” para um conhecido seu. O pedido em si é pouco importante, mas o texto de Alfredo de Magalhães é carregado de ironia.

Meu caro Simas

Não repare você na ortografia arrazoado incluso, à guisa de memorial, e se tiver paciência para o soletrar, diga-me o que for de justiça.
Conheço o desgraçado que subscreve essa peça literária, e asseguro-lhe que não pode haver melhor criatura. Trabalhou todo o Inverno como um negro para criar uns porquinhos que bem cevados com as lavaduras de um regimento, haviam de ajudá-lo a recuperar de dívidas que o estrangularam; vai daí, os bichos morreram todos com qualquer tranglo-manglo que lhes deu!
Sempre que lhe acontece uma desgraça cá o tenho à porta. O infeliz não conhece pessoa mais importante que eu!
Se você poder aliviá-lo nos termos que requer, muito obrigará o seu

Muito amigo

Alfredo de Magalhães



No dia 19 Alfredo de Magalhães escreve novamente a Simas Machado a agradecer o favor prestado e, talvez por este não acreditar na história dos porquinhos, Alfredo dá-lhe mais pormenores, qual deles o menos hilariante.

Meu bom Simas

Recebi à noite a sua cartinha, pouco depois de sair daqui o Valença. Anteontem quando você passou no consultório, eu estava. Batesse ou tocasse à porta da rua, homem!
Muito obrigado por atender o pobre homem dos … Camachos. É na realidade uma excelente pessoa e chefe de uma honestíssima família. Trabalha como um burro e tudo lhe corre torto … como a nós. Pela infelicidade faz parte cá da confraria. E por isso o estimo mais. Os porquinhos de facto morreram-lhe, e julga-se nada menos que desgraçado e perdido! Veterinário, médico excelente, foi ele próprio, e assim me explicou a patogenia do caso: “Foi mais ou menos, senhor doutor, uma consequência da guerra europeia…”?!
Sim senhor! Com o extraordinário movimento do quartel nos últimos tempos, antes da partida do contingente para Angola, as lavagens naturalmente aumentaram muito, eram muito substanciais, chegavam para administrar a … todo o partido unionista!
Vai daí, quando julgava que os bichos iam engordar e comer até mais não, uma indigestão colectiva atira-me com eles para a eternidade.
Ora veja você Simas, que aventura a do pobre Oliveira, meu afilhado, e que sorte o destino reserva, estabelecida esta patogenia a tantos cavalheiros da nossas relações, que desataram a comer sem conta nem peso desde que a república veio …

O Valença disse-me que talvez fosse esta noite a casa do Adriano. Eu vou, mas não tão cedo. Entre as 10 e as 11, sem honi soit … Convêm ouvir. E a Dona Amélia não deixa de dar-nos aquele arrozinho, que sendo preparado com regra, não há-de fazer-nos o mal que as lavagens fizeram aos malogrados suínos do Sr. Oliveira.
Pois então até logo

Alfredo de Magalhães
19/02/1915

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Terça-feira, Março 06, 2007

Venda engatada

Em 28 de Janeiro, Raimundo Meira recebe uma carta do Poeta António Correia de Oliveira, cujo processo de venda da casa de Belinho se encontrava completamente encravado pelas lutas dos caciques do Partido Democrático em Viana do Castelo. Correia de Oliveira pede a Raimundo Meira o favor de interceder pela conclusão do processo de venda.

Belinho, 28 Jan. 1915

Meu Exmo. Amigo

Bem-haja pelo favor da sua carta que nos consolou.
Compreendo e respeito os escrúpulos e melindres de Vexa. Mas consinta que de novo o afirme, – nós não solicitamos, de forma alguma, um favor em prejuízo dos interesses da cidade. Estes estão, fortemente defendidos. Nós é que nos encontramos sem defesa, e em evidente e dolorosa inferioridade de acção. E acudir-nos um pouco, – dentro de nítidos limites, – não deixará de ser, aos olhos de toda a gente de bem, um gesto do nobre justiça. De resto, sincera e lealmente o penso e digo, os próprios interesses da cidade reclamam a interferência de Vexa., a ser certo que ela tenha, como parece ter, vantagem em utilizar a nova casa. Ora, pela opinião do Sr. Antunes Viana, encarniçadamente defendida e apregoada por toda a parte, – vai tornar-se impossível qualquer transacção; e nem esta mesma é precisa, pois que se põe inteiramente de parte o Governo Civil, para aplicar-se todo o dinheiro às avenidas … Não é verdade, como ele informou, termos pedido vinte e cinco contos. Até hoje ainda não fizemos preço, nem oficialmente se tratou dele. Nós queremos e precisamos vender; Vexa sabe-o quasi tão bem como eu. Assim os outros o não soubessem e isso não foi contra nós, uma espada de dois gumes. Mas a nossa vontade tem limites extremos que não está no nosso interesse ultrapassar.
Enfim, Senhor Capitão Raimundo Meira, confiamos inteiramente na sua autoridade moral e política, ambas indiscutíveis, para levar as coisas à razão e à justiça. Que deus o traga cedo a Viana de tantas e tão desvairadas gentes.
Perdoe as nossas constantes importunações. E, com os afectuosos cumprimentos de todos nós, creia-me na alta estima e consideração do seu muito afeiçoado, grato e desinteressado criado e amigo

António Correia de Oliveira

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Quarta-feira, Fevereiro 28, 2007

Distribuindo os "Tachos"

Para a nomeação do novo Juiz, Raimundo Meira escreve, não ao secretário do ministério da Justiça, Germano Lopes Martins, mas ao secretário do ministro da Guerra – Alfredo Sá Cardoso – que no meio da crise das espadas, ainda tem tempo para pôr e dispôr da política de Viana e movimentos dos militares afectos. O facto de certos pedidos de colocações de funcionários públicos serem discutidas e conseguidas entre duas pessoas que, oficialmente, não desempenhavam quaisquer funções públicas, demonstra que este tipo de decisões eram tomadas à revelia dos poderes instituídos, Ministério do Interior e da Justiça, tendo por base apenas o poder e o ascendente que Raimundo Meira tinha sobre o Distrito de Viana e Sá Cardos sobre o Governo Central.
Na mesma carta Sá Cardoso desabafa sobre o movimento das espadas, que entretanto decorria, e batia na teoria governamental da “Conspiração Monárquica

Lisboa – 23/1/1915

Meu caro Meira
1º Está feito o pedido para a colocação do juiz de Ovar em Viana. Talvez se consiga, mas o pior é que o Pinho de Monção também pede por outro. […] Vou surpreender-lhe dizendo que chegou tarde, se bem que ele diz que já foi há tempos feito este pedido.
2º A primeira vaga veio de Infantaria 17 (Santarém), já está prometida ao Major Carvalho Martins, mas logo que fique a segunda vaga (Pinto da Cruz) será para o Capitão Abel Falcão. Isto na hipótese, é claro, de ainda sermos governo!
3º Quando recebi a sua carta já tinha escrito duas vezes ao Dr. Adolfo Cunha.
Ele não recebeu a minha primeira carta, não sei porquê. Recebeu a segunda e espero que ele mande os documentos que lhe pedi para ver se consegue despachar.
4º Ainda não tive resposta ao assunto do farmacêutico. Logo que tenha man-do-lhe dizer.
Agora outro assunto. Que efeito tem […] em círculos do […] no país.
Que […], que grande especulação se está fazendo com isto.
Os oficiais estão, na sua maioria, sendo manipulados e arrastados, sem o saberem, por monárquicos que habilmente vêm preparando este movimento sem denunciarem o propósito monárquico.
Deu-se uma insubordinação perigosíssima e agora querem passar uma esponja por tudo isto!!! Pelo menos é o que se reclama por grande parte dos oficiais!
Que há a respeito de deputados pelo circulo?
Não tenho empenho nenhum em ser deputado. Só o seria se o lugar for em aberto, isto é: se a minha candidatura não for tirar o lugar a nenhum dos deputados actuais ou àqueles que o desejem ser.
Diga-me portanto o que devo fazer.
Ainda bem que o Pedralva lhes agradou, bem como aos nossos correligioná-rios de Viana. Tive essa impressão quando lhe falei.
Estou aborrecidíssimo com tudo quanto se passa. Deus sabe ainda o que farei.
Tudo depende da resolução final deste conflito e do meu estado de espírito.

Abraça-o o seu amigo

Sá Cardoso

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Domingo, Fevereiro 25, 2007

No interesse do Partido

Enquanto se sucedem estes acontecimentos, Antunes Viana, um dos líderes de uma das inúmeras facções do partido Democrático de Viana do Castelo e Vice-Governador Civil, escreve a 22 de Janeiro de 1915, a seguinte missiva a Raimundo Meira a respeito do falecimento do Juiz de Viana, pedindo calma e apontando alguns nomes possíveis para serem nomeados Juízes. Tudo no interesse do partido, pois como ele bem afirma “Como eu não tenho parentes para este lugar, o meu interesse é todo do partido

Meu caro Meira

Que chega de bom é esse o meu desejo.
Hoje faleceu o juiz daqui, e como falando com o visconde de Pedralva, me deixou ver que o meu amigo é que se interessa pelo Queirós, é meu dever lembrar-lhe que ele não é bem recebido por ser Jesuíta.
Como eu não tenho parentes para este lugar, o meu interesse é todo do partido, e como tal vejo que não é de boa política ser nomeado para aqui quem é parente do Porto, e de todos os Talassas de cá e de Lacerdas de Vasconcelos.
Que venha para cá quem queira, mas um homem que seja democrático, um homem e não um jesuíta.
As nossas amizades devem ser postas de parte para não servirem inimigos nossos, aliás do regime.
Olhe bem para os monárquicos militares que aproveitando a ingenuidade de uns, e do Camachismo de outros, como eles apareceram para ver se pegava.
Este movimento deve servir de lição para termos sempre distância de quem não e republicano.
O Governador Civil é que me pediu para lhe escrever, isto é por eleição ir amanhã à terra lhe não poder falar pelo pouco tempo que aí tem. Ele não conhece o homem e como sabe é de conveniência que nós friamente olhemos para o dia de amanhã. Façamos política de alcance e de ser proveitosa para o futuro. Pense e se em sua consciência entender o bem da política que devem por de parte esse Queirós, façam-no. Veja o nosso correligionário da Junta Geral Gomes, e não se esqueça deste rifão,- antes que cases vê o que fazes-. Se querem ter o juiz dos Arcos, o Sousa – que não fura paredes mas é bom homem pode ajudar-nos
Há um de Mourão que quer vir para aqui, não sei o que ele é, e não haja pressa e faça-se uma decisão acertada. O Figueiredo da Guerra, quer ir para Mourão e esse é nosso amigo e ali recebem-no bem.
Julgo Conveniente que escreva para Lisboa para pensarem até que friamente acertem.

Saúde boa é o que eu lhe desejo

Seu amigo velho

Antunes Viana

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Domingo, Fevereiro 18, 2007

O Golpe das Espadas

Os oficiais das forças armadas eram, de uma maneira geral, neutrais perante a situação política, com excepção dos militares ligados à carbonária (Machado dos Santos) e os Jovens Turcos (Norton de Matos, Sá Cardoso, etc).
Os subalternos, pelo contrário estavam fortemente politizados e este facto, conjuntamente com a acção da formiga branca, fez com que a disciplina militar desaparecesse rapidamente dos quartéis.
Na Marinha, o corpo militar mais politizado, os oficiais monárquicos foram afastados sendo promovidos, com base na sua lealdade politica, indivíduos incapazes. Em 1913 a maioria dos navios estava atracada ou inactiva devido a danos provocados por acidentes. Um dos cruzadores encalhou com perda de vidas e do próprio navio.

Os oficiais das forças armadas não eram aumentados desde 1896. A modernização muitas vezes prometida não passava do papel e mesmo assim os planos eram absolutamente megalómanos. A construção/compra de dois couraçados tipo Dreadnougth constava deles.

Os desejos de Beligerância de Bernardino Machado e Afonso Costa, aliadas às derrotas sucessivas do exército Português em África e conjuntamente com as deserções em massa e às condições insalubres proporcionadas aos militares, fizeram com que estes abandonassem a sua posição neutral de modo a evitar uma aventura militar fatal.

Estavam então reunidas as condições para um golpe militar, faltava apenas a gota que faria transbordar o copo.

Em Janeiro de 1915, a carbonária da Figueira da Foz exige a transferência do comandante do regimento de Infantaria 28, estacionado então naquela cidade, o Major Craveiro Lopes (Pai do Futuro Presidente da Republica Craveiro Lopes). Este tipo de exigências era bastante normal, tal como normal foi o assinar o despacho de transferência pelo ministro da Guerra. Mas a situação não era a mesma de outros tempos e o reacção foi tudo menos que normal.
Um grupo de oficiais oportunamente indignado com este acontecimento banal, entregou as suas espadas ao Presidente Arriaga. A reacção do Governo de Victor Hugo foi o de ordenar a sua prisão imediata enquanto a imprensa afecta ao Partido Democrático apodará os oficiais de “Perigosos Conspiradores Monárquicos”, por isso esta entrega de espadas corria o risco de não passar de mais um “fait-divers” tão normal nesses dias. Em 22 de Janeiro, ocorre um golpe de teatro. O herói da república, Machado dos Santos, dirige-se ao palácio de Belém e entrega, numa encenação melodramática a “espada da rotunda.

Como ninguém em Portugal podia chamar de “conspirador Monárquico” a Machado dos Santos, a maioria dos oficiais do exército impedidos de chegar ao Presidente Arriaga ofereceu as suas espadas (através de telegrama) ao oficial do exército mais antigo, o General Pimenta de Castro.
Antevendo a possibilidade de o governo ser demitido, Brito Camacho organiza ele próprio cerimónias de entrega de espadas e publica inflamados artigos contra o governo no seu Jornal “A Luta”
Rapidamente a situação descambou para a anarquia. Agitadores anti-Partido Democrático sabotavam o embarque de tropas para África. Em face disto Victor Hugo, tenta fazer com que Arriaga assine um decreto que declare o estado de emergência e suspenda as garantias constitucionais. Arriaga recusa e demite o governo.
Mas, para grande descontentamento de Brito Camacho, Arriaga convida Pimenta de Castro, seu amigo pessoal a formar governo. Este tinha sido ao mesmo tempo eleito pelos oficiais rebeldes para defender os seus interesses, depois da “desistência” do chefe do estado-maior, General Martins Carvalho.

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Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007

Um Pasquim Violentissímo

Manuel José de Oliveira e Francisco de Abreu Coutinho, apesar de fazerem parte do mesmo partido e, segundo Oliveira, este o ter ajudado no passado, odiavam-se mutuamente. Abaixo transcrevo o Pasquim Violentíssimo, a que Manuel de Oliveira se referiu na carta anterior.
Chamo a atenção para o Português utilizado.

Ao Médico Manuel Oliveira
No último número do “Comércio do Lima” esvurmou as suas baboseiras sua excelência “A Sumidade”. Não satisfeito com o desprezo absoluto a que maior parte das gentes de senso o tem votado, pretende dar sinais de vida piando as suas sandices nas colunas duma gazeta suja. Traz ainda afivelada ao rosto a máscara que sempre usou como boa figura de Entrudo que é, mas a sua língua viperina escorre o veneno preciso para que imediatamente o possamos conhecer. Pena é que as três cruzes que rematam a tal boa nova, inserta no último número da desqualificada gazeta, não estejam marcadas a fogo na testa do inconfundível charlatão. Constituiriam um excelente aviso a todos aqueles que, por qualquer motivo, tivessem de aproximar-se da cómica personagem.
Nos artigos que publiquei há tempos no “Cardeal Saraiva” chamei por mais de uma vez a uma luta leal e franca no campo da imprensa esse politiqueiro das dúzias que constantemente oferece nas suas ridículas megalomanias, os melhores assuntos para revistas de ano nos barracões de feira. Nunca apareceu o conspícuo esgrimista da sombra, ao combate leal e decisivo onde cada um dissesse placidamente de sua justiça para que o publico afinal sentenciasse, prefere a situação acomodatícia do anonimato na errada suposição de que assim fugirá à responsabilidade das suas façanhas de baixo estofo.
Engana-se.
Não satisfeito ainda com a primeira carga que apliquei nos científicos lombos de sua excelência, mostrando aos leitores do “Cardeal Saraiva” o quanto ele para aí pretendeu intrujar a respeito da estrada da circunvalação, aguardo para nova carga, a esplêndida ocasião que em breve me oferecerá de rebater os desconchavos que, a meu respeito, o potentíssimo sábio se permitiu despejar.
Relatarei então as suas deslealdades, as suas garotices e a sua desvergonha; explicarei os seus processos de politiqueiro barato e charlatão que se julga com competência para tudo na sua “vaidade” pasmosamente imbecil; examinarei uma a uma as suas descabeladas acusações que a meu respeito, escondidamente, se permitiu fazer, as quais esse trapalhão vulgar não tem coragem de trazer à imprensa, e por último farei a história das célebres cómicas representações dirigidas à importantíssima pessoa, que ele próprio mendigou e compôs, nos recônditos da sua imensa biblioteca de sábio, ao som dos apoiados alvares da camarilha que o rodeia, e que apenas tem servido para provocar a gargalhada, criando-lhe o direito indiscutível de ser considerado o melhor exemplo da bobice contemporânea. Depois tudo trarei a público, e explicarei mais, com inteira precisão o que entre mim e a referida “Sumidade” se tem passado, e as suas causas, relatarei o que houve com relação à proposta do meu nome para deputado da nação, quais são os pretendidos favores que o grande sábio diz ter-me prestado e quais os que ele recebeu de mim em três anos de politica (a fim de que, em saldo de contas, se apure qual de nós é o credor) e narrarei os últimos pormenores sobre o caso da estrada da circunvalação (do qual, assim como de outros, o mesmo sábio tem feito verdadeiros contos do vigário), sobre a eleição da câmara e sobre a eleição da misericórdia – na qual o poderosíssimo influente político obteve aquele grrrandesíssimo triunfo que todos conhecem e tiveram a ocasião de admirar.
Por agora, desafio a que venha declarar na imprensa quais são – as ambições e os inconfessáveis interesses particulares – a que se refere na sua arenga de Domingo, o arranjista médico municipal, o tiranete de papelão, o ridículo Sancho Pança, o médico com quem todos os seus colegas desta vila estão – uns de relações cortadas, outros de relações frias, o bobo de comédia, que há muito diz que vai embora e que vende a casa mas tudo diz e faz para inglês ver, o politiqueiro de três ao vintém a quem meia dúzia de insignificantes, que giram em torno de si, a toda a hora proclamam como o político mais arguto do país, o homem mais fino da Europa, e o milagreiro maior do mundo.
Se não responder ao desafio que lanço, explicando-se com clareza, ficará considerado o mais vil caluniador.
De resto, pode à vontade o sapientíssimo homem de Marrancos continuar com as suas alfinetadas. Tenho a minha pena para lhe fustigar as untuosas e científicas costelas.
Outubro de 1914Francisco de Abreu Coutinho

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Oposição Interna

Manuel José de Oliveira, que anteriormente tinha comunicado a Raimundo Meira a desistência do lugar de deputado pelo circulo de ponte de Lima, motivado pela doença qu o iria vitimar, escreve no inicio do ano de 1915, a lamentar o facto de o novo governador-civil querer apresentar Francisco de Abreu Coutinho, como deputado às futuras eleições.
Manuel de Oliveira, dá conta do mal estar que grassa dentro do Partido Democrático devido a esta decisão.

Meu caro e prezado amigo

Estive ontem em Viana com o novo Governador: Afigura-se que lhe meteram na cabeça apresentar o deputado Abreu nas próximas eleições e pareceu-me que pensa em aproximar-nos! A situação irredutível não foi criada por mim, mas pelo próprio Abreu, salientado pelo próprio pasquim violentíssimo que contra mim publicou. Prezo-me de ser homem digno e de honra e o partido terá que escolher entre mim e o Abreu que aliás pouco ou nenhum valor políti-co possui.
A situação que ele tem actualmente a mim ma deve, sabe-o Vexa. Tive que me impor para que os corpos dirigentes do partido lhe circuitassem a candidatu-ra. Contra toda a expectativa saiu o que se vê. As comissões daqui não vota-ram a sua candidatura e caso ela seja sancionada, abandonarão o Partido democrático pois consideram uma afronta o nome desse indivíduo. Conviria que as comissões políticas deste círculo estivessem informadas do que se pas-sa: não me vale a mim dá-las porque poderei parecer suspeito e por isso a Vexa recorro, como bom republicano e verdadeiro dirigente da politica distri-tal, para que os informe e lhes diga quem é o deputado Abreu e qual a situação do Partido em Ponte de Lima, caso a sua candidatura seja patrocinada por essas comissões.

Aguardando sempre as suas ordens e com a maior consideração e estima

Manuel de Oliveira

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Sábado, Dezembro 30, 2006

Feliz Ano Novo

A todos os leitores e amigos desejo um feliz ano de 2007, cheio de felicidades e sucessos.

Domingo, Dezembro 17, 2006

Um mau sentimento de náusea

A propósito do novo governo, Adriano Pimenta, convida Simas Machado para uma “passeata seguida de jantar em Leça da Palmeira, onde em amena cavaqueira discutiriam o mau sentimento de náusea relativamente aos miseráveis de Victor Hugo.
Em 28 de Dezembro de 1914, Alfredo de Magalhães escreve a seguinte carta a Simas Machado.

Meu Caro Simas

Acaba de informar-me o Jerónimo Moreira, que vem hoje a Leça, jantar em companhia do Alfredo e possivelmente do Aguibom.
Eu tenho […][…] de que você também tem, porque além do prazer da sua companhia, os acontecimentos são de molde a ter com eles uma interessante cavaqueira, na qual você teria particular interferência.
Nada há melhor para comemorar do que a resolução de um enigma. E a situação é tal ordem enigmática que a não ser convidado para uma caterva de doidos, dá-nos o melhor excerto da incompetência, senão da crassa estupidez dos nossos homens públicos.
Mas não há dúvida nenhuma que tendo que aparecer a apelar para o patriotismo e para a abnegação patriótica o Alexandre Braga acolitado pelo Afonso, tudo está salvo, menos a honra. A não ser que eles forem anichar-se dentro daquelas grandes capacidades ... de negócios escuros.
Por muito que esteja couraçado contra os factos e contra os homens, não podemos deixar de sentir um mau sentimento de náusea, ao ver tanta desfaçatez de uma certa malandragem.
Então verá, não é verdade?
Lá o espero com os nossos amigos, com quem combinarei, pelo telefone, a passeata.

Amigo certo

ADRIANO

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Terça-feira, Dezembro 05, 2006

Francisco Coelho Amaral dos Reis (Visconde de Pedralva) (1873-1938)

Nasceu em Canas de Senhorim, em 1873, bacharel de direito em 1898, formou-se posteriormente em Agronomia, actividade a que se dedicou. Exerceu funções de secretário do Mercado Central de Produtos Agrícolas e de Director-Geral do Ensino e Fomento Agrícola. Desempenhou uma missão no Egipto, a estudar Algodões em 1911 e dirigiu os Serviços da Agricultura de Angola entre 1921 e 1924. No âmbito político, trocou a Dissidência do Partido progressista pelo PRP, tendo participado no golpe falhado de Janeiro de 1908. Fracassado o movimento, emigrou para Espanha donde regressou após a implantação da república. Visconde de Pedralva desde 1904, foi governador civil de Viana do Castelo entre Dezembro de 1914 e Fevereiro de 1915, Governador-geral de Angola entre Julho de 1919 e Abril de 1920. Representou Viseu na Câmara dos Deputados em 1915, 1919, 1922 e 1925. Ministro de Agricultura entre Fevereiro e Julho de 1925. Faleceu a 5 de Abril de 1938.
Parlamentares e ministros da 1ª República - Marques, Oliveira(coord.). Assembleia da República, Lisboa, 2000

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Alexandre Braga - Um Histórico com pouco peso

Em 4 de Janeiro de 1914, Raimundo Meira recebe escrita pelo punho por Alexandre Braga, com o timbre do Gabinete do Ministro do Interior, a notícia da nomeação, já feita do novo Governador-Civil de Viana do Castelo -Francisco Coelho do Amaral Reis Visconde de Pedralva.

Exmo. Sr. e prezado correligionário

Tenho a honra de lhe apresentar o Exmo. Sr. Francisco Coelho do Amaral Reis (Pedralva), que é, como Vexa sabe já, pelas informações dos nossos amigos Sá Cardoso e Ramos Pereira, o novo Governador Civil de Viana do Castelo.
É claro que, não desejando eu que nada se faça, referentemente àquele distrito, sem que Vexa seja ouvido, como de direito lhe pedi e recomendei para conferenciar com Vexa, à sua passagem no Porto, sobre assuntos daquele distrito.
Vexa, com o seu elevado e intelligente critério, o elucidará de forma a facilitar-lhe o desempenho da delicada missão que vai desempenhar, e eu confiantemente conto, não só com as invulgares qualidades do meu apresentado, mas também com o valiosíssimo concurso que Vexa por certo lhe offerecerá, dando-lhe o seu inteligente e prudente conselho.
Antes de fazer a nomeação, eu quis como me cumpriria, ouvir Vexa. Não o fiz, porém, por saber que Vexa de tudo estava informado por intermédio dos nossos amigos, e por se haverem precipitado as cousas de forma a tornar urgente uma solução do assumpto. Estou seguro de que as primorosas qualidades do meu recomendado hão de fazer dele, desde já e para sempre, um dos bons amigos de Vexa, tão arreigada é a convicção que tenho de que os bons espíritos e as boas almas se entendem sempre e reciprocamente se estimam.
Quanto a não ter feito a Vexa o devido convite a aceitar o cargo, para que tive a honra de convidar o meu apresentado, creio que Vexa terá, como eu, por desnecessárias, quaisquer explicações, tanto certo é que Vexa, conhece, talvez melhor do que eu, as poderosas e imperativas razões absolutamente indispensável para bem da Republica, a sua permanência no lugar de responsabilidade e de honra em que se encontra,
Apesar de tudo, porém, eu quero que fique bem acentuado o motivo porque não podia, querendo bem servir a Republica, tirá-lo de uma situação em que a presença de Vexa é absolutamente indispensável, para quem pode vislumbrar no meu acto uma manobra de desprimor para com Vexa.
Aguardando como sempre, as ordens com que queira distinguir-me, sou, com toda a estima e consideração,

De Vexa, cordialmente e dedicado

ALEXANDRE BRAGA



A carta está datada pelo punho de Alexandre Braga como sendo 4 de Janeiro de 1914, mas na realidade foi escrita em 4 de Janeiro de 1915, a recente mudança do ano e o facto de quando a escreveu, Alexandre Braga muito provavelmente ainda estava sob os efeitos etílicos do Reveillon.
Outra das incongruências é o facto de Alexandre Braga apresentar o novo Governador Civil como sendo uma pessoa ainda a nomear, quando na realidade a nomeação oficial tinha sido feita seis dias antes, pelo que a notícia da nomeação já era do domínio público.
Esta deveria ser a carta que Sá Cardoso se referia em Novembro quando já tinha sido anunciada a nomeação do "Visconde" republicano para Governador de Viana.
O adesivo (vira-casaca) Francisco Coelho Amaral dos Reis – Visconde de Pedralva, nem chegou a aquecer o lugar, pois foi substituído ao fim de 31 dias, com a queda da “Adega do Braga”.

NOTA: Devido ao erro na data da carta, a mesma
já tinha sido publicada, mas completamente fora de contexto.

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Terça-feira, Novembro 28, 2006

Portugal - Uma pequena aldeia

Em 28 de Dezembro de 1914, Alfredo de Magalhães escreve a seguinte carta a Simas Machado.

28 Dez. 1914

Meu caro Simas

Sábado, tive de ir a Leça da Palmeira. Lá jantei em casa de um amigo, e lá estive – sabe com quem? – Com o José Guimarães dos Arcos! Contou-me toda a sua odisseia, que na verdade é estranha, e mostrou-me grandes desejos de que você, por mim acompanhado, o fosse visitar numa das próximas noites.
Ainda pensei em vir pela casa do Adriano Pimenta, mas cheguei muito tarde e tinha de sair ontem de manhã, como saí, às 8 horas para Arêgos.
Se você está disposto a passar hoje um pouco da noite em casa do Adriano, mande dizer que ali aparecerei para lhe transmitir o que o Guimarães me expôs

Seu muito amigo

Alfredo de Magalhães

Estarei no consultório até às 6 horas. Aqui volto às 8 e se você me quiser pro-curar, não estando disposto a ir a casa do Pimenta, também me pode encon-trar até à meia-noite aqui.


Esta carta mostra quão pequeno é Portugal, José dos Santos Guimarães, que já conhecemos das cartas enviadas a Raimundo Meira, e grande apoiante do Partido Democrático, tinha relações estreitas com Alfredo de Magalhães (Seu provável professor na Escola médico-cirúrgica do Porto) e também, pelo teor da carta, com Simas Machado ambos inimigos políticos de Afonso Costa.

Sobre a odisseia de José Guimaraes ver "Um Democrático perseguido por … Democráticos"; "A carta ao "Larápio" Vaz-Guedes".

Recomeço após um interregno

Ao fim de quase um ano de paragem, por motivos profissionais, reinicio aqui a publicação das "Cartas Portuguesas - A 1ª Republica por correspondência.
Recomeço onde parei, no final do ano de 1914. As próximas cartas mostram a convulsão que grassou em Portugal no primeiro semestre de 1915, com o Golpe das Espadas em Fevereiro, a tentativa de realização de um sufrágio mais alargado e não controlado pelo Partido Democrático, sua preparação pelo Partido Evolucionista de António José de Almeida, com cartas do próprio e o pânico que grassava nas hostes democráticas do Distrito de Viana.

Terça-feira, Fevereiro 21, 2006

Em Junho continua....

Lamento informar os meus leitores, mas devido a motivos profissionais é-me de todo impossível continuar a análise e publicação das "Cartas Portuguesas", pelo que a sua publicação vai continuar suspensa até Junho deste ano.Solicito a vossa compreensão para este facto.

Sábado, Dezembro 31, 2005

Feliz Ano Novo

DESEJO A TODOS OS
MEUS AMIGOS E LEITORES
UM NOVO ANO DE 2006
CHEIO DOS MAIORES
SUCESSOS E FELICIDADES

Terça-feira, Dezembro 27, 2005

Cama, mesa e vinho, sem roupa lavada

Rodrigo de Abreu informa Raimundo Meira sobre as condições de alojamento de uns oficiais de artilharia transferidos para Viana do Castelo. Aproveita também para continuar a desancar no Governador-Civil.

24/XII/1914

Meu caro amigo

Muito obrigado pela tua penúltima carta e aí vai a resposta à tua última.
A casa que mais convém aos seus amigos é a do farmacêutico Mourão, onde está o Alpedrinha e o Carvalho, também oficiais de artilharia. Falei com o Mourão e disse-me que lhes dá cama e mesa por 55 centavos por dia. Não precisa de trazer roupa de cama que ele lhes fornece. Lavadeira e engomadeira é por conta dos hóspedes. O tratamento é pouco mais ou menos o que costumam dar as casas desta espécie sendo o vinho por conta do Mourão. Eu cá estou ás suas ordens para receber os seus amigos e para lhes prestar os serviços ao meu alcance.
Dê portanto as suas ordens.
A minha vida perturbada por contínuos desgostos não e permitiu ainda res-ponder em termos à sua penúltima carta.
Olhe que eu também tenho a minha filosofia!!! Todos nós temos a nossa como sabe, e há um sábio francês, cujo nome me não recordo que diz “um homem deve ser o filósofo de si mesmo”. Ora a minha filosofia, baseada na minha consciência, diz-me que eu tenho tido dentro da política um procedimento sempre honesto e de que sendo absolutamente leal para todos até mesmo para os adversários. Serviços há quem tenha prestado muito mais, sacrifício e dedi-cação, tenho posto toda quanta posso, ao serviço da nossa causa, da causa de república e da causa do partido.
Em todas estas divergências garanto-lhe que tenho procedido com a máxima honestidade e só quem não quiser ver é que pode dar razão às arbitrariedades e burrices, permita-me a expressão, praticadas por quem indevidamente tem estado à frente do distrito como Governador-Civil substituto, e a quem a cabem todas as responsabilidades da nossa desorganização partidária. A mim pelas costas e sem eu estar presente, chamou-me traidor! Causa riso tão soez e baixo insulto! Mas só falando consigo eu posso contar-lhe tudo e demonstrar-lhe com documentos quem se engana.
O que lhe garanto é que enquanto derem apoio a esse homem, nunca farão nada neste Distrito. É uma vergonha!
Mandem-me para aqui quem quiserem, mas não consintam mais à frente do distrito, uma criatura que alcança proporções de calino e só tem uma única coisa, contrariar e insultar todo o Mundo.
Dêem a isto que eu digo, o valor que quiserem, mas mais tarde ou mais cedo, hão de reconhecer-lhe o valor.

Seu amigo certo

Rodrigo de Abreu


Guilherme Rodrigues seria exeonerado do cargo de Governador-Civil 6 dias mais tarde.

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Segunda-feira, Dezembro 26, 2005

Agradecimentos especiais

Não posso deixar passar sem um agradecimento em especial ao Almocreve pela distinção que deu a este meu Blogue.
Este tipo de reconhecimento é bastante importante para dar alento a esta dificil tarefa de coligir e enquadrar no tempo este importante acervo.
Ao Almocreve mando daqui um grande abraço de agradecimento não só pela distinção com que me honrou, mas também pela sua colaboração desinteressada que já teve neste trabalho e principalmente pelas suas informações sobre as novidades no mercado de Alfarrabistas, de onde consigo obter também, importantes fontes de informação.
Um segundo agradecimento especial vai para o meu grande amigo Paulo Paixão, designer de categoria e profissão e também blogger nas suas (poucas) horas vagas que reformulou integralmente a imagem deste blogue, que sem qualquer indicação da minha parte deu-lhe exactamente o efeito que eu pretendia.
As cartas que publicarei em seguida mostram a convulsão que grassou em Portugal no primeiro semestre de 1915, com o Golpe das Espadas em Fevereiro, a tentativa de realização de um sufrágio e não mais alargado e não controlado pelo partido democrático, sua preparação pelo Partido Evolucionista de António José de Almeida, com cartas do próprio e o pânico que grassava nas hostes democráticas do Distrito de Viana.

Sexta-feira, Dezembro 23, 2005

NATAL

Descanso na fuga para o Egipto - Federico Fiori Barocci (1570) - Pinacoteca do Vaticano
O CARTAS PORTUGUESAS
DESEJA A TODOS OS SEUS LEITORES
VOTOS DE
UM SANTO E FELIZ NATAL

Sábado, Novembro 19, 2005

23/12/1914

Meu caro Meira

Confirmo a minha carta última que era acompanhada doutras que tu me enviaste.
Hoje devolvo-te as cartas do Dias Pereira e do Rodrigo de Abreu. Este ainda sendo considerável na sua … ingenuidade.
Vistes o “Povo” último?
Diz-me meu irmão José que a despedida do G. Rodrigues parecia mais a des-pedida de um Governador Civil Evolucionista que extra-partidário. É espanto-so, depois disto, o que se está passando com os nossos correligionários do “Povo”.
A ideia do Dias Pereira era sublime.
Diz-me se recebeste a minha última carta.
Desejo que tu e a tua esposa tenham umas felizes festas.

Abraça-te o teu Amigo dedicado

Luís Ramos Pereira

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Quarta-feira, Novembro 16, 2005

Faz hoje um ano que iniciei a publicação do Blogue "Cartas Portuguesas" com a uma perspectiva da 1ª República Portuguesa (1920-1926) através da correspondência recebida por duas figuras do mesmo regime, General José Augusto de Simas Machado e Coronel Raimundo Enes Meira.Um ano passado e publiquei cerca de uma centena de textos com Cartas que cobrem o periodo 1911-1914, 3 anos em um e ainda faltam cerca de 500 cartas (1915-1928).Este é um trabalho enorme, mais do que havia previsto e se já era dificil quando acumulava o hobbie de historiador com a minha vida profissional, mais ainda quando acumulo a minha vida profissional com a frequência, até agora bem sucedida, de uma pós-graduação.
Apesar da falta de tempo, farei os possíveis para manter uma cadência de dois textos por semana.
Um abraço especial para alguns bloguistas que me incentivaram a levar por diante este projecto:
Bruno do "
Nova Frente"
Adelino Maltez do "
Sobre o tempo que passa" e em particular do seu site "Respublica", valiosa fonte de informação.
O "desaparecido" Clark do "
Claque Quente"
Almocreve do "
Almocreve das Petas"
Marco Oliveira do "
Antigamente" e "Povo de Bahá"
Manuel Correia do "
Egas Moniz

Segunda-feira, Novembro 07, 2005

Muda o governo muda o Governador

Com a mudança do governo, em Viana do Castelo, discutia-se quem é que seria o novo Governador Civil. As lutas intestinas dentro do partido democrático de Viana, punham a cabeça em água aos seus dirigentes em Lisboa.
A carta seguinte foi escrita por Luís Ramos Pereira a Raimundo Meira

19/XII/1914

Meu caro Meira

Tenho recebido todas as tuas cartas e muito te agradeço o que tens feito pelo rapaz Bernardo, protegido da esposa do Presidente.
Qual o resultado da junta?
Acho a situação do Antunes um tanto difícil, para não dizer insustentável mas entendo que não deve ser dada a demissão, em virtude de um telegrama do governador demissionário que o açaimou de desleal. A atitude do Antunes foi precipitada e irritante, mas a acção dos outros por meio de telegramas faz que queira a mostrar. Prece coisa de rapazes.
A nossa politica em Viana continua mal e pior irá ser se tu não voltares para lá como governador civil.
O Damião não seria mau, mas falta-lhe autoridade para se impor a esses e aos outros. Esta é que é a verdade.
Tu melhor sabes do que eu que há elementos importantes e preponderantes que enfileiram (será eufemismo) com a gente do “ povo”.
Deveria ter graça e para tudo se completar deveria ele ser o substituído.
Bem sei quanto te custava ter de voltar para Viana, mas tem paciência que tal é necessário, não só politicamente mas também para se completar a tua obra.
Recebi hoje uma carta do Rodrigo de Abreu que me procurou maluco, com tamanha insistência, na continuação do Guilherme Rodrigues. Isto é fantásti-co!! Nenhum Governador Civil novo terá tamanha lambidela de botas no “Povo” como esta.
A situação do Antunes só será resolvida com um Governador-Civil nosso.
Diz-me alguma coisa com brevidade.

Um abraço do

Teu amigo dedicado

Luís Ramos Pereira

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Quinta-feira, Novembro 03, 2005

Os Miseráveis

Em 12 de Dezembro de 1914, Manuel de Arriaga nomeia Victor Hugo de Azevedo Coutinho, obscuro oficial da armada e militante do Partido Democrático, presidente do Conselho de Ministros. Este forma um governo com personalidades Democráticas de 2ª e 3ª categoria, com excepção de Alexandre Braga que ocupava o cargo de Ministro do Interior. Na prática este era um governo de marionetas manobradas por Afonso Costa, pelo que foram imediatamente apodados de “Os Miseráveis de Victor Hugo”.
Alexandre Braga era um democrático Radical com fama de duro, mas em 1914, a sua estrela já estava a empalidecer, fruto do seu alcoolismo crónico e da sua vida dissoluta, que aliás seria a causa da sua morte prematura em 1921, com 50 anos.
Devido ao facto de Alexandre Braga ser o ministro mais proeminente, o governo de Azevedo Coutinho, este também ficou conhecido como a “Adega do Braga”.

O domínio do Ministério do Interior era a chave para a vitória nas eleições, pois dele dependiam os Governadores-Civis e destes dependiam os administradores dos concelhos. Destes últimos dependia o recenseamento eleitoral através da concessão dos certificados de residência, fundamentais para a inscrição. Estes certificados só eram emitidos elementos de confiança. Os governadores civis concediam os favores, controlavam o acesso a empregos públicos, organizavam as milícias de vigilantes e por isso a vitória pertencia sempre ao partido do Governador Civil. (
Ver Carta de Afonso Costa)

Apesar de ter nomeado um ministério 100% Democrático, os objectivos de Manuel de Arriaga eram completamente diferentes dos de Afonso Costa. Quando nomeou Bernardino Machado presidente do Conselho, Arriaga fez uma declaração na qual frizava que a garantia de eleições livres só poderia ser dada caso estas fossem organizadas por governos extra-partidários. Esta declaração que para além de insinuar a manipulação de resultados das eleições de Novembro de 1913, permitiu aos inimigos de Afonso Costa (Brito Camacho, António José de Almeida) obstruir, no Senado, a acção dos governos apoiados pelo Partido Democrático, tentando aprovar uma lei eleitoral na qual os analfabetos e os militares pudessem votar.
Em Janeiro de 1915 os democráticos aprovaram uma lei eleitoral na qual apenas comtenplavam a concessão de permitirem as representações minoritárias.
Quando o congresso encerrou em 12 de Janeiro de 1915, as perspectivas da oposição eram negras, chegando estas a pensar na abstenção, quando um acontecimento fortuito vai provocar uma viragem dramática.

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Sábado, Setembro 24, 2005

Governo Civil a ferro e fogo

Em Dezembro, o homem de mão de Raimundo Meira, Rodrigo Luciano de Abreu Lima e apoiante de uma das várias facções do Partido Democrático no Alto-Minho, que se digladiavam entre si, escreve duas cartas, sobre as actividades do Governador Civil adjunto, membro de uma facção rival da sua.

Meu caro Amigo

Manter o Antunes como governador civil substituto é impossível!
Digo-lhe com a máxima lealdade, com toda a verdade e isenção com que sem-pre tenho procedido.
Não se engane. É um homem sem competência e sem senso para estar naquele lugar, sendo os seus actos uma permanente provocação a tudo e a todos.
Disse-lhe na minha última carta que convinha manter o actual governador civil*. Ainda agora digo a mesma coisa, caso não venha o Meira ter bom lugar e, como republicano e como homem. O Antunes aproveitando-se da sua ida a Lisboa nomeou mais uma vez o Peixoto para administrador, um homem que tem feito as maiores tropelias. Amanhã lhe escreverei com mais detalhes, mas se eu lhe mereço consideração pela minha dedicação à república acredite que esta situação é perigosíssima para o partido e para a república. É tardíssimo e não tenho tempo para lhe escrever mais hoje

Seu amigo
Muito obrigado
18/12/1914
Rodrigo d’ Abreu





Meu caro amigo

O Formiga* foi ao Porto, ou melhor a Lisboa, e o Antunes estando o Brandão como administrador nomeou imediatamente o Peixoto, meia hora depois. Isto não pode ser.
O homem está parvo e anda a colocar a República e o partido numa situação crítica o mais possível! Homens destes não são republicanos, são traidores! Ri-se toda a gente de semelhante comédia.
Quando atenderem os que lhes digo, têm isto tudo em Cavacos!
O Formiga não pediu, ou antes, não recebeu ainda a demissão e o ministro dera-lhe apenas licença para ir a Lisboa. Como lhe disse, convém que ele fique, senão vem para cá o meu amigo. Disse-me que ainda não sabia se ficaria ou não, mas que não lhe desagradava ficar, se não pusessem condições impossíveis de aceitar.
O que lhe disse nas outras cartas prevalece. O homem, a vir um de novo serve bem. É frio, é sério e é republicano.
Esta situação é que não se pode manter, Garantir-lhe; se a minha consciência não me impusesse como um dever, estar do lado da república, eu abandonaria tudo isto, porque no meio de tamanha desorientação vive-se em constante mal-estar.
Peço-lhe que com urgência escreva para Lisboa pedindo remédio para estas coisas. Tirem o Antunes de Governador Civil para bem da República e honra de todos nós.
O momento é de grande melindre para a nação e por todos os motivos preciso se torna não permitir coisas destas.
A indignação é geral.

Um Abraço do

Rodrigo de Abreu

* Formiga – O Governador Civil, Guilherme Rodrigues, que ocupou o cargo entre Setembro e Dezembro de 1914

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Domingo, Setembro 18, 2005

Cunha presidencial

Em 5 de Dezembro, (Dia em que Bernardino Machado apresenta a demissão) Ramos Pereira escreve, da provedoria central da assistência de Lisboa a seguinte carta a Raimundo Meira. Nesta carta, Ramos Pereira tenta demover Raimundo Meira de abandonar o controlo da política no distrito de Viana do Castelo enquanto aproveita para dar indicações para uma cunha pedida pela mulher do Presidente da República, Manuel de Arriaga.

5/XII/1914

Meu caro Meira

Desculpa só hoje responder às tuas cartas, o que é devido a ter andado com um ataque de gripe que me tem acamado.
Vi a carta que escreveste a Germano Martins* e tenho a afirmar-te categoricamente que o Afonso não tem responsabilidade alguma na colocação do Faria de Lima nos Arcos o que é somente devido ao Ministro da Justiça*, hoje demissionário.
Por isto julgo que todos nas nos devemos conservar unidos mais do que nunca, na esperança de se poder, senão emendar o mal feito, pelo menos remediá-lo, atenuando as suas consequências.
Tu não podes nem deves no momento actual abandonar a vida activa do partido no nosso distrito, pois que tens atribuídas à tua individualidade politica responsabilidades que de modo algum te podem consentir tal resolução.
Contrariedades quem as não tem? No caso dos Arcos de modo algum se pode atribuir as responsabilidades aos dirigentes do nosso partido.
Pensa friamente e verás que o que te digo é razoável.
O protegido da esposa do Presidente da República está agora no hospital e pelo memorial junto verás o que é necessário.
O Bernardino caiu vergonhosamente. Foi a falência completa da cordialidade. Um Fiasco!
Hoje há noite temos reunião do directório, onde alguma coisa se deverá ficar sabendo. Do que houver, amanhã mando-te dizer.
Se tivermos preponderância no governo, como parece certo, quem deverá ser governador civil de Viana?
Diz sobre isto qualquer coisa.

Manda sempre o teu amigo

Luís Ramos Pereira

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Quarta-feira, Setembro 14, 2005

Carreira Militar

Em 28 de Novembro, Raimundo Meira escreve a seguinte carta a Sá Cardoso em que dá conta das suas preocupações com a carreira militar e anuncia a Sá Cardoso a sua intenção em lhe dar prioridade em relação à carreira política. No entanto dá-lhe conta de como estava o ambiente nos quarteis, em especial no Quartel da Serra do Pilar.

Meu caro Sá Cardoso

Bom foi que as noticias dos conspiradores me poupassem a sensaboria de ter de recusar o convite para Governardor-Civil de Viana.
Agora vou tratar de me habilitar para Major, principiando no próximo Janeiro com a escola de recrutas, e enquanto não for Major, não quero saber mais de politica.
Se o nosso partido estivesse na oposição, ainda lhe prestaria nas próximas eleições o meu fraco préstimo, mas sendo governo, deve vencer, a não ser que as […] continuem a ser de marca maior, o que não será para admirar.
Vi ontem nos jornais a notícia da nomeação do Visconde de Pedralva e já há dias eu tinha falado ao Ramos Pereira no nome do Dr. Damião, mas como essa nomeação é de capital importância para o resultado das eleições, quem tiver de as dirigir, que se manifeste e tome a responsabilidade.
Não recebi carta alguma do Alexandre Braga e peço ao Sá Cardoso para lhe dizer que não perca tempo a escrever-me, bem precioso lhe há de ser, eu estou ciente.
O Camacho está no galarim da oficialidade. Parece que o homem pensa numa Camachada que o leve ao poleiro, e para isso a ”luta” continua a ser distribuída pelos quartéis, a oficiais e sargentos, com a promessa de não irmos para a guerra …se o Camacho for governo. Chegamos a isto e já se começa a admitir a hipótese que talvez seja preciso restaurar a Monarquia para salvar o país das mãos de tais republicanos (escrito em cima de rasura de “Bandidos”).

Um abraço, do teu grande amigo
Raimundo

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Quarta-feira, Setembro 07, 2005

O Nobre Anti-Clerical

A 18 de Novembro de 1914, Aleixo? De Santa Eulália, um adesivo, escreve a Raimundo Meira, numa carta com o Timbre do Paço da Glória de Ponte de Lima, uma carta a queixar-se dos ataques pessoais que um Padre lhe fazia.

Mui prezado Raimundo
Muito me obsequiaras se pedisses ao Germano, Dr. Advogado nos Arcos que se interesse por mim e não por um malvado Padre – nojento – que por insi-nuações procura, quer fora da Igreja – quer nas práticas da Igreja – falar con-tra mim, mantendo-se secretário da Junta da Madalena, na minha frequesia a fabricar falsidades. Tudo contra mim e tudo devido ao facto de não lhe ter emprestado dinheiro como ele me pediu numa onsolvente carta.
Tu faz ver ao Germano que ele terá mais seriedade e caracter na minha pessoa que num bandalho d’um padreca – que se trata por tu , como ele e à gente de sua confiança.
Desculpe meu caro, mas quem na escolha e depois tem sido dedicado, pode às vezes importunar um dedicado amigo como tu.

Aleixo??? de Santa Eulália

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Fortalecendo Posições

No dia 20 de Outubro, dá-se uma nova revolta monárquica na zona de Mafra. Na reacção republicana que se seguiu, são assaltados os Jornais Monárquicos e independentes. Os republicanos ligados a Afonso Costa aproveitam para fortalecer posições.

Meu caro Meira
Lisboa 15/11/1914

Vou tratar do caso do avenida.
Deve aí procurá-lo o capitão-de-fragata Alfredo Howell para tratar consigo da defesa da República.
A isto devo anos!
Temos de voltar aos velhos tempos antigos, mercê das blandicias com que os monárquicos são tratados.
Estão muito atrevidos e os Republicanos muito abatidos. Não há remédio senão aproximarmo-nos dos nossos militantes, e tratarmos a valer da defesa da república, no caso provável de em breve nos aparecer uma intentona.
Escuso de lhe dizer que pode entender-se com o Howell como se fosse eu próprio quem o procurasse.
Tem lido os artigos do Camacho?
Já viu escrita mais dissolvente?
Meu caro
Um abraço do seu amigo
Sá Cardoso

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Dança de Cadeiras

A 14 de Novembro, Raimundo Meira recebe uma Carta de José de Guimarães, já de volta do seu curto exílio no Brasil e na política activa outra vez. Nesta carta informava sobre a dança de cadeiras no Governo-Civil de Viana do Castelo.

Meu bom amigo

O Ferreira sempre se abotoou com o lugar de secretário do Governo-Civil de Viana.
O lugar de oficial do registo civil estava prometido a um irmão do ministro da instrução, preterindo-se o Dr. Carlos Bacelar, o que é uma patifaria como qualquer outra.
Mas como isto é dos fulanos...
Também vai ser nomeado comissário de policia de Viana o Pina Manique.
Só não há lugares para os que no Distrito se sacrificaram pela Republica. E olhe que tenhoi o palpite de que o Alvaro de Aguiam vai ser corrido como cor-ridos são todos os que prestaram serviços à República. ...
Abraça-o o seu amigo

José de Guimarães

14/11/1914

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Terça-feira, Agosto 30, 2005

António Correia de Oliveira (1879-1960)

Nasceu em São Pedro do Sul e faleceu em Esposende. Estudou no seminário de Viseu, indo depois para Lisboa onde trabalhou como jornalista no Diário Ilustrado. Tendo casado com uma rica proprietária minhota, fixa-se na aldeia de Belinho, conselho de Esposende
Grande poeta neogarrettista, foi um dos cantores do Saudosismo, juntamente com Teixeira de Pascoaes e outros. Ligado aos movimentos culturais do Integralismo Lusitano e da revista Águia, Atlântida, Ave Azul e Seara Nova. Convictamente monárquico, transforma-se num dos poetas oficiosos do Estado Novo, com inúmeros textos escolhidos para os livros únicos de língua portuguesa do sistema de ensino primário e secundário. Foi o primeiro Português a ser nomeado para o prémio Nobel e a própria concorrente vencedora, Gabriela Mistral, declarou publicamente, no acto solene, que não merecia o prémio, estando presente o autor do “Verbo Ser e Verbo Amar”.
Obras poéticas: Ladainha (1897), Eiradas (1899), Cantigas (1902), Raiz (1903), Ara (1904), Tentações de S. Frei Gil (1907), Elogio dos Sentidos (1908), Alma Religiosa (1910), Dizeres do Povo (1911), Romarias (1912), A Criação. Vida e História da Árvore (1913), A Minha Terra (1915-1917), Na Hora Incerta (Viriato Lusitano) (1920), Verbo Ser e Verbo Amar (1926), Mare Nostrum (1939), História Pequenina de Portugal Gigante (1940), Aljubarrota ao Luar (1944), Saudade Nossa (1944), Redondilhas (1948), Azinheira em Flor (1954).

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Domingo, Agosto 28, 2005

A Casa de Belinho

A casa de Belinho a que Correia d’Oliveira se refere, situa-se em Viana do Castelo. Esta Casa, na realidade um palácio do Século XVIII, pertencia À família da mulher de António Correia d’Oliveira, originária de Belinho – Esposende e tinha sido cedido nos meados do Século XIX, para ser instalado, provisoriamente, o Liceu de Viana.
Com a construção de um novo liceu, a casa de Belinho ficou devoluta. Quando Raimundo Meira ocupou o cargo de Governador Civil de Viana, propôs a sua compra à família Correia d’Oliveira, para aí ser instalado o Governo-Civil.
O empréstimo a que o Poeta se refere é o empréstimo pedido pelo Governo-Civil para a compra do edifício. Correia d’Oliveira necessitava o dinheiro para poder criar o Colégio de Belinho, na Quinta de sua Mulher em Belinho.
Esta questão será ainda motivo de algumas cartas posteriores, mas a questão chegou a bom porto, o palácio de Belinho foi comprado, ainda hoje é a sede do Governo-Civil de Viana do Castelo e António Correia d’Oliveira fundou o Colégio de Belinho.

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O Poeta

Em 2 de Setembro, Raimundo Meira recebe uma carta de António Correia de Oliveira, Poeta, que tinha encetado negociações, para a venda do Palácio de Belinho em Viana, propriedade da família da sua mulher, para ali ser instalado o Governo Civil. Com o dinheiro da venda do palácio Correia de Oliveira desejava criar um colégio em Belinho, onde residia. A carta versa sobre as dificuldades com que o Governo Civil se debruçava para obter o empréstimo destinado à compra do palácio.

Novembro, 2.9.914
Belinho

Ex. Senhor
Meu bom amigo

Recebi, neste instante de meu irmão, a quem encarreguei de amparar o caso de Viana junto da Caixa Geral de Depósitos, onde tenho um valioso amigo, membro do Conselho de Administração, uma longa carta.
Em resumo, diz ele pela boca do seu competentíssimo informador: “Na Caixa está tudo feito: o empréstimo apurado e pronto a sair quando for preciso se devidamente reclamado.
O Bruschy diz que o que falta é somente um ofício de Viana pedindo a inclusão da importância do empréstimo na respectiva tabela das despesas.
Enfim, em Lisboa não há nada a fazer: tudo depende de Viana”.
Estas palavras, que impressionam pela sua flagrante nitidez e clareza, envolvem uma grande e bela noticia. A Caixa declara-se habilitada e disposta, sem mais dependências, a entregar o dinheiro, o que, como Vexa ainda me dizia há dias no Porto, é tudo.
Mas continua em ponto obscuro que, parece-me, creio que vai ser da mesma opinião. Urge e convém esclarecer, não vá ele ser a terrível casca de laranja. É o tal ofício. É certo que o Senhor Ramos Pereira disse que ele não é preciso. Certíssimo é também, todavia que os meus amigos e o próprio Brunchy, cujo parecer é de muitíssima consideração, dizem que ele é indispensável. Quem terá razão? Impõe-se o apuramento deste caso. E por todos os motivos, pela sua alta situação e influência, pelo seu nome ligado para sempre a esse alto benefício concedido à bela cidade do Minho, pela afectuosa simpatia que nos tem dispensado sempre, vexa pode, como ninguém, moral e politicamente remover esse obstáculo, pequeníssimo de resto, relativamente aos muitos que já venceu.
Informando-o disto, - como não podia deixar de fazer, venho pedir-lhe encarecidamente, mais uma vez, a bondade da sua atenção e do seu poderoso esforço, para vencer afinal, com brevidade, alegria e honra, esta grande batalha.
A casa de Belinho*, infelizmente, carece de ganhar uma certeza real nesta operação do aproveitamento do antigo liceu, com que Viana lucra e nós lucramos e cuja esperança tem sido, há um ano para cá, a base essencial dos seus novos planos de administração.
Devo também dizer que aquele amigo da Caixa Geral, recomenda que, informada e insistentemente que apressem a realização do empréstimo, porque, estando agora vencidas todas as dificuldades, podem, em todo o caso, neste apertado momento de crise, surgir embaraços financeiros e políticos, que tudo prejudiquem.
Isto é razoável e evidente.
E grande e grave pena seria que justamente sobre a última trincheira se perdesse a esperança que tanto esforço, tantos trabalhos e tamanha dedicação lhe tem custado. Mas nas suas boas mãos, como até aqui, continua tudo, e não podia estar melhor. Urge uma acção enérgica e decidida. Imagino que uma sua jornada a Viana resolveria tudo…
Perdão por todas estas fadigas que lhe dou. Fico ansiosamente, esperando as suas novas.
Deus traga com elas, uma boa noticia.
Para Vexa de toda esta casa amiga, mil cumprimentos e afectos.
Com a mais alta estima e a mais alta consideração, seu amigo e criado

António Correia d’Oliveira

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Quarta-feira, Agosto 24, 2005

Desalento

As lutas internas no Partido Democrático traziam o desalento Às suas hostes. A ele se refere Rodrigo de Abreu Lima na carta que escreveu a Raimundo Meira em 26 de Agosto de 1914.

Meu caro Meira

A sua carta última acabrunhou-me um pouco porque francamente é muito triste ver esse desalento nas pessoas que no meio deste bacanal político conseguem aguentar-se de cabeça erguido. O meu amigo pertence a esse número.
Ninguém mais do que eu, tanto muitos, tem sido coberto de desgostos e contrariedades mas não vejo bem assistir-me
Á possibilidade de me por já de parte. Tenho tido nos últimos tempos as maiores contrariedades por a situação política aqui, mas não surpresas, porque sempre previ um conflito grave.
Ainda que me não queiram ouvir, tenho para mim a plena certeza de que tudo isto parte simplesmente dum único ponto, de um único erro em que nos temos deixar de cair.
Colocar o Antunes e o Peixoto em dois lugares de preponderância e para cujo exercício não é a melhor altura. Sempre disse isto e assim é, acredite.
Têm feito as maiores vergonhas, tão grandes que não só envergonham o partido, mas também a república.
Duma ignorância atroz, duma estupidez flagrante criaram uma situação insustentável. Querem remediar isto? Não os expulsem do partido, que ninguém tem esse direito, mas ponham-nos na posição que lhes compete.
Pensa-se numa reunião partidária com representantes de todos os concelhos, para essa reunião ser nomeado de comum acordo um dirigente! De tudo isto será o único remédio.
Esse dirigente só pode ser um, embora outros o auxiliem.
Saber quem é? Pense meio segundo imparcialmente e já o descobre.
Se esse não quiser e entender que tudo isto já não vale mais um sacrifício, então da minha parte e de muitos outros só nos resta ir para casa.
O Luís Filipe ficou de ir aí amanhã.
Muito obrigado por todas as suas referências.

Um grande abraço muito amigo do

Rodrigo de Abreu

26/8/1914

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Segunda-feira, Agosto 22, 2005

Damião José Lourenço Júnior (1876 - ?)

Nasceu a 16 de Novembro de 1876, formou-se em Medicina. Seguiu desde 1896 a carreira militar, sendo promovido a alferes médico miliciano em 1916. Em 1913 foi eleito deputado pelo círculo de Viana do Castelo pelo Partido Democrático.
Governador Civil de Viana do Castelo entre Setembro de 1915 e Maio de 1917 – 616 dias – o segundo maior durante a primeira república.
Parlamentares e ministros da 1ª República - Marques, Oliveira(coord.). Assembleia da República, Lisboa, 2000

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Lutas Internas

Damião Lourenço Júnior, deputado do Partido Democrático por Viana do Castelo, escreve, a Raimundo Meira dando conta do enorme conflito entre dois grupos do Partido Democrático que, segundo ele estava a colocar em perigo a posição do seu Partido. Em desespero de causa pede a Raimundo Meira que tente apaziguar os confrontos dentro do Partido Democrático.

- Confidencial –

Caminha, 18-8-1914

Meu prezado amigo

Fui ontem pela primeira vez a Viana por ter chegado um pouco adoentado de Lisboa.
Não imagina o meu bom amigo do estado caótico em que se encontra a política daquela cidade. Entre o grupo do “Povo” e o grupo do Antunes vai-se cavando um abismo de tal ordem que, se alguém vai tratar de estabelecer a harmonia entre ambos, ou pelo menos obrigar o bom senso a fundir todos os interesses políticos locais, afigura-se-me que o próximo acto eleitoral será um verdadeiro desastre para o Partido Democrático.
Vexa, com a sua inteligência, o seu reconhecido bom senso e a sua habilidade política é que podia dar até ali uma chegada e por termo a tais desavenças, conseguindo que de ambos os grupos houvesse transigências que não humilhassem, mas que servissem para fortalecer o Partido.
Desta forma vamos muito mal.
A causa deu-me Vexa a conhecer pela leitura do último número do “Povo”.
Vexa nem imagina como isto por ali corre.

Creia-me de Vexa

Damião Lourenço Júnior

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Domingo, Agosto 21, 2005

Alfredo Ernesto de Sá Cardoso (1864 – 1950)

Nasceu em Lisboa. Após os primeiros estudos, ingressou no Colégio Militar e, depois, na Escola do Exército, onde cursou a arma de Artilharia. Assentou praça em 1880, prosseguindo a carreira de oficial do exército (alferes, 1886; tenente, 1888; capitão, 1900; major, 1911; tenente-coronel, 1915; coronel, 1917) que o leva­ria, em 1924, ao posto de general.
Mobilizado na campanha da Lunda, de cujo governo distrital viria a ser secretário (a partir de 1888), foi governador da for­taleza de S. Francisco do Penedo e, nos anos de 1917-1918, pertenceu ao Corpo Expedicionário Português. Desempenhou também o cargo de vogal do Conse­lho de Trabalhos Balísticos.
Teve um filho ilegítimo em 1902, o qual reconheceu no ano seguinte. Casou aos 63 anos, em 1927, com Gabriela Beauregard Moreira de Sá de 51.
Filiado no Partido Republicano Português, foi membro da respectiva Junta Consultiva (1913) e chefe indigitado do partido (em 1919). Passou também pelo Partido Reconstituinte, que fundou com Álvaro de Castro, e pela Acção Republicana, de que foi presidente. Membro da Maçonaria desde 1893, foi iniciado na loja Portugal com o nome simbólico de Alaíde, ascendendo ao grau 33. O que não impediu de abjurar o facto, assinando em 1934 uma declaração de honra na qual afirmava não pertencer a qualquer organização secreta.
Foi participante activo na campanha republicana, ainda na vigência da Monarquia, tomando parte nos acontecimentos de 31 de Janeiro de 1890 e de 28 de Janeiro de 1908. Integrou o Comité Militar para a proclamação da Repú­blica e foi interveniente na revolução de 5 de Outubro de 1910. Com o triunfo republicano, passou a chefe de gabinete de Correia Barreto (1910-1911) e, depois, a governador civil da Madeira (1913-1914). Integrando o agrupamento «Jovem Turquia», chefiou o movimento sangrento de 14 de Maio de 1915. Tomou parte na resistência contra a revolta sidonista de 5 de Dezembro de 1917, tendo conhecido a prisão em 1918-1919. Neste último ano, fiel à sua índole republi­cana, participou na ofensiva contra a «Monarquia do Norte».
Teve assento parlamentar, por Viana do Castelo, em 1913, 1915, 1919 e 1922, presidindo à Câmara dos Deputados neste último ano. Esteve à frente do governo de Junho de 1919 Janeiro do ano seguinte e, novamente, de 16 a 21 de Janeiro de 1920. Voltaria a parti­cipar no executivo, no ministério do Interior, entre Dezembro de 1923 e Julho de 1924. Ao tomar conhecimento da sentença da revolta dos Fifis, devolveu todas as suas condecorações.
Com o advento da Ditadura, foi outra vez preso (1926), vivendo em regime de residência fixa, em Cabo Verde e nos Açores, entre 1927 e 1933. Regressou a Portugal em 1934 para fundar a Aliança Republicana. Viria a falecer em Lisboa, a 24 de Abril de 1950.
NOTA: Da consulta que fiz do processo de Sá Cardoso disponível no Arquivo histórico militar, descobri que ele pediu a 26 de Agosto de 1910, licença por 45 dias para tratamentos médico (cura de águas) de uma doença que ao tempo era incurável. Pediu a suspensão da licença no dia 20 de Outubro de 1910.
Parlamentares e ministros da 1ª República - Marques, Oliveira(coord.). Assembleia da República, Lisboa, 2000
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Quarta-feira, Agosto 17, 2005

Para a Guerra rápido e em força

Um belicoso Sá Cardoso, deputado por Viana do Castelo, escreve a Raimundo Meira acerca da não concretização de uma projectada viagem a Viana do Castelo e sobre a sua desilusão perante os ventos pacifistas e neutrais que sopram em Lisboa.

Lisboa, 8-8-1914

Meu caro Meira

Em vistas das circunstâncias em que nos encontramos hesito em ir a Viana.
Parece-me que não é esta a ocasião para se tratar de política e para poder ser mal interpretada, e até explorada pelas oposições a minha viagem.
Então o M. Pinto vai para Africa sem dizer nada a ninguém?
Que tais estão as opiniões por aí acerca da guerra?
Eu por cá, e comigo muita gente, estou desanimado com o caminho que as coi-sas estão a tomar, pois estou a ver que, apesar do que se passou no Parlamen-to, nós ficamos neutros ou coisa parecida, não tomando parte na contenda.
Será uma dos diabos se tal sucede.

Escreva quando poder

Um abraço do seu amigo

Alfredo de Sá Cardoso

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Segunda-feira, Agosto 08, 2005

Dificuldades de progressão

Em 25 de Julho de 1914, Raimundo Meira recebe uma carta do seu camarada de armas, Afonso Dias Branco, a agradecer um favor prestado. Afonso Branco, orgulhoso monárquico lamenta as dificuldades que o regime lhe coloca na progressão da sua carreira.

Lisboa, 25 de Julho 1914

Meu caro Meira

Recebi a tua estimada carta e agradeço-lhe a lealdade e franqueza que eu sempre de si esperei.
Já sabia que se dizia de mim o que o meu amigo me conta, pois o Marques (General) tinha-me contado isso.
É fantástico como na actualidade se invoca e trata de comprometer toda a gente. O meu caro Meira que me conhece há muitos anos, sabe que eu nunca fui politico e se antigamente falava de assuntos políticos, não era para defender este ou aquele grupo, pois muita vez nos falávamos e se bem se […] não se […] um grupo de oficiais de Artilharia 5 para […] ao Pimentel Pinto pela minha intransigência secundada por si.
Agora depois da implementação do actual regime, tenho me abstido por completo de falar em coisas publicas.
A ideia de ir para Governador Civil é extraordinária. Mas deixamo-nos disso, que não vale a pena a discussão.
Do Meira esperarei sempre que me faça justiça, não acreditando em boatos.
A pretensão é de meu filho, republicano muito antes de 5 de Outubro e o meu interesse é natural, devido a ser meu filho que de certo está aqui separado de mim, visto ter constituído família.
Agradeço-lhe o serviço que me prestou desinteressadamente da questão o que representa muito a favor da pretensão do rapaz. Creia que considero um grande favor o que proceder.
Então o Ramos também vai à junta? Já não contava com essa vaga. O pior é que me não chamam a tirocínio antes de acabar o curso de tiro que é a 22 de Agosto.
É necessário para Major ter tudo para mim, ao passo que para os outros tudo foram facilidades.
O meu caro Meira mande sempre no que vir que este terrível talassa lhe possa ser útil. Estou sempre ao seu dispor com muito gosto.
Receba um grande abraço

Do seu amigo e Camarada

Afonso Dias Branco

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Quinta-feira, Agosto 04, 2005

A carta ao "Larápio" Vaz-Guedes

Cópia da carta, por mim escrita ao larápio Vaz Guedes

O velho republicano e honestíssimo cidadão Raimundo Martins tinha há tempos afirmado que V.exa era um dos mais acabados canalhas que ele tinha conhecido; e eu, nesta minha ingenuídade alta de aldeão primitivo duvidei da verdade contida na sua extraordinária afirmação.
Hoje, porém, pela carta que me acaba de escrever, acho que o cidadão Raimundo Martins foi extremamente misericordioso com V.exa, senão vejamos.
Você ao autorizar-me na presença de sua esposa, a fazer a despeza com a sua eleição, não me limitou a quantia que eu poderia dispender.E se você não fosse um autentico saloio em trabalhos eleitorais neste concelho, deveria saber que algumas centenas de cidadãos eleitores distantes quinze, vinte quilómetros das assembleias eleitorais e que foram esses pelo menos, os que fizeram a despeza que, eu repito, você me autorizou a fazer.
Dizer que na assembleia de Távora só votaram os eleitores de Padreiro é mentir com um descaro que qualquer bando monárquico lhe pode invejar com o mesmíssimo descaro afirma você que, sendo a vitória minha, como afirmei em letra redonda, devo ser eu quem pague as despesas eleitorais, conto se você, no momento em que me autorizou essa despesa não conhecesse a minha irredutibilidade com a malta de "escroques" e malfeitores, perante os quais você agora (e sempre!) cai de cócoras. Sim a vitória foi minha e dos meus dedicadissímos amigos, mas foi você infelizmente, quem com ela exclusivamente aproveitou, não podendo você ignorar o esforço prodigioso que tive de empregar para evitar que o corressem aos pontapés da lista dos candidatos pelo circulo n.º 1. Socegue, porém, você: Tenho sido roubado por muitos patifes, cujos nomes tenho arquivados para um final ajuste de contas.
Desvanece-me porém a ideia de que no alto da lista dos variadíssimos bandidos que me tem assaltadoa bolsa figura o seu nome de deputado idiota, com as seguintes notas elucidativas da sua psicologia de criminoso encoberto:
Pulha, larápio e ... deputado democrático com garfada de costela de fidalgo.
Falta-me o tempo para apreciar devidamente a sua carta de garoto de esquina, mas não perderá com a demora.

José Guimarães

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O fim da travessia

Já nas costas Brasileiras, José de Sousa Guimarães escreve novamente a Raimundo Meira a dar conta das suas esperanças num futuro melhor em terras de vera-cruz.

A bordo do Orduña, 28-06-1914

Meu querido amigo

Chego amanhã a Pernambuco onde deitarei esta carta. Deve ter recebido três ou quatro cartas que lhe escrevi sobre o caso de São Tomé e sobre a minha pronúncia. Hoje, mais a sangue frio, digo-lhe que estou resolvido a ficar no Rio, no caso de ser bem recebido logo de entrada.
Dizem-me que me não será dificil arranjar a ser médico numa fábrica qualquer, o que me renderia um ou dois contos de reís fracos por mês. Tendo eu então tempo de sobra para criar uma clientela.
Portanto, quando chegar ao Rio, verei se as coisas me correm bem e de lá escreverei. Peço-lhe que faça contar que estou no Maranhão, a fim de que os bandidos dos Arcos me deixem em socêgo.
No caso de ser infeliz, peço-lhe que reserve, se for possível durante um mês, o lugar de médico de São Tomé se conseguir arranjar com o auxílio do Dr. Damião a quem também já escrevi.
Mando-lhe uma cópia da carta, por mim escrita ao gatuno do Vaz Guedes. E previno o meu bom amigo com toda a lealdade de que pedi a todos os meus amigos dos Arcos para votarem nos candidatos democráticos, menos no larápio que me roubou.
Respeitosos cumprimentos à sua excelentíssima esposa e um abraço do

Muito dedicado e afectuosissímo

José de Sousa Guimarães

PS: Vai muita gente enjoada a abordo, menos bem que vou bem disposto, ape-sar do mar, nesta altura está bastante agitado.
JG


A experiência de José de Guimarães na Brasil será muito curta, voltará a Portugal antes do fim do ano de 1914.

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Quarta-feira, Agosto 03, 2005

José de Sousa Guimarães (1871 - ?)

Nasceu na Freguesia de Real, em Braga, em 15 de Novembro de 1871. Filho de José Joaquim de Sousa e de Rosa Maria Ferreira Guimarães.
Assentou praça como soldado no Regimento de Infantaria 8, a 30 de Maio de 1897. Tirou o curso de medicina na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, onde se licenciou em 1905. Em 1 de Março de 1906 é promovido a Alferes Médico Miliciano. Em 1911 é transferido para o Regimento de Cavalaria 11 em Braga.
Demitiu-se do Exército em 15/06/1914, alegando que as obrigações de um Alferes Médico Miliciano impedirem-no de prestar serviço como médico municipal de Arcos de Valdevez, mas exila-se no Brasil imediatamente a seguir, fugindo a um processo-crime por tentativa de homicídio frustrada.
Em 1916 pede a reintegração no exército, a qual é deferida. È promovido a capitão em 24 de Setembro de 1917. Embarca para França dois dias mais tarde.
Colocado em Brest no Corpo médico português é Louvado em Fevereiro de 1919 pelo seu desempenho na luta contra a tuberculose e tifo, doenças que atacavam mais de 70% das praças do Exército Português. Em Agosto de 1919 foi-lhe atribuída a Ordem de Aviz.
Desempenhou as funções de Vice-cônsul de Portugal em Brest entre 1919 e 1929.
Quando volta definitivamente a Portugal fixa residência em Guilhadezes, Arcos de Valdevez. Passou à Reserva em 1930 e reformou-se em 1936.

O R.M.S. Orduña

O Paquete onde José Guimarães viajou para o Brasil, era o R.M.S. Orduña, lançado à água nesse mesmo ano de 1914, para a Pacific Steam Navigation Company (PSNCo), empresa subsidiária da Royal Mail lines, operou na carreira do Atlântico sul até 1921 e a partir daí na linha Hamburgo – Nova Iorque. Durante parte da primeira guerra mundial foi transformado em Navio Hospital. O R.M.S. Orduña foi torpedeado em 1941. O Orduña tinha mais dois irmãos gémeos o R.M.S. Orbita e o R.M.S. Orca

Um Democrático perseguido por … Democráticos

José de Sousa Guimarães, oficial médico miliciano dos Arcos de Valdevez (Ver cartas de Manuel Joaquim Lourenço e Queiróz Vaz Guedes) acusado de tentativa de homicidio involuntário, fruto de uma discussão política com um carpinteiro, demite-se do Exército a 15 de Junho e foge para o Brasil no Paquete Britânico R.M.S. Orduña.
Guimarães, republicano até à raiz dos cabelos, tem de fugir do país devido à perseguição que lhe é imposta pelos seus proprios correligionários, e encontra-se dentro de um navio carregado de refugiados... monárquicos, que fogem por sua vez fogem às perseguições republicanas dos aliados e inimigos de Guimarães.
Apesar de perseguido, José Guimarães roga por uma colocação em São Tomé e Príncipe, pois de acordo com as suas próprias palavras:
"Antes na Africa entre negros que no Brasil entre Talassas ..."

A bordo do Orduña 20/06/1914

Meu querido amigo

Principiam a turvar-se-me os ares...
Encontro-me a bordo com um grupo bastante numeroso de Portugueses, quasi todos talassas até à raiz do sabugo.
Ontem ao ouvir incomensuráveis patacoadas, insultos à república e ao Dr. Afonso Costa, perdi as estribeiras e disse-lhes duas das minhas. Vá lá o homem ter mão nos nervos e meter uma rolha na boca!
Quer me parecer que não aguento no balanço com semelhantes esmolas à parva. Escrevi ao Damião para Caminha e vou-lhe escrever também para a câmara dos Deputados. Quem dera que ele arranjasse o tal lugar em São Tomé! O médico António Guerra que de lá veio nada sofreu com o clima, que é suportável no interior da ilha onde ele esteve.
Veja o meu bom amigo se, por intermádio do ministro dos estrangeiros, posso conseguir esse lugar que é de rendimento certo. O ministro é da intimidade do Marquêz de Vale-Flor, e com o ministro deve se dar o Major Sá Cardoso ou outro qualquer dos seus amigos.
Oxalá que eu chegasse ao Rio e tivesse lá um telegrama a mandar-me regressar!
Se o meu bom amigo tivr qualquer coisa a dizer-me pode escrever para a Rua do Barão de Itapagiripe, 408 – Rio de Janeiro.
Peço-lhe este favor pelas criancinhas que deixei no alto minho.
Antes na Africa entre negros que no Brasil entre Talassas de miolos de granito a quem diariamente vou ouvir canalhices contra a republica e contra o meu partido.
Afectuosos cumprimentos à sua excelentíssima esposa e um grande abraço do
J. Guimarães

PS: A Lista que aqui lhe deixo dos amigos dos arcos a quem pode auxiliar em qualquer pretensão é contituída pelos seguintes indivíduos:
António Ramos
José Galvão
Simão Santana da Rocha
António Luis de Amorim
José de Barros Lima
Joaquim Manuel de Araújo
José Manuel de Brito Dantas
Há outros que o meu bom amigo conhece,
JG

Terça-feira, Agosto 02, 2005

Rodrigo Luciano de Abreu Lima (1884-?)

Nasceu a 6 de Abril de 1884 em Vila Nova de Gaia. Funcionário público foi chefe da Repartição Superior da Administração Pública e Civil de Angola e Secretário do Interior do mesmo território. Foi administrador de vários concelhos, ficando especialmente ligado a Viana do Castelo, onde foi presidente da Câmara* e chefe de secretaria da Junta Geral do Distrito e deputado em 1925 pelo Partido Democrático em 1925
Parlamentares e ministros da 1ª República - Marques, Oliveira(coord.). Assembleia da República, Lisboa, 2000
* O que o Livro de Oliveira Marques não refere é que Rodrigo d’ Abreu Lima foi o primeiro presidente da Câmara de Viana do Castelo após o golpe de 28 de Maio de 1926. Uma grande cambalhota para quem, até ao dia anterior era um violento republicano radical, como o teor das cartas posteriores irá dar a conhecer aos caros leitores.

Caciques Minhotos

A segunda metade do ano de 1914, foi prolífica em lutas partidárias, mas ao contrário do resto do país, em que estas lutas se realizavam entre os três grandes partidos do regime, no distrito de Viana do Castelo a violência imperava dentro do Parido Democrático, onde em cada concelho existiam várias facções que se digladiavam entre si, chegando a ocorrer combates de rua, tentativas de assassinato, panfletos anónimos e assinados. Em suma poucos poleiros para tantos galos. Raimundo Meira, a eminência parda do poder democrático em Viana do Castelo a tudo assistia da Serra do Pilar, mais preocupado com a sua carreira militar que com a sua carreira política.
A sua condição de eminência parda permitia-lhe ser o único dirigente que os caciques concelhios reconheciam pelo que em Vila Nova de Gaia tinha uma visão profunda do que se passava no terreno.
Em 15 de Julho de 1914, o seu homem de mão, Rodrigo Luciano de Abreu Lima, escreve-lhe a dar conta do acto eleitoral em Ponte de Lima que ocorreu para o lugar de deputado que Manuel de Oliveira, portador duma doença fatal, colocou à disposição.

Meu caro amigo

Cheguei hoje de Ponte de Lima. Aquilo está fraca coisa. Os partidos monárquicos votaram todos contra o Oliveira proclamando aos quatro ventos que aquilo significava uma parada monárquica e era uma demonstração de força. Os Abreus Coutinhos, pai e tio do deputado não auxiliaram o Oliveira. O Pai ficou em casa sem pedir um único voto a favor, arranjando alguns por baixa – não contra.
O Tio andou na sua, foi ele mesmo à urna com os filhos todos! Os evolucionistas não votaram a não ser nos seus, que o fizeram por questões particulares, como fosse hostilidade ao Ramalho.
O Lemos não votou e condena o facto que crimina de uma infame manipulação monárquica.
Quanto à reunião vai ser feita por estes dias e vamos amanhã fazer os convites,
O Oliveira diz que não será bom dar já a cadeira do deputado sem primeiro ouvir o Directório, bem como sem ver mais uns dias no que param as modas. Deixando pouco um lugar em aberto p´ro que der e vier. Diz que acha magni-fica a conquista do Luciano. Eu chego aí no dia 17 à tarde ou no dia 18 de manhã para o congresso.
À noite escrevo mais circunstanciadamente.
O Oliveira está muito chocado com tudo aquilo. É gente sem dignidade e pode de um momento para o outro como vingança, passar para o partido contrário, apesar das suas afirmações de ferrenhos monárquicos.

Seu amigo certo

Rodrigo de Abreu

PS: O pobre do Guimarães lá foi hoje para o Brasil!
È o que me espera! Se lá me deixarem chegar os Talassas ...
Os monárquicos dizem que não vão à urnas nas eleições e pedem para ficar em casa

Manuel José de Oliveira (1877 – 191…)

Nasceu a 23 de Março de 1877 em Marrancos, Vila Verde. Era irmão do Advogado Joaquim José de Oliveira (Ministro da Instrução em 1919/1920). Estudou no Liceu de Braga e formou-se em Medicina pela escola Médico-Cirúrgica do Porto. Médico municipal de Ponte de Lima e redactor dos jornais “A Alma Nova” e “A Pátria”, onde desenvolveu forte propaganda anti-clerical. Organizou o comité Académico-Operário, por ocasião do caso Calmon, que deu origem à primeira Universidade livre de Portugal. Foi eleito deputado à assembleia constituinte e, depois, senador pelo círculo de Ponte de Lima.
Parlamentares e ministros da 1ª República - Marques, Oliveira(coord.). Assembleia da República, Lisboa, 2000

Um Lugar livre

Manuel de Oliveira, deputado do Partido Democrático pelo círculo de Ponte de Lima, escreve a Raimundo Meira a dar-lhe conta da sua desistência do lugar que ocupa no Parlamento motivada pela existência de uma doença incurável.

Meu caro e prezado amigo

O Afonso esteve aqui no passado Domingo. Expus-lhe a situação política deste concelho dizendo-lhe o que sempre pensei quanto a quem deve chefiar a política do distrito que tem de ser imperiosamente V. Exa.
Agradeço-lhe muito cordialmente as palavras da sua carta, mas eu é que tinha, por motivos de saúde, profundamente abalada, de abandonar esta terra e a política activa. A minha doença é incurável e não se propaga a ninguém. Tenciono aproveitar o tempo que me resta de vida ….

Esta minha resolução é inabalável. Tenho um grande amor pela República e pelo Partido Democrático e por isso fico como …. (Ilegível)


Manuel Oliveira

Quarta-feira, Julho 13, 2005

Ângelo Alves de Sousa Vaz (1879-1962)

Nasceu em 16 de Fevereiro de 1879 em Lisboa. Formou-se me Medicina em 1902, na Escola Medico-Cirúrgica do Porto, tendo-se especializado em Pediatria. Deputado à Constituinte e entre 1915-1917, foi graças a uma iniciativa legislativa sua, que se criou o Liceu Alexandre Herculano e o Liceu Rodrigues de Freitas (D. Manuel II).
Genro de Bernardino Machado, foi seu secretário durante a visita que este fez à frente de Batalha na Flandres em 1917.
Escreveu vários livros sobre pediatria, saúde escolar e história.

Conversas de rua

Alfredo de Magalhães conta as suas peripécias no Porto, onde tem de fugir de um grupo de Democráticos, e conta as suas suspeitas de que Bernardino Machado se aliou a Afonso Costa.

Meu caro Simas

Perdoe-me por quem é! Tanto contava e desejava estar consigo à hora ajustada, que adiei para amanhã um jantar que tencionava dar hoje no palácio a um amigo recém-chegado do Brasil. Mas depois das aulas fui obrigado a demorar-me em casa de um cliente; e na rua, logo por mal dos meus pecados, encontrei democráticos vários que houveram por bem ferrar-me outras tantas estopadas. Depois desatei a correr, e quando cheguei a São Lázaro a suar como um galego, toquei Ângelo Vaz e tive de fazer nova estação, esta não de todo inútil. Eu falei bastante, ele, o menos que pode. Discreto tal Taillerand… Mas como os grandes homens (mesmo quando pequeninos) em poucas palavras dizem muito…, ali soube abertamente, ou vi confirmado que Bernardino está de alma e coração com Afonso.
Era o que eu dizia ao bom do nosso Pimenta! Aquele jovem deputado é no momento o melhor e mais simples dos barómetros políticos. Não engana um lavrador!
Mas temos muito para desabafar, não é assim? O Adriano, se ainda não chegou deve demorar pouco. Ele se encarregará de nos convocar para trocarmos impressões e dizer-nos as que colhem naquela Lisboa. Agora desejo que me perdoe, repito a involuntária grosseria em que incorri não estando em casa quando você teve a gentileza de visitar-me.
Creia-me sempre

Amigo dedicado

Alfredo Magalhães
31 Julho 1914

Segunda-feira, Julho 11, 2005

Lutas de caciques

Continuam as lutas internas em Arcos de Valdevez. Em 22 de Maio de 1914, Raimundo Meira, recebe esta carta remetida por Manuel Joaquim Lourenço.

Exmo. Sr. e prezado amigo

O Dr. Carlos Bacelar aceita o cargo de administrador deste concelho. Reside no Concelho dos Arcos e escreve-se para Padreiro – Arcos. É novo, inteligente e penso que é um rapaz aproveitável para a política.
Aí vai um papelucho que fez gáudio no meio adverso ao Guimarães. Assina-o um Soares, irmão do Soares das bombas, bacharel em Teologia e solicitador e um borrachinho de profissão. É gente levada de mil demónios!
Ficou resolvido o caso Álvaro Aguiam? Eu não quero ter interferência nas coisas dos Arcos e conto-as a V. Exa. já agora, diga-me a verdade, à conta da bisbilhotice. O Álvaro também ali tem seus qq e inimigos. Para agora, para dar uma satisfação ao Guimarães e uma trombada no Juiz Barreiros era obra razoável, para o mais, consolidar o Partido Democrático, mantê-lo unido e respeitado, francamente não serve.
V. Exa. terá, decerto, ouvido muito disto, mas no estado em que está a política dos Arcos… ela vê-se muito melhor de fora do que no meio deles. Ali quem não é pela república, fez-se inimigo do Guimarães e fez-se com motivos. Refiro-me ao funcionalismo. O contador, que é cunhado do Alves, o escrivão Lima, o escrivão-notário Barreiros é da primeira categoria. O delegado, o escrivão Rocha Gomes, os notários Albano e Germano fazem o mal que podem ao Guimarães. Junto a isto, na gente que entrou sem condições de moralidade para a república, a do Abade da Grela, e eis os Arcos. Um Juiz Barreiros com a maldade na medula dos ossos é um Juiz de direito incompetente, dizendo ámen com todos, que se deixou ridicularizar no celebre julgamento e que teve a celeridade de uma vez declarar que condenaria o Guimarães, o que decerto sucederia não fosse a habilidade do Dr. Manuel Oliveira, que o zurziu de Lisboa, inquirindo da sua habitual morada e o feitio do então juiz desta comarca Dr. Abel Campos de Carvalho – tudo isto, veja V. Exa., é os Arcos e dos Arcos.
O novo Engenheiro Assunção mandou-me notícias com muita animação.
É com muita consideração

De V. Exa. muito grato

Manuel Joaquim Lourenço

Barca, 22 de Maio de 1914


O papel que Manuel Lourenço se refere não chegou até aos nossos dias, mas poderão ver aqui o tipo de panfletos que circulavam, neste caso é um panfleto escrito por Francisco d' Abreu Coutinho contra Manuel de Oliveira, deputado do Partido Democrático.

Panfleto (formato pdf - 428 Kb)

Quinta-feira, Julho 07, 2005

Brito Camacho - Uma Fêmea em época de cio?

Meu caro Simas

Não resisto a mandar-lhe uma Luta que ontem li. Havia-me dito você que o Brito Camacho já começava a atirar-se ao Bernardino. Pois não me parece. O que ele deseja é que o deixem em paz com todas as autorizações que o congresso lhe votou.
Por muito curioso lhe sublinho o fim do artigo. E diga-me, depois, se o Brito será um político em nulidades, espécie de fêmea em época de cio e em constante pecado natural de concupiscência arvorado por todos os governos. Pois meu caro Simas, se precisar de macho que a domine, não sei se o Bernardino lhe vai procurar o gosto que melhor o subjuguem … a besta.
Veja o artigo e não tenha dúvidas.

ADRIANO

Pelo teor desta missiva situo-a no final de 1914, quando começou a contestação ao governo de Bernardino Machado. Com "as autorizações que o congresso lhe votou" Adriano Pimenta refere-se ao pacote legislativo votado por causa do ínicio do conflito europeu que concedia quase "carta Branca ao presidente do conselho de ministros. A ausência de data torna quase impossível de saber o teor do artigo de Brito Camacho.

Terça-feira, Junho 28, 2005

A Organização das eleições

Em 1914, Bernardino Machado, apesar de apoiado pelo Partido Democrático, ainda não se tinha tornado na marioneta manobrada por Afonso Costa, na qual se viria a tornar a partir de 1916, por isso a sua permanência à frente do ministério, e sobretudo à frente do Ministério do Interior, era um obstáculo às ambições individuais de todos os Partido Políticos. Estes desejavam a todo o custo conseguir controlar o governo, para assim poder organizar as eleições da maneira mais favorável aos seus interesses particulares.
Em Outubro de 1914, o Partido Democrático de Afonso Costa, no seu congresso anual aprovou o seu programa:
- Abolição do Senado (Onde o Partido não dispunha de maioria);
- Limitação dos poderes do Presidente da República (Que não pertencia ao Partido);
- Eliminação das representações minoritárias no Parlamento.
Bernardino Machado ao aceitar promulgar uma lei eleitoral, desenhada para a obtenção de uma maioria absoluta do Partido de Afonso Costa, faz estalar o conflito com os Unionistas e os Evolucionistas, que abandonam o Senado de modo a impedir a aprovação da lei eleitoral, conseguindo assim isolar completamente Bernardino Machado, que se demite.

Domingo, Junho 26, 2005

O Governo de Bernardino Machado

O governo de Bernardino Machado era constituído por 3 democráticos (Monteiro, Cabreira e Gonçalves), dois neutrais (Pereira d’ Eça e Lisboa de Lima, um adesivo (Sobral Cid) e um Camachista (Neuparth). A Distribuição das pastas era a seguinte:
- Bernardino Machado (Presidente do Conselho, Interior e Negócios estrangeiros)
- Pereira d’Eça (Guerra)
- Augusto Neuparth (Marinha)
- Manuel Monteiro (Justiça)
- Tomás Cabreira (Finanças)
- Aquiles Gonçalves (Fomento)
- Lisboa de Lima (Colónias)
- Sobral Cid (Instrução)
A presença de Manuel Monteiro no Ministério da Justiça, garantia que os democráticos continuavam a manter em respeito a Igreja. Bernardino controlava o Ministério do Interior para organizar Eleições Livres.
Bernardino tentava equilibrar a balança, tentando construir uma clientela para assim ser o árbitro do regime. Aliviou as perseguições anti-clericais, permitiu o regresso a Lisboa de D. António Mendes Belo e publica uma amnistia para presos políticos, a qual no entanto não abrangia os chefes monárquicos, o que desagradou aos moderados e reconheceu o estatuto de “revolucionários civis” à formiga branca de Afonso Costa, colocando-os em empregos públicos.
As eleições gerais estavam previstas para Novembro de 1914. No entanto o deflagrar do conflito europeu no final de Julho de 1914, veio baralhar completamente a politica interna Portuguesa.
No início do conflito, parecia que a política beligerante de Bernardino Machado, apoiado pelo Partido Democrático ganharia popularidade e nesse sentido o Congresso concedeu a Bernardino quase carta branca.

Quarta-feira, Junho 22, 2005

Alfredo de Magalhães, já de volta ao Porto, continuava a viver em quase reclusão, pois devido a ter sido o único opositor a Afonso Costa no Partido Democrático, continuava impedido de leccionar na Escola Médico-Cirúrgica daquele cidade. No entanto a demissão de Afonso Costa fez com que ele começasse a reconsiderar a sua reclusão da Política.

Meu caro Simas Machado

Não sei há muito notícias suas. Você como vai? Acompanho todos os sucessos com enorme interesse, leio quantos jornais se publicam em Lisboa e cá me vou edificando. Continuo em regime de anacoreta, isolado na minha ilha, entre os meus queridos livros.
Escusado é dizer-lhe que estou em espectativa armada, e que não morreria bem se não realizasse um juramento que tenho cá dentro.
Muito bem. Diga-me quando vem cá ao Porto para conversarmos, que podemos tomar uma resolução importante, e peço-lhe que não se filie em qualquer grupo político sem me prevenir. Ou já deu esse passo? Assim lhe falo, meu caro Simas, porque nunca hei-de esquecer as suas tão nobres demonstrações de solidariedade e consideração e a grandeza do seu porte, quando a “camorra” investiu contra nós. Que pena, como estará o Pimenta?

Abraço-o bem do meu coração

Alfredo de Magalhães

2 de Março de 1914
Avenida Rodrigues de Freitas, 89

Quarta-feira, Abril 13, 2005

Poder total

Ao contrário de hoje em dia, na primeira républica não existia separação de poderes. A magistratura dependia do poder político. A colocação de magistrados era um bom meio de compadrio e de manutenção do poder, por parte de quem o detinha.
A 5 de Março Raimundo Meira recebe uma carta de Damião Lourenço Júnior relativa à promoção de um Delegado do Ministério Público a Juiz e à sua colocação em Paredes de Coura, desejo de Raimundo Meira

Lisboa, 5 de Março de 1914

Meu caro amigo

Acabo agora mesmo de falar com o Dr. Germano Martins(1) sobre o assunto da carta de V. Exa., dizendo-me ser absolutamente impossível a colocação em Paredes de Coura do Sr. Justino Correia.
Não me parece que haja qualquer compromisso com Paredes de Coura, mas o que o Germano alega é que um delegado promovido a juiz, ficou em nenhuma comarca do Minho e que tal excepção seria uma grande imoralidade.
Eis o que me ofereceu imediatamente, conforme a sua especial recomendação.
Dos memoriais que me enviou vou tratar amanhã.
Como estou certo que o sucessor de V. Exa. será o Maia Pinto e que não demorará muito a o substituir. Oxalá continue no mesmo caminho político de V. Exa. e que seja tão feliz nas próximas eleições como V. Exa. o foi nas passadas, o que duvido.

Damião José Lourenço Júnior


(1)Germano Lopes Martins – Ver a reunião do directório do PRP relatada por Alfredo de Magalhães. Era na altura Secretário-geral do Ministério da Justiça, sendo por isso a pessoa que se devia contactar caso se pretendesse algum favor ou cunha nas colocações de juízes e delegados.
No dia 21 de Fevereiro de 1914, Raimundo Meira emite a sua opinião sobre os três nomes propostos para lhe sucederem no cargo de Governador Civil de Viana do Castelo.

Meu caro Ramos Pereira

Dos três nomes que indicas na tua carta como tendo probabilidades de me substituírem o que eu julgo mais conveniente é o Maia Pinto. Conhece alguma coisa do Distrito e conhece os republicanos. Já foi mesmo em tempos indicado para este lugar.
Não sei se ele quererá e não sei se o Bernardino o nomeará por ser filiado.
O Engenheiro Belard da Fonseca sendo, como dizes, no fundo nosso correligionário estava bem, mas como não conhece o meio terá de encostar-se a qualquer dos grupos (Povo ou Antunes) e daí o reviver de zaragatas que agora já estavam quase extintas. Além disso creio que é desconhecido na terra e sendo assim voltava o isolamento que cercou o Fernandes Pinto* e eu julgo isso prejudicial não só ao nosso partido mas também à republica.

Do Rodrigues da Silva escuso de falar-te porque tu conheces bem a situação dele aqui. Não está filiado, mas creio que é muito amigo do Antunes, o que talvez fosse origem de futuras questões entre democráticos e poucas relações e simpatias tem fora do meio republicano.
Lembro-me ainda do Segismundo mas, não sei porque motivo, goza de poucas simpatias, entre os nossos correligionários, talvez porque santos da casa não façam milagres. Era capaz de fazer um bom lugar. Mas lá está também a filiação e a questão de ser tropa.
Enfim escolham mas mandem democrático ou pelo menos que o seja no fundo.
Há conveniência em resolver isto breve, principalmente para mim.

Quarta-feira, Abril 06, 2005

Os Candidatos

A 19 de Fevereiro, e a propósito da escolha do futuro governador civil de Viana do Castelo, Luís Ramos Pereira, senador do Partido Democrático escreve, apesar de agastado, a Raimundo Meira, dando-lhe conta dos vários candidatos para o lugar.

Meu caro Meira

Não comento o que dizes infamemente (vá lá o eufemismo) no caso Valença e Lima.
Uma coisa há, que tenho direito a exigir, é que façam justiça ao meu procurador.
Está assente em princípio que seja o teu substituto, o Maia Pinto, se este não quiser ou não for viável a sua indicação parece inclinar-se a sua indicação para o engenheiro Belard da Fonseca, no fundo nosso correligionário mas não filiado.
O nosso Rodrigues da Silva também foi lembrado, mas acho-o muito prejudicado.
O Bernardino diz não ter pressa em te substituir de modo que há tempo para daí dizeres alguma coisa, pelo que te peço não demores este assunto pois que devemos escolher quem seja bem o continuador da tua obra.
Ainda que não estejas no governo civil de Viana, deves por tudo continuar a dirigir a política de lá, mesmo pelo teu futuro político e pelos verdadeiros interesses do nosso distrito.

No Sábado fui a Cerveira, regressando aqui no Domingo. Nada te mandei dizer por não possuir carta tua respondendo às minhas suspeitas. Era a única razão de nada te mandado dizer bem como a ninguém.
-----??
(Ilegível) À minha insignificante personalidade política o que suceder, uma coisa há, que sempre perdurará é a velha amizade que te consagro, nunca esquecendo o que devo à tua amizade.
O decreto da tua exoneração não sai por enquanto. Dez o que pensas sobre as indigitações para a tua sucessão.
Um grande abraço do teu amigo

Luís Ramos Pereira

PS: Acabo agora de receber a tua carta e vou já falar com o Sá Cardoso.
Já tencionava falar com o Afonso sobre Viana.

Domingo, Abril 03, 2005

Confirmação do Telegrama

No mesmo dia em que enviou o telegrama cifrado a Alfredo Pinto, Raimundo Meira escreveu-lhe uma carta em que reafirmava o essencial do telegrama, sobretudo a preocupação de que a organização do Partido Democrático no distrito de Viana do Castelo sofresse com a sua partida.

Meu Exmo. Amigo
Confirmo o meu telegrama de hoje. Se for preciso pedir a demissão mande dizer, mas entendo não ser preciso, vistos os decretos de demissão dos militares já estarem lavrados e portanto os pedidos feitos.
Como disse é indispensável que venha para cá um democrático para não se perder tudo. Para escangalhar o partido cá no distrito basta o que tem feito o Ramos Pereira, Sousa Júnior, Dias Monteiro, etc, etc.
Muito estimei que continuasse neste lugar.
Agora um pedido que é importante.
Não consinto que retirem de cá a força da guarda republicana antes de se criada a destinada a este distrito. Lembra-se o meu bom amigo que se tinha relaxado por isso e que o nosso ministro assim o tinha prometido.
Deixo isso ao seu cuidado e fica bem entregue – logo que seja publicado o decreto da minha exoneração retiro-me para o Porto, tendo na Rua da Boa Hora 29, uma casa às ordens. Desculpe tanta maçada que lhe disse e mande sempre

Raimundo Meira

Quarta-feira, Março 30, 2005

Telegrama Cifrado

Este telegrama, e as cartas que se seguem relatam a escolha do novo Governador-Civil de Viana do Castelo, que iria substituir Raimundo Meira, impossibilitado de continuar no cargo devido a uma lei que impedia os militares no activo de ocupar cargos públicos. O problema na escolha do seu sucessor não era escolher a pessoa mais competente para o cargo, mas sim quem melhor defenderia os interesses do Partido Democrático.
Este telegrama cifrado foi enviado a Alfredo Pinto.

10885 20837 33065 34492 sentido seu 34442 porque sendo 27862 33355 10213 17226 34005 16817 25351 17616 o que me 20837 16828. Junto tenho 28182 10515 23795 maior 33504 mas só 28485 Que 38165 21749 34348 33343 11978 é indispensável. Julgo inútil 38989 11938 visto estar 28638 18906 antes 37135 21803


O seu texto integral é:

Confidencial. Não posso telegrafar. Sentido seu telegrama, porque sendo militar só passando a adido podia continuar a exercer o cargo o que me não convém. Junto tenho o Dr. Bernardino Machado maior veneração mas só gosto servir situações retintamente partidárias, Que quem me vier substituir seja democrático. Julgo inútil pedir demissão visto estar lavrado decreto antes queda ministério.

Sábado, Março 26, 2005

Republicano desiludido - IV (Fim)

Meu caro Simas

Encontrei hoje no meu correio a carta de Lisboa de Lima(1), que lhe interessa conhecer e que me devolverá depois.
A promessa de justiça está aí bem expressa. Tenho ainda suficiente stock de ingenuidades para crer que, apesar da camaradagem, nem tudo e nem todos, dentro desta república seguem as escolas da degenerescência e bandalheira dos estadistas da laia de Afonso e Bernardino.
Se me engano mais uma vez o mal não será só meu, para adquirir mais perfeito conhecimento dos nossos homens públicos deste infeliz país, que estará destinado a alfobre de mariolas. E digo do país: pois que a república, essa, é bem ainda que me preza, o logradouro de vários Santos de grande e pequena categoria.
Est voilá

Cumprimentos às senhoras
Um abraço do
Adriano


(1) Alfredo Augusto Lisboa de Lima - Ministro das colónias no governo de Bernardino Machado

Quinta-feira, Março 24, 2005

Republicano desiludido - III

Meu caro Simas

Agradeço-lhe a sua carta e o seu conselho amigo. E creia-me que ele exprime tão bem a sua amizade, que me tocou profundamente.
Mas meu caro Simas, poderei eu abandonar, sobre um facto como o da agressão, o parlamento, a vida política? Ficar-me-ia bem?
Eu vejo-a a frio e vejo-a também sob o aspecto político.
E a política vai transformar-se.
Alguns factos que eu conheço e outros que adivinho, convenceram-me que acontecimentos importantes se preparam nesta vetusta república. Sendo assim, convém que um certo número de indivíduos limpos e de valor estejam em condições de poder apoiar quem tente outra solução patriótica e honesta, dentro da república.
Muito temos de conversar, e depois você me dirá se devo ou não abandonar de vez a política. Farto dela estou eu; creia-me, mas tenho hoje responsabilidades que convém não olvidar. Nós três, com alguns amigos de inteira confiança discutiremos isso. Reportar-lhes-ei factos que conheço e que me deixam perplexo ainda. Ouvi-los-ei no tempo que tenho de descansar.
O primeiro movimento que se sente neste meio em que me sinto enredado é realmente fugir.
Mas se fugirmos … é o triunfo da canalha vil que está emporcalhando a república.
Enfim, até breve. Sigo esta semana.
Tenho sido acusado de atitudes agressivas, à minha chegada.
Veremos, e talvez isso justifique um acto meu.

Até breve, pois vá-se preparando para uma cavaqueira larga.

Terça-feira, Março 22, 2005

Republicano Desiludido - II

A carta que se publica, deve ter sido escrita no dia 5 de Fevereiro de 1914, revela bem como estavam extremadas as posições entre os republicanos. Relembro que Adriano Pimenta era, ainda 6 meses atrás, membro da direcção do Partido Democrático.

Meu caro Simas

Levanto-me hoje pela primeira vez e ainda incapaz de andar. Conto todavia, estar aí em Lisboa no meio da próxima semana.
Você compreende a minha angústia, nesta situação de inactividade forçada, num momento em que o meu temperamento e o meu dever me chamavam para o centro dos acontecimentos. E deve ter adivinhado também a revolta que eu sinto contras a atitude de grosseira violência desse feirão malcriado, habituado a conduzir, pela ponta do chicote, o manhoso gado que lhe tira o pesado carro de triunfador brigão. E não vejo uma atitude decidida das oposições, em face da omnipotência do ditador.
Por algumas pessoas que aqui me tem vindo visitar, sei que a oposição é cada vez mais hostil ao Afonso. O silêncio, a aparência mesmo de sossego é a prova do repúdio do Afonso Costa, que toda a gente considera capaz de tudo. Mal vai a republica se inoportunos fregueses dão a impressão angustiosa de que dentro das actuais instituições não há ninguém com coragem de se opor ao regímen opressivo do actual governo. A descrença é certa e a monção favorável a um golpe de mão, que terá a justificá-lo a absoluta impossibilidade de continuar um país, num truculento arbítrio de um homem sem escrúpulos. Você sabe de quanto o Afonso é capaz. Vaidoso, sem nível e julgando-se cheio de força, pela fraqueza dos outros.
Por causa dele a republica está cada vez mais isolada. Os monárquicos que ao princípio a aceitavam, detestam-na hoje; e muitos republicanos, os bons, os sinceros, esses não sentem já nenhuma fé na república e talvez vissem com indiferença uma restauração. É isto que eu lhe digo, se o senado não mantém a mesma atitude activa e vigorosa … então está tudo perdido. Venho para casa.
Vi hoje, no Janeiro que o Afonso apela para o presidente Arriaga.
Compreendo o golpe. O pobre do homem que é um joguete nas mãos do Afonso, é capaz de insistir, afeiçoando as oposições aos interesses dessa câmara. Faz mal. Eu se estiver no Senado, quando souber que tal coisa se tinha conseguido, não me retiraria sem mostrar quanto foi impolítica e antes de me retirar, enojado, procuraria ao menos desculpar-me, exprimindo a minha indignação pelo facto de o Afonso não ter escrúpulos de comprometer a figura do presidente.
Se isto sucede o que fica desta republica? O Afonso? Sem parlamento, sem poder judicial, sem o prestígio da presidência é o poder pessoal de um brutamontes, sem dignidade e sem vergonha, com o pobre talento de um advogado esperto.
Que tristeza eu sinto.

Adeus Simas, até breve

Seu amigo

Adriano

Domingo, Março 20, 2005

Republicano desiludido - I

As seguintes 4 cartas não datadas foram escritas por Adriano Pimenta a Simas Machado. Da sua análise penso que elas foram escritas entre o final de 1913 e meados de 1914 e serão apresentadas na sua ordem cronológica provável.

Meu caro Simas.

Posto que melhorando, ainda me encontro na cama, impossibilitado de deslocar-me. Agradeço-lhe a sua carta e pode imaginar a arrelia que dia-a-dia me vai irritando mais vai ainda poder dar-me umas descomposturas. Mas eu aqui tenho tido dias óptimos, ensejos da mulher e da sogra.
Não há dúvida que o Afonso, politicamente é um imbecil. Mesmo quando, na melhor das hipóteses, ele pretende abandonar o poder com algum prestígio, mas não era criando uma irredutibilidade com o congresso. No fim de contas que ficou? Pediu apenas que não se vai defender de acusações graves que lhe foram formuladas e que lhe podem cobri a fuga, desatou aos vivas à constituição. É tudo comum que as oposições tardam em precaver-se contra a solução Bernardino. Essa seria a pior de todas as soluções. Era a tal partida da oposição, que o Afonso iria governar para sempre, e ás oposições de aqueles, mijavam-se em cima.
Peço-lhe o favor de dizer ao Pedro Martins que eu lamento a minha situação e que ele e as oposições contem comigo porque não tenho, até agora, um momento de desânimo. É necessário que elas se mantenham na atitude necessária para dar satisfação às necessidades do país. Conto consigo para mostrar aos meus amigos que não sinto desfalecimento.
O Tesoureiro do Congresso oficiou-me e preveniu-me que eu mandasse receber o subsídio. Telegrafei-lhe hoje e pedi-lhe que o entregasse a você.
Peço-lhe pois o favor de, com a declaração junta, me vá receber o subsídio, tomando conta dele até à minha chegada.

Abraços meus e cumprimentos das senhoras

Adriano

Adriano Pimenta (1862-1938)

Adriano Augusto Pimenta nasceu a 12 de Outubro de 1862 na Vila da Feira. Estudou no Porto, em cuja Escola Médico-cirúrgica se formou em 1890. Médico Municipal em Valongo durante algum tempo e instalou-se depois no Porto com consultório. Aderiu ao republicanismo desde os tempos académicos e fez parte da primeira comissão municipal republicana do Porto, então chefiada por Duarte Leite. Participou em diversos comités republicanos no norte de Portugal. Após o 5 de Outubro foi nomeado governador civil de Viana do Castelo (1911), cargo que ocupou por pouco tempo, pois foi eleito deputado à constituinte pelo círculo de Amarante e, depois transitou para o Senado. Foi presidente da Câmara Municipal do Porto onde tomou a iniciativa da construção da Avenida da Ponte D. Luís I.
Por incompatibilidade com os dirigentes do PRP, afastou-se da vida política e dedicou-se à medicina.
Foi sócio do jornal "O Primeiro de Janeiro", tendo sido seu director entre 1923 e 1926. Em 1931 fez parte da mesa administrativa da Santa Casa da Misericórdia do Porto. Pertenceu à maçonaria desde 1890, iniciado na loja Honra e Dever, onde adoptou o nome de Büchner.
Ministros e Parlamentares da 1ª Republica - Guinote et al - Lisboa - 1991 - Assembleia da República
Grande amigo de Simas Machado e Alfredo de Magalhães, é um dos correspondentes do General com maior número de missivas escritas, cerca de 30.


Simas Machado, então Coronel, dirige-se aos recrutas que no Quartel de Infantaria 18 prestam juramento de Bandeira.

Infantaria 18 ocupava em 1913, o edifício que é hoje o Quartel General, na Praça da República no Porto

Quinta-feira, Março 17, 2005

A Queda de Afonso Costa - II

A demissão de Afonso Costa não tinha sido o “atirar da toalha ao chão”, em 24 de Janeiro joga duas cartadas, convoca para 26 o congresso da república (Reunião conjunta das duas câmaras) onde dispunha da maioria necessária para aprovar uma moção de confiança e uma manifestação popular para o mesmo dia à noite. Mas ambas as cartadas saíram furadas. No Congresso as oposições abandonam a sala deixando os democráticos sozinhos. Nessa mesma noite a manifestação começou com as sedes iluminadas, foguetes, bandas de música e “balões venezianos”, mas ao entrar no Rossio foi atacada à bengalada, a tiro e à bomba e rapidamente dispersada pela “formiga preta”. O próprio jornal “O Mundo” foi cercado e apedrejado, sendo salvo de ser incendiado pela GNR.
A 4 de Fevereiro, Afonso Costa joga a última cartada, exige ao presidente que o novo governo e seu programa seja nomeado e aprovado pelo congresso dos deputados, onde dispunha de confortável maioria. Em suma tentou pôr o Presidente entre a espada e a parede.
Nessa mesma noite, Machado dos Santos, convoca uma manifestação de apoio ao presidente Arriaga, exigir a demissão de Afonso Costa, amnistia para todos os presos políticos e a reabertura das casas sindicais. Brito Camacho e António José de Almeida recusam-se a participar e a manifestação teve um início muito tímido no Camões. Mas ao chegar à Avenida 24 de Julho, juntaram-se-lhe milhares de operários com tochas acesas e no Palácio de Belém um Arriaga eufórico recebe uma delegação dos manifestantes.
Perante o êxito da manifestação, a Afonso Costa apenas restavam duas opções. Ou governava em total ditadura, ou submetia-se e aceitava um compromisso. A perda da Rua fez com que escolhesse a segunda opção.O “Messias” seria aquele que Guerra Junqueiro definiu como “Homem de Borracha” – “Se lhe passasse um cilindro das estradas em cima, ele levantava-se todo lépido a tirar o chapéuBernardino Machado, aquele que tudo prometia e nada cumpria.

Terça-feira, Março 15, 2005

A Queda de Afonso Costa - I

Com os resultados das eleições de Dezembro, pensava-se que Afonso Costa ficaria instalado durante muito tempo no poder. No entanto, a grande vitória seria o início do fim do seu primeiro governo.
Com as eleições, o partido democrático ficou com a maioria absoluta no congresso dos deputados, tal facto permitia a Afonso Costa prescindir do apoio dos deputados Unionistas, afectos a Brito Camacho, o que fez com que estes achassem que as eleições haviam sido manipuladas. A quebra desta “amizade” fez com que Afonso Costa perdesse o apoio do Senado, câmara onde Camacho dispunha da maioria.
Por outro lado, o partido democrático não era uma força unida atrás do seu líder. Na realidade o Partido era composto de muitos grupos antagónicos que se mantinham através de uma delicada coligação, cujo único garante era Afonso Costa. Coexistiam vários grupos e tendências de onde se destacavam António Maria da Silva, líder da Carbonária, Álvaro de Castro e os “Jovens Turcos”, que queriam manter a todo o custo a aliança com Brito Camacho, França Borges, director do Jornal “O Mundo” que dominava o “bas-fond” Lisboeta.

Conhecendo as divisões internas do Partido Democrática, as oposições atacam em força o governo no Senado. Os sindicalistas, inimigos figadais de Afonso Costa, convocam para 14 de Janeiro uma greve dos caminhos-de-ferro, que isolou Lisboa do resto do País.
A 21 de Janeiro, Unionistas e Evolucionistas aprovam no Senado uma moção de desconfiança ao governo. Afonso Costa apresenta a demissão, entregando assim a decisão do futuro do governo ao Presidente Manuel Arriaga. Este escreve uma carta-programa aos três líderes da república na qual propunha um governo extra-parlamentar e, um programa de “acalmação”. Brito Camacho aplaudiu, pois o seu domínio do Senado permitia-lhe dominar o governo e assim organizar as eleições à sua maneira. António José de Almeida, não querendo beneficiar Camacho, rejeitou a proposta de Arriaga e propôs a constituição de um governo evolucionista. Afonso Costa não fez comentários, disse apenas que a Carta tinha matéria Anti-constitucional.

Domingo, Março 13, 2005

Moda Balnear - 1913

Era asim a moda de praia do ano de 1913.


Fotografia tirada na praia de Matosinhos

Queirós Vaz Guedes (1871 – 1926)

João Teixeira de Queiróz Vaz-Guedes, nasceu em Coimbra, a 24 de Junho de 1871, filho de José Teixeira de Quei­rós de Morais Sarmento de Almeida Vasconcelos e de Maria Júlia Pimenta da Costa Barreto. Casou com Maria Amália Sousa Coutinho.
Em 1889, ingressou na Faculdade de Direito de Coimbra, pela qual alcançou o bacharelato. Espe­cialista em Direito Financeiro, dedicou a vida profissional à advocacia. Desem­penhou ainda as funções de secretário-geral do distrito de Santarém. Republi­cano, integrou as fileiras do Partido Republicano Português (Democrático), ocupando, depois da República, o cargo de governador civil de Viseu em 1913-1914, ao mesmo tempo que iniciava vida parlamentar como deputado por Pinhel (1913-1915).
Deputado por Ponte de Lima em 1919, candidatou-se, sem sucesso, pelo mesmo círculo eleitoral, no ano de 1921, vindo a retomar o assen­to parlamentar por Santarém (1922-1925). Fez parte do elenco governativo em 1923, como responsável pelas pastas do Comércio (de 9 de Janeiro a 15 de Novembro) e das Finanças (entre 24 de Outubro e 15 de Novembro).
Pertenceu à Maçonaria, tendo sido iniciado, em 1909, na loja Liberdade III, com o nome simbólico de Gambetta.
Faleceu em Lisboa, a 23 de Março de 1926.

Sexta-feira, Março 11, 2005

A Igreja perseguida

As perseguições ao clero continuavam, Queiroz Vaz-Guedes (Referido na carta de Afonso Costa) dá conta dos seus actos a Raimundo Meira em 23 de Janeiro.

Meu excelentíssimo amigo

Recebi a sua carta com os documentos inclusos e apreciei como mereciam o diálogo em verso do Satanáz com o Gaspar Gomes, que não é aliás meu caseiro, e o mais. A questão do arrendamento do passal cifra-se no seguinte: como Vexa sabe as freguesias por aí são muito pequenas e o povo vê-se e deseja-se para pagar aos padres; fiz portanto propaganda na minha freguesia no sentido de convencer os habitantes a que encarregassem um só padre de paroquiar as duas freguesias de Pedreiro, que é a minha e a vizinha de S. Tiago de Cendufe. Parece que se convenceram e conseguiram convencer os padres, um dos quais, o de S. Tiago, está expulso da residência; parece que este concorda em se ir embora da freguesia com o que a República nada perderá, passando o encomendado de Pedreiro a ir residir em São Tiago, o que também lhe dá jeito por causa de uma quinta que ali comprou, mas para ele ir é preciso que lhe permitam arrendar a residência e passal de S. Tiago pagando, é claro maior renda que a actual e evitando-se que esteja a deteriorar-se abandonada a residência de S. Tiago. Creio que seria muito bom conseguir o que deixo dito: lucrava o estado na renda, o povo das duas freguesias na diminuição dos encargos e a instrução, pois ficávamos com a residência de Pedreiro, que é boa para a aplicar e suprir a falta essencial de casa para as escolas da freguesia. Peço portanto a Vexa que empenhe para o conseguir todo o seu bom esforço.
Quanto ao administrador, se o bacharel a que Vexa se refere é como julgo o filho do Dr. Souza, é o pior que pode ser; além de parvo e talvez mesmo por o ser, é criatura completamente do José Guimarães, tendo pedido nas últimas eleições o voto a um meu caseiro afirmando-se Camachista. Isto para além das prendas do pai e dos tios nos Arcos e em Melgaço.
Queria-se pessoa com tino, critério e um pouco de autoridade, aliás continuaremos na mesma ou pior.

Com muita estima, de Vexa. Correligionário e amigo muito dedicado

Lisboa 23/01/1914

Queiroz Vaz-Guedes

Quarta-feira, Março 09, 2005

Assuntos pendentes

Raimundo Meira escreve ainda ao Ministro da Instrução (Sousa Júnior) tentando encerrar vários assuntos pendentes neste ministério, antes de abandonar o cargo de Governador-Civil.

Confirmo o meu telegrama de hoje.
Mesmo sem as vantagens que tinha até 31 de Dezembro, eu continuaria neste lugar se isso fosse útil ao nosso partido porque foi somente com esse fim que o aceitei em Junho passado. Ninguém pode exercer bem um cargo destes sem que os governadores estejam convencidos que se tem todo o apoio e força do governo. …… Esse cargo não se dava comigo. E não se dava comigo pelas seguintes razões: O Sr. Ministro da Instrução prometeu-me, na presença do Presidente do Concelho e do Sr. Artur Costa nomear um professor dos Arcos, inspector. Esse professor, está nas perfeitamente nas condições porque é distintíssimo. Empenhava-se por ele um influente político do concelho dos Arcos e o Sr. Ministro da Instrução disse-me que lhe podia dizer que a nomeação se faria mas não para o círculo dos Arcos como o professor desejava.
Esses homens trabalharam dedicadamente nas eleições, mas a nomeação não se fez até hoje apesar de já ter insistido por ela.
O facto de se não ter nomeado o Dr. José Guimarães para qualquer parte tem causado também um efeito engraçadíssimo entre os influentes amigos dele.
Essa nomeação porém, estou certo há de se fazer porque Vexa assim o prometeu.
Outras pequeníssimas coisas tenho ainda pelo ministério da instrução, mas vamos ao final que é mais forte.
Tinha pedido ao ministro da instrução que modificasse um pouco o parecer do concelho superior de instrução pública acerca do castigo a impor ao director da escola normal desta cidade, isto é, pedir-lhe que não o transferisse. E pedi-lhe isto porque conhecia bem a origem da campanha contra o referido professor e portanto a revoltantíssima injustiça da punição, pois da própria sindicância se vê que ele é talvez o menos culpado de todo o pessoal daquela escola, mas muito principalmente porque fazendo-se o que eu pedia praticava-se um acto de justiça e obtinham-se óptimos resultados políticos.
O Sr. Ministro, pelo que li nos jornais, se reparou no meu pedido foi para agravar o castigo.
Não houve uma pessoa honesta em Viana que não se revoltasse ao ler nos jornais, tanto mais que todos sabem o que se passou naquela escola e ultimamente no liceu, como o sabe muito bem o Sr. ministro. Mas os resultados vão se ver nas próximas eleições e o senador Ramos Pereira, principal culpado disto tudo, verá os resultados do seu trabalho.
Este facto vai servir de pretexto a alguns elementos que ainda não se tinham manifestado passarem para a oposição.
E para finalizar permita V. Exa. que como dedicado correligionário me parece conveniente para a política partidária nesta região.
Era conveniente nomear um Governador-Civil que tenha todo o apoio do governo, que conheça o distrito e que nada se faça aqui sem ele ser ouvido. Isto é absolutamente indispensável e eu digo-o francamente porque já me não considero Governador-Civil. Se não se fizer isto, este distrito que devia ser um baluarte Democrático pode perder-se muito rapidamente. (a)
Ao meu sucessor indicarei um certo número de medidas que julgo ser preciso tomar e por em execução com urgência se não quiser que tudo se perca.
Agradecendo a continuação e a confiança, que em si depositou

(a) Para isso trabalham afincadamente as oposições servindo-se de todos os meios
.

Terça-feira, Março 08, 2005

Braga, Alexandre (1871-1921)

Da média burguesia portuense, filho do advogado e escritor famoso, do mesmo nome, e sobrinho de Guilherme Braga, Alexandre Braga, filho, nasceu no Porto em 10 de Novembro de 1871, para vir a morrer em Lisboa em 7 de Abril de 1921. Formou-se em Direito, em Coimbra, abrindo, depois, banca de advogado no Porto e na capital. Desde estudante que aderiu ao ideário republi­cano, fundando efémeros jornais dedicados à causa (Portugal, a Crónica) e publicando, com Fausto Guedes Teixeira, folhetos políticos por ocasião da dita­dura Hintze Ribeiro - João Franco (1894).
Mas foi como orador que Alexandre Braga veio sobretudo a distinguir-se, tanto no foro como, e especialmente, na política. Ao lado de António José de Almeida e Afonso Costa, mas porventura maior do que eles no brilho e na construção retórica, contribuiu decisivamente para difundir os ideais que servia entre as massas. Muito popular, foi eleito deputado republicano por Lisboa em 1906 e depois, sucessivamente, até à morte. Os anos de 1906-10 corresponderam ao apogeu dos triunfos oratórios de A. Braga.
Paradoxalmente, a proclamação da República trouxe-lhe a deca­dência, tanto no discurso como no gozo da popularidade. Democrático, foi, no entanto, ministro do Interior no efémero governo Azevedo Coutinho (Dezem­bro de 1914 a Janeiro de 1915) e, com mais continuidade, ministro da Justiça no último governo Afonso Costa, derrubado pelo Sidonismo (Abril a Dezembro de 1917). Mas era, já então, pouco conceituado pela sua vida dissoluta e pela sua incapacidade para a superar.
Exilado em 1917-19, regressou depois a Por­tugal, distinguindo-se ainda pela sua interpretação do fenómeno sidonista e denunciação dos males internos do Partido Democrático que o haviam causa­do. Retirou-se da política em 1920, falecendo pouco depois. Pertenceu à Maço­naria, tendo sido iniciado em 1909 na loja Fax, de Lisboa.
Ministros e Parlamentares da 1ª Republica - Guinote et al - Lisboa - 1991 - Assembleia da República

Alexandre Braga - Um Histórico com pouco peso

Em 4 de Janeiro de 1914, Raimundo Meira recebe escrita pelo punho por Alexandre Braga, com o timbre do Gabinete do Ministro do Interior, a notícia da sua substituição no cargo de Governador Civil de Viana do Castelo.

Exmo. Sr. e prezado correligionário

Tenho a honra de lhe apresentar o Exmo. Sr. Francisco Coelho do Amaral Reis (Pedralva), que é, como Vexa sabe já, pelas informações dos nossos amigos Sá Cardoso e Ramos Pereira, o novo Governador Civil de Viana do Caste-lo.
É claro que, não desejando eu que nada se faça, referentemente àquele distrito, sem que Vexa seja ouvido, como de direito lhe pedi e recommendei para conferenciar com Vexa, à sua passagem no Porto, sobre assuntos daquele distrito.
Vexa, com o seu elevado e intelligente critério, o elucidará de forma a facilitar-lhe o desempenho da delicada missão que vai desempenhar, e eu confiantemente conto, não só com as invulgares qualidades do meu apresentado, mas também com o valiosíssimo concurso que Vexa por certo lhe offerecerá, dando-lhe o seu inteligente e prudente conselho.
Antes de fazer a nomeação, eu quis como me cumpriria, ouvir Vexa. Não o fiz, porém, por saber que Vexa de tudo estava informado por intermédio dos nos-sos amigos, e por se haverem precipitado as cousas de forma a tornar urgente uma solução do assumpto. Estou seguro de que as primorosas qualidades do meu recommendado hão de fazer dele, desde já e para sempre, um dos bons amigos de Vexa, tão arreigada é a convicção que tenho de que os bons espiri-tos e as boas almas se entendem sempre e reciprocamente se estimam.
Quanto a não ter feito a Vexa o devido convite a aceitar o cargo, para que tive a honra de convidar o meu apresentado, creio que Vexa terá, como eu, por desnecessárias, quaisquer explicações, tanto certo é que Vexa, conhece, talvez melhor do que eu, as poderosas e imperativas razões absolutamente indispen-sável para bem da Republica, a sua permanência no lugar de responsabilidade e de honra em que se encontra,
Apesar de tudo, porém, eu quero que fique bem acentuado o motivo porque não podia, querendo bem servir a Republica, tirá-lo de uma situação em que a presença de Vexa é absolutamente indispensável, para quem pode vislumbrar no meu acto uma manobra de desprimor para com Vexa.
Aguardando como sempre, as ordens com que queira distinguir-me, sou, com toda a estima e consideração,

De Vexa, cordialmente e dedicado

ALEXANDRE BRAGA.


A substituição anunciada por Alexandre Braga não aconteceu, pois veremos a seguir as peripécias para a sua substituição. Raimundo Meira abandonaria o lugar de Governador-civil de Viana do Castelo em 23 de Março de 1914.
O vira-casaca Francisco Coelho Amaral dos Reis – Visconde de Pedralva, apenas seria nomeado Governador-civil em 30 de Dezembro de 1914. Lugar que ocupou durante apenas 31 dias.
Desconheço o motivo que levou Alexandre Braga a imiscuir-se na política do ministério do interior, pois o lugar foi sempre ocupado por Rodrigo Rodrigues.

Segunda-feira, Março 07, 2005

Em 30 de Dezembro de 1913, Simas Machado, recebe a seguinte carta de Alfredo de Magalhães, escrita já depois do falhanço do jornal “O rebate” em que se mostra particularmente zangado com a vida e sobretudo com a República.

Meu caro Simas

Sei que duas vezes em vão me bateu à minha porta. Eu que faço hoje o maior sacrifício em sair à rua, vivendo exclusivamente para os meus livros e que a minha sobrinha, logo havia, por fatalidade, de estar fora quando você me procurou! Desejava só o prazer de vê-lo, e olhe que poucos são os Portugueses que hoje não me repugnam, e de trocar impressões consigo sobre a marcha vertiginosa da República não sei para onde…
Amigo, e creia sempre na amizade séria e lealíssima.
Todo seu

ALFREDO MAGALHÃES.

Pequena Interrupção

Excesso de trabalho a nível profissional, e algumas cartas escritas com caligrafia de dificil leitura, obrigaram-me a uma pequena interrupção na publicação deste blogue.
Resolvidos esses contratempos, a publicação vai continuar

Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005

Resultados das Eleições*

Em 16 de Novembro de 1913 realizaram-se eleições legislativas para as vagas de 37 deputados, em 28 círculos, 397 038 eleitores recenseados, votaram apenas 150 000 votantes, o que corresponde a uma taxa de abstenção de 62.2%, conquistando os democráticos 34 desses lugares. Foi invocando este pretexto que os unionistas de Brito Camacho retiraram o apoio parlamentar que davam ao governo, com o argumento de tal já não ser necessário. Eleições autárquicas Em 30 de Novembro, nas eleições para os corpos administrativos, nova euforia vitoriosa dos afonsistas que conquistaram 205 das 291 vereações, constituídas exclusivamente por militantes democráticos. A oposição apenas conseguiu 68. Aliás, em Lisboa, os mesmos democráticos obtiveram 10 830 dos 15 346 votos apurados.

Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005

A Preparação das Eleições

A preparação do acto eleitoral foi bastante cuidada, uma vez os governos civis na mãos do Partido democrático e demitidos os administradores de concelhos que não inspiravam confiança, Afonso Costa apenas necessitou de gerir as ambições dos políticos locais para obter uma “vitória” esmagadora.
Em 12 de Novembro de 1913, Afonso Costa escreve a Raimundo Meira dando as últimas instruções para as eleições. A carta fala por si e dispensa quaisquer comentários.


Meu ilustre amigo

Escrevi ao Dr. Queiróz Vaz-Guedes alvitrando que dirija ele, em pessoa, supe-riormente, a eleição dos Arcos (de Valdevez), a fim de que não falte nas urnas nem um só dos votos dos nossos amigos, qualquer que seja o grupo em que se encontrem. Peço-lhe que dê indicações nesse sentido, com as devidas atenções, ao Sr. Administrador do Concelho, que certamente dará toda a consideração ao meu alvitre, unicamente determinado pelos interesses do Partido e pela necessidade de não perdermos, por causas meramente formais, nem um só dos nossos votos, Demais, estando ele a dois dias de ser o nosso Governador Civil em Angra, decerto quererá dar-me mais este testemunho de boa-vontade.
Quando fui ao Porto, tive as melhores notícias do seu Distrito. Parece que as eleições dos deputados nos dois círculos não serão duvidosas. Esse sucesso tem muita significação numa região do país, em que o governo, o partido e a sua obra anti-clerical tem sido tão atacada e volta-se em saudação para Vexa, como digno Magistrado do Distrito.
Peço-lhe que nos mande todos os informes úteis, não só desta eleição, mas das seguintes de 30, e acredite na minha consideração e amizade, como

De vexas
Correlegionário muito dedicado

Afonso Costa

Lisboa, 12 Nov. 1913

P.S: Tive muito prazer em renovar o empréstimo para Governo Civil, etc, desse distrito. Foi uma obra de justiça
.




Afastando as "pedras" do caminho

A ofensiva do Partido Democrático prosseguia. Raimundo Meira aproveitava qualquer ocasião para eliminar a oposição existente e colocar à frente dos municípios pessoas da sua confiança. Em 16 de Setembro de 1913 retira a confiança ao Administrador do concelho de Melgaço. Este apresenta a sua demissão passados 10 dias.

Exmo. Sr.

Tendo Vexa. Significado em seu ofício n.º 445 de 16 do corrente, que não lhe mereciam inteira confiança as minhas informações oficiais, acerca das obras da pesqueira a que o mesmo ofício se refere, e isto por não serem elas conformes com outras informações particulares, que sem fundamento de verdade foram dadas a Vexa, acerca do mesmo assunto; e não tendo querido Vexa. Aceitar a justificação do meu procedimento exposto no meu ofício n.º 144 de 20 do corrente, tanto que tal ofício me foi devolvido por ordem de Vexa., como consta do ofício emanado d’esse Governo Civil sob o n.º 461, assinado pelo oficial-chefe da 2ª repartição, no qual se diz que fui “incorrecto e inconveniente” para com Vexa., julgo do meu dever, por não poder continuar a merecer a Vexa. a necessária confiança no desempenho das minhas funções a meu cargo, pedir a minha demissão, depositando nas mãos de Vexa., o lugar de Administrador deste Concelho.

Saúde e Fraternidade
Administração do Concelho de Melgaço
O Administrador do Concelho

António Augusto Simão

As eleições de 1913*

A assembleia constituinte de 1911, que originalmente era destinada unicamente à elaboração e aprovação da nova constituição, manteve-se em funções e passou a uma assembleia legislativa, uma vez que os republicanos temiam perder o poder enquanto a sua rede de caciques não estivesse a operar no terreno. Entretanto, em 1912, procedeu-se à criação do Senado cujos membros foram todos eleitos por nomeação.
A 3 de Julho de 1913 e com o objectivo de legitimar a ditadura democrática, Afonso Costa publica a lei eleitoral para as eleições que se previstas para o seguinte mês de Novembro. Sobre esta lei diz Vasco Pulido Valente em “A República Velha (1910-1917), Págs. 42 e 43:
A 3 de Julho saia a nova lei eleitoral, que estabelecia os fundamentos jurídicos da ditadura democrática. […] Afonso Costa tirou, pura e simplesmente, o direito de voto aos analfabetos.
Em 5 de Outubro existiam cerca de 700 000 eleitores; em 1911, 850 000; em 1913 0 número baixou para cerca de 600 000, pouco mais que em 1871. (já tinham sido, 950 000 em 1890).
Esta drástica redução do país político deixava de fora, como antes, mais do que antes, o Portugal Monárquico e Católico, mas também eliminava o potencial eleitorado unionista e, sobretudo o evolucionista. A maior parte dos Portugueses que sabiam ler e escrever estavam nas cidades e preferiam Afonso Costa a António José de Almeida. As massas rurais não podiam agora votar contra a República e, assim o partido democrático justificava a sua exclusão. Só que não poderiam igualmente votar pelos moderados, que ficavam reduzidos a uma perpétua insignificância. Afonso Costa não reconhecia direitos a ninguém que não pertencesse à pequena nação radical. Quem fosse contra ela, ou contra ele, alienava a sua qualidade de humano. “Se quiserem fazer eleições com analfabetos”, berrava ele aos evolucionistas, “façam-nas os senhores, porque e quero fazê-las com votos conscientes […] Indivíduos que não conhecem os confins da sua paróquia, que não têm ideias nítidas e exactas de coisa nenhuma, nem de nenhuma pessoa, não devem ir à urna, para não dizer que foi com carneiros* que confirmamos a república” […]
A lei impunha tantas e tão complexas formalidades no recenseamento, que ele se tornava difícil sem a assistência de uma organização, ou seja de um partido. Um dos quesitos necessários para ser recenseado era possuir um atestado de residência, o qual só podia ser passado pelas comissões administrativas concelhias, e estas eram na sua quase totalidade Democráticas. Com este poder o partido democrático, o único que dispunha de uma presença efectiva em todo o país, pode mondar o eleitorado à sua vontade e muitos potenciais eleitores (220 000 em 600 000) não chegou sequer a recensear-se […]
*A Carneirada era constituída por cerca de 5 milhões de Portugueses, ou seja, mais de 80% da população.

Terça-feira, Fevereiro 15, 2005

Uma “confraria” Republicana (II)

Qual seria então o grande interesse que a alteração dos estatutos desta confraria despertava em Bernardo Chougas. Em Dezembro, Afonso Viana, médico municipal explica o resultado da alteração dos estatutos numa carta a Raimundo Meira.

Coura, 13-12-1913

Meu estimado amigo

Os trabalhos eleitorais, muito absorventes não deixaram-me tratar dos assuntos de interesse particular, por isso não acusei nem agradeci a carta de Vexa de 7 do passado.
A Confraria do Espírito Santo modificou os seus estatutos na parte referente à questão do médico. Esse projecto de modificação já deu entrada no Governo-Civil.
Na minha carta procurei demonstrar a Vexa. que a Confraria, ou antes, o seu prior. Não tinha em vista beneficiar o concelho, mas servia-se desse truc (assim no original) para me atingir apoiando-se nos meus próprios correligionários.
Há nesta questão as manhas de padre que a mim já não conseguem apanhar desprevenido. O concelho não fica beneficiado, fica exactamente nas mesmas circunstâncias e eu prejudicado nos meus legítimos interesses.
No acréscimo feito os estatutos era que a ideia está de harmonia com a gramática empregada, lá está: - “
dar da beneficência da confraria uma determinada quantia ao hospital da misericórdia para a sustentação de um partido médico com a condição de serem tratados gratuitamente os pobres da confraria”.- É aqui que está o número. Que pobres são estes? São os do Conselho administrativo, aqueles que eu, como médico municipal sou obrigado a tratar gratuitamente? Não são. São os pobres que a confraria entender, porque é ela que há de atestar sem responsabilidades legais, e assim pode atestar que os irmãos são na sua maioria pobres. Fica pois uma manifesta desigualdade entre mim e outros colegas, porque à sua clínica concorrerão todos, sabendo que não pagarão honorários, quando os podem pagar; basta munirem-se de um atestado do Sr. Prior.
Diz-me Vexa. que não devia estorvar o que a confraria dizia ser útil para a sua terra.
Há um reparo a fazer: se a confraria criar um lugar de médico privativo para os seus irmãos, indistintamente, está no seu direito, mas sujeita às cláusulas especiais das associações de socorros mútuos. Da parceria com o hospital não o pode fazer, porque o hospital tem nos seus estatutos a obrigação absolutamente legal de ter um médico seu para tratar dos pobres do concelho hospitalizados ou de quem se socorra dessa casa, mas que a título de médico do hospital tenha a obrigação de tratar cá fora doentes pobres seja a que confraria for, é que não pode ser, é cláusula que não pode ser incluída nas condições do concurso.
Já tive a ocasião de dizer a V. Exa. que não estou contra a criação de outro partido médico, podia até auxiliar esses desejos, mas médico que fique na sua clínica nas mesmas circunstâncias que eu, para se evitar desavenças entre colegas, que é muito feio. Cria a Câmara outro partido médico com a condição particular de ser esse médico também do hospital, ficaria o caso resolvido.
Enfim, para mim esta questão tem já uma medíocre importância, pois resolvi na primeira oportunidade sair daqui, o que faço com pesar porque certamente deixo o meu distrito, afastando-me da minha querida Viana. A oportunidade parece-me ser já, porque vai ser posto a concurso o lugar de médico da penitenciária de Coimbra e eu vou concorrer, e, até pedia que empregasse os seus bons ofícios junto do Sr. Ministro da Justiça para o meu provimento. Se escapar esta oportunidade outra aparecerá, porque eu estou com a firme resolução de me retirar.

De Vexa. Afectuosamente

Afonso Viana


Não posso garantir que o autor da carta anterior, Bernardo Chougas, fosse o padre que Afonso Viana nomeia nesta sua carta, mas uma coisa é certa, uma pequena minoria de padres acolheu com bom grado as novas determinações governamentais, tendo por isso recebido recompensas e apoios do governo central.

Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005

Uma “confraria” Republicana (I)

Com a Republica assiste-se à perseguição dos religiosos e ao assalto dos bens da Igreja. As confrarias religiosas também foram objecto de intervenção pelo que uma das funções dos Governadores-civis era a de as colocar ao serviço da causa republicana. Em 28 de Outubro, Bernardino Chougas de Paredes de Coura escreve a Raimundo Meira.

Paredes de Coura 28-X-1913

Meu caro Raimundo Meira

Esperava ir aí pessoalmente agradecer-te a honra inestimável de desceres à … (Ilegível) da Santa para me dares a prazer duma visita - a ti e ao Ramos Pereira.
A contrariedade sentida por te não receber na minha humilde choupana, eu a experimentei deveras. E de resto, fica-o sabendo, quando precisares de me falar, intima-me que eu logo apareço. Porém o mau tempo da natureza e o "mau tempo" que fez durante um pouco a política”, não consentem muitas viagens.
Agradeço-te imenso a aprovação do orçamento da Confraria do Espírito Santo. Mas... o favor não está completo e graves transtornos causará se ele não se ultime depressa.
Aprovados ou rejeitados queria que me enviasses os estatutos da mesma confraria, indicando-me, sendo reprovados as alterações que neles é necessário fazer.
Provavelmente nem tu sabes de tais estatutos. Mas se os dizeres que correm, se deve algum crédito, eles encontram-se na gaveta dum funcionário do Governo-Civil, grande devoto da confraria, que si verá est fama, lhe tem oferecido alguns milhares de escudos para os seus estatutos serem reformados e aprovados. Mas isto não é negócio para cartas, embora te deva merecer alguns cuidados, afim que todos digam que o governo-civil está à altura do valor e carácter do governador-civil. Capacidade e honestidade tens tu, e ainda bem para nós todos; e hás de fazer que os outros a tenham.
Mas.... Desencanta-me os estatutos da confraria do espírito santo e manda-mos com a possível urgência e as indicações pedidas.

Um abraço cordial

Bernardo Chougas


Amanhã veremos qual o resultado deste insodável interesse na alteração dos estatutos da Confraria.

Sábado, Fevereiro 12, 2005

Um Jornal em Bolandas (II)

Simas Machado, candidato pelo recém-formado Partido Republicano Evolucionista de António José de Almeida, recebe uma missiva de Alfredo Magalhães, em que este lhe comunica ter recebido a notícia da sua candidatura e conti-nua a queixar-se das finanças do seu Jornal.

Meu caro Simas Machado:

Esta tarde soube pelo telefone da sua resolução, que logo afixei no nosso placard. Telegrafei a saudá-lo, e reitero aqui as minhas saudações, porque exemplos de integridade moral como o que você deu, são já absolutamente raros. Que esgotamento da sociedade portuguesa! Como é que isto se mantém de pé?
Foi aí Reis Santos, que deve regressar logo, e creio eu que nada lhe fizeram Você e o Pimenta. Que diabo! De tal modo está isso aí que não é possível levantar-se três ou quatro centenas de mil reis? Vamos ter dinheiro dentro de poucos dias, que não posso precisar com tanto rigor, e não me resta dúvida que o jornal vinga. Tenho os melhores indicadores de que estou batendo car-tas. Nós estamos atravessando um momento de crise quasi angustiosa. Se vocês nos pudessem valer! Em todo o caso. Só pelo telégrafo hoje, em vale, teria recebido a solução. É hoje o dia crítico, depois começamos a receber produto do jornal e acções já distribuídas da empresa vinte contos.

Alfredo Magalhães

Sexta-feira, Fevereiro 11, 2005

Um Jornal em Bolandas (I)

Enquanto Raimundo Meira implantava o poder de Afonso Costa no Alto-Minho, Simas Machado, Presidente do Congresso recebia novidades da aventura jornalística de Alfredo de Magalhães, que lutava com todas as suas forças pelo êxito de "O Rebate". Este No final do mês de Agosto escreve a Simas Machado

Meu caro Simas Machado

Escrevo-lhe a toda a pressa. Nunca recebi a sua carta que o Pimenta me disse ter, por esquecimento, deixado no Porto.
Peço-lhe um grande favor, cuja resposta tem de ser indicada telegraficamente. Queria que nos obtivesse já trezentos mil reis pelo menos, pois quatrocentos é que nos faziam grande arranjo, por um mês apenas. Estamos a começar a nossa cobrança e ainda não recebemos dinheiro de Africa, que deve estar a romper ali.
Amanhã, Sábado, termina o nosso primeiro mês, é o dia mais difícil, depois tudo entrará na normalidade. Temos de fazer pagamento, impossível faltar a ele. Você juntamente com o Adriano Pimenta não pode levantar pequeníssima questão no Banco Comercial. Asseguro que entraremos com ela no final de Setembro.
A dificuldade única é esta e neste momento, creia que lhe falo com toda a verdade.
Estamos vendendo bem, recebemos aplausos, incitamentos, daí este pequeno apoio.
Quer saber uma novidade? Afonso era, não sei se é ainda, director da Companhia Agrícola do Príncipe, e como director enviou um telegrama ao pessoal da Companhia, recomendando que votasse no Teixeira de Sousa! Foi nas últimas eleições da monarquia. Que me diz você?
Não tenho tempo para mais.
É indispensável que o telegrama com o vale dos trezentos mil reis chegue aqui hoje, Sábado, o mais cedo possível. Preste-nos este serviço!

Alfredo


"O Rebate", localizava-se em São Pedro de Alcântara, em frente ao Elevador da Glória e entre os seus colaboradores encontrava-se o Poeta Mário de Sá Carneiro.

Ordens do Ministro

As questões relativas ao Alto-Minho eram levadas a despacho com o Ministro do Interior. Este respondeu em 3 de Setembro de 1913 a uma série de pedidos de Raimundo Meira.


Meu Exmo. Amigo

Acuso recepção da carta de dia 30.

Sobre a Câmara de Coura havia umas dúvidas e uma falta de formalidades que mandei preencher. Não esquecerá.
Enquanto à transferência de verbas destinadas às estradas diz-me o Ministro do Fomento que é ilegal e agora avisou-me pelo telefone que já fez saber as razões disso ao Afonso Costa.
A Guarda (Cavª) irá logo que recolham os oficiais das escolas. Tenho infor-mações que só então será talvez precisa.
Armas, é impossível obtê-las …. Em tempo de paz.
O nosso Bastos* defende-se que as não tem e que só em ocasião de perigo isso se obteria.
É indispensável estar de vista sobre os reaccionários. O meu último telegrama resultou de alguns Governadores-civis terem mandado executar imediatamente as ordens que receberam para a eventualidade provável e que talvez seja próxima.
É bom estar avisado para a ocasião oportuna.
Sobre a Escola Normal vou chamar a atenção do Ministro da Instrução. Este tem estado doente.

3 Setembro de 1913

Rodrigo Rodrigues


* Pereira Bastos – Ministro da Guerra

NOTA: o pedido de armas, não se destinava a qualquer unidade militar, tal não era da competência do Governo-Civil, destinava-se sim a armar milícias republicanas para esta perseguirem os oposicionistas ao Partido Democrático.

Quarta-feira, Fevereiro 09, 2005

Narciso - Um cacique da 1ª Republica

Em 12 de Agosto de 1913, um despeitado Narciso Faria de Lima, líder do Centro Democrático dos Arcos de Valdevez, escreve esta longa missiva ao Governador-Civil.

Arcos de Valdevez, 12 de Agosto de 1913

Exmo. Sr. Raimundo Meira

Cumprimento Vexa e desejo um completo restabelecimento de saúde à esposa de Vexa para quem peço meus respeitos.
Exmo. Sr.
É tempo de se liquidar esta questão política dos Arcos, para bem do Partido que Vexa tão dignamente representa.
Acho extraordinária a indecisão de Vexa entre a nossa família, que por assim dizer é uma única neste concelho e um indivíduo estranho a este concelho e financeiramente liquidado.
Vexa, fiel servidor da República e da Pátria com o seu lugar distinto oficial do exército.
Vexa, filho de Viana e quem diz Viana, diz Arcos de Valdevez.
Vexa, que conhece toda a minha família e o grande valor político que essa família tinha.
Vexa que pode avaliar a independência dessa família, base principal para resolver muitas questões e prestar grandes serviços.
Vexa que na minha pessoa e de alguns amigos pode conseguir um núcleo de leais partidários, porque creia bem Vexa, nós nada queremos da República, mas sim que essa República seja servida por verdadeiros republicanos, homens honestos e honrosos.
Estamos e estaremos incondicionalmente ao lado de Vexa, mas para isso é necessário que Vexa se decida e dê o seu apoio a quem desinteressadamente servirá a República.
Caso esse apoio não possa ser concedido por Vexa, se Vexa tem dúvida nas nossas afirmações, então para quê demorar mais tempo esta ridícula situação.
Valiosos elementos estão actualmente connosco, são eles os Srs:
António José Barbosa, Brasileiro – Capitalista;
Manuel Pereira Rodrigues – Abastado proprietário;
Gaspar Pereira Pimenta de Castro da Casa da Senra;
Lima – Morgado de Senharei;
Dantas – Proprietário da freguesia de São Tomé da Águia.
Todos estes cidadãos reprovam a orientação política do M. Guimarães e esperam com ansiedade a decisão de Vexa e francamente se Vexa deseja o que tenho dito nas minhas anteriores e que sem mais preâmbulos a destituição imediata do actual administrador e a nomeação até Vexa nomear outro administrador exerça esse lugar, o actual Vice-presidente da câmara, o que é de lei.

Nós numa reunião no Centro Democrático declaramos positivamente que não transigimos com o M. Guimarães e Cia, firma politica de arranjistas organizada nos Arcos. Essa firma até agora tem sabido libertar-se de quanto o Governador-Civil tem aparecido em Viana e infelizmente até agora eles contam com o apoio de Vexa e a prova está que Vexa continua a o conservar na administração deste concelho um dos sócios de tal firma.
Porque Vexa dá o seu apoio a um indivíduo que está com dois processos às costas. Acaso aqui em Arcos de Valdevez não existem republicanos dignos e honrados que possam ocupar um lugar de confiança do Governo.
Parece impossível tendo Vexa um carácter austero, distinto militar do exército português, leal defensor da república, vacile em dar o seu apoio aquém nenhum sacrifício pede à nação. A quem leal e honradamente defende a República e Vexa sugestionado por uma firma de arranjistas que o querem é comer, acreditando nas falsas afirmações deles que vão dizer a Vexa que eles têm o apoio dos chefes monárquicos, que tem os párocos da freguesias e outras tantas mentiras e com essas mentiras eles continuam a merecer a confiança e Vexa e amanhã se for preciso que a tal firma faça um sacrifício pela republica, Vexa os encontrará no campo oposto. A questão é de uma boa talhada.
Enfim, já disse francamente o que tinha a dizer a Vexa e falo pela boca dos meus correligionários sócios do centro Democrático.
Não entramos em acordos políticos com a firma Guimarães e Cia por principio nenhum.
Nós desejamos que seja administrador do concelho o actual Vice-Presidente da Câmara e que entre já em exercício e mais tarde Vexa resolverá.
Nós não concordamos com a nomeação de um administrador de fora, por ser prejudicial nesta ocasião ao Partido Democrático, cujo Partido só nós podemos organizar, pois aqui não há organização partidária e garanto-lhe a Vexa que nem haverá se Vexa não tiver em consideração as nossas afirmações.
Cá da nossa parte garantimos a Vexa uma vitória do Partido Democrático, porque somos cidadãos livres e independentes e com a melhor vontade sacrificaremos alguns dos nossos interesses para o valor da nossa palavra.
Estou às ordens de Vexa, e desejava em nome do Grupo Democrático uma decisão de Vexa.
Com esta é a terceira carta e a nenhuma Vexa se dignou a dar-me resposta.
O meu sogro, M. Barreiros, na organização do Partido será o Presidente da Assembleia-Geral e da Comissão política, e os partidários nossos amigos estão resolvidos a nomear Vexa, Patrono do Centro.
Esperamos muito receber resposta de Vexa, sendo-nos impossível permanecer nesta incerteza.
De Vexa, com estima e consideração

Narciso Faria de Lima


Domingo, Fevereiro 06, 2005

Viana

Em Viana do Castelo, a vida decorria dentro da “normalidade” Republicana, e com o aproximar das primeiras eleições pluripartidárias, começam as lutas intestinas pelo poder local. È tempo de entrarem em cena os “Caciques”.

Viana do Castelo - Ponte Eiffel - Postal do início do Séc XX

Raimundo Meira, como Governador Civil, era a peça central do esquema “Democrático” de domínio do poder. Dentro das suas competências encontrava-se a organização da actividade política do PRP no Alto-Minho.
Para além de ter de combater todos os que não pertenciam à facção de Afonso Costa, o Governador-Civil mais do que o representante do governo, era o líder do partido a que pertencia na sua região, tendo por isso que gerir as lutas intestinas pelo poder, dentro do próprio Partido Democrático.
Durante a 1ª Republica as lutas pelo poder dentro do Partido Democrático nos Arcos de Valdevez, obrigarão mesmo à intervenção pessoal de Afonso Costa.

Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005

Purgas

Em 8 de Agosto, Raimundo Meira recebe, em Viana do Castelo, o Ofício confidencial n.º 67, proveniente da 2ª Repartição do comando da 5ª Divisão do Exército.


Exmo. Senhor

Tendo-se procedido neste comando por ordem da secretaria de guerra a averiguações acerca da atitude tomada pelo Senhor Tenente-Coronel do regimento de infantaria 23, José da Silva Bandeira, por ocasião dos acontecimentos motivados pelo desdobramento da faculdade de direito e, constando do depoimento de Senhor Capitão Paul, comandante das forças da Guarda Republicana que estiveram nesta cidade por essa ocasião, o que junto por cópia, rogo a Vexa que se digne dizer o que se lhe ofereça sobre este assunto e, sendo possível, indicando quaisquer indivíduos que também possam ser ouvidos, a fim de que as suas declarações concorram para eu poder formar um juízo seguro sobre o procedimento do referido oficial.

Saúde e fraternidade

Coimbra, 8 de Agosto de 1913

O Comandante da 5ª Divisão do Exército
Pereira de Campos



Capitão Paul - Provavelmente será a mesma pessoa que na fatídica tarde de 1 de Fevereiro de 1908, ainda Tenente da Guarda Municipal, escoltou a família real do Arsenal da Marinha para o Palácio das Necessidades conforme relata sua Magestade El-Rei D. Manuel II

Segunda-feira, Janeiro 31, 2005

Lançamento de um Jornal

Em 29 de Julho, Simas Machado recebe mais uma missiva do seu grande amigo, Alfredo de Magalhães, que nessa altura lutava com todas as suas forças, para lançar o Jornal “O Rebate”.

Meu caro Simas

Lemos a notícia com interesse e tiramos dela as devidas conclusões…
O jornal sairá Sexta-Feira à noite. O trabalho e as preocupações que ele me tem dado são inenarráveis. Vamos a ver a sorte dele. Saberia você daí dar-me uma mão? Luto desesperadamente para conseguirmos levantar este país, cuja situação está cada vez mais grave. Faço prodígios e sacrifícios que deixam a perder de vista os do Dr. Bernardo… e sinto que me esgoto por falta de cooperação.
Para lançar o Rebate ainda encontrei um amigo, um correligionário que me obtém um preço do dinheiro que não chega a nada, e c’est tout…
Se eu conseguisse levantar num banco ou num particular 2 contos de reis, o sucesso do jornal seria absolutamente assegurado. Tenho propriedades no Douro, que sacrificaria corajosamente, se fosse possível; mas não é… Meu pai deixou-as fortemente oneradas, derruídas. O meu dever é entregá-las aos credores para lhe honrar a memória.
O Ricardo Malheiros(1) muitas vezes me facilitou descontos no Banco Comercial desde que eu lhe desse a firma de um comerciante a garantir a minha; este recurso não o tenho hoje porque um ou dois nomes que serviriam para o efeito militam hoje em campos políticos adversos… Não poderia você arrancar ao Ricardo um favor desta ordem?
Agora vou tratar de organizar a empresa do jornal por acções de dez mil reis. Terá a possibilidade V. de passar algumas por amigos na província? Também nos interessa muito angariar boa assinatura. È outra maneira de assegurar a vida da gazeta. Portanto, meu caro Simas, com a orientação que vamos imprimir no Rebate, vamos abrir uma brecha em tudo isto, e brecha funda, a questão é a de dispormos carvão para aquecer a fornalha.
Não tenho dúvidas que lhe falta a você fé, porque a minha é inesgotável, e no dia em que ela me abandonar, porque é ainda a única razão da minha vida, acabarão os meus tormentos.
A ”Luta”(2) atravessa uma crise fatal. Jantou comigo o administrador há dois dias e disse-me que tentavam de liquidar tudo, até pediu-me para ficarmos com algum material. Em todo o caso move-lhe todo o interesse para salvar o barco, isto é, salvar-se…
Recebi pelo Pimenta(3), o seu aviso amigo acerca de eleições, mas não tentarei, pois enquanto o jornal estiver de choco completamente. É uma questão de dias.
E para rematar: Ajude-me se pode e como quiser. A vitória será nossa; A situação é cada vez mais precária. É impossível
Um Abraço

Alfredo

(1) – Era padrinho de casamento de Victória Machado, filha do General;
(2) – Jornal de Brito Camacho, líder da União Republicana
(3) – Adriano Pimenta, governador-civil de Viana do Castelo, Ministro, deputado e Senador, manterá correspondência com Simas Machado até à morte deste.

Domingo, Janeiro 30, 2005

Floro Henriques

Comandante das forças de Coimbra em 1913, era um importante maçon, em 1914, obreiro da Loja Portugal, ao Vale de Coimbra e que pertenceu ao executivo do Congresso da Maçonaria Nacional realizado no Porto em Maio de 1914 (dias 19 a 23 de Junho), tendo no ano anterior (1913) estado presente como conferencista no Congresso Nacional Maçónico.

Ecos de Coimbra

A 27 de Julho, Raimundo Meira recebe esta missiva proveniente da Administração do Concelho de Coimbra e assinada por Marcos Martins


Meu excelentíssimo Amigo

Recebi as duas cartas de Vexa. Lastimo que os homens de Lisboa não hajam tido o talento para o conservar durante mais algum tempo em Coimbra.
Temos trabalhado por desfazer entre os correligionários a má impressão que os últimos acontecimentos deixaram, mas afinal com pouco proveito.
Vejo-me isolado. No entanto não desanimo. Já estive com o Doutor Luciano, mas nem quer ouvir falar de política. Quando abordo o assunto, desvia-se imediatamente da conversa.
Dizem que vem para cá o Pereira Rosa. Oxalá não venha a liquidar, como a outros tem sucedido. Os jornais da terra têm-se referido a Vexa com uma ou outra frase, procurando fazer espírito, mais nada.
Dizem também que vão mandar para cá um Comissário de Polícia sem darem qualquer coisa ao Floro Henriques. É um mal que trás consequências nefastas. Primeiro deviam dar-lhe uma satisfação. Estou a ver que é outro carrapata … e eu não os aturo por muito tempo! Estou farto.
Não me tem sido possível arranjar os nomes inteiros das pessoas a quem Vexa deverá agradecer cumprimentos. Amanhã mandarei a lista completa. Não diga que sou descuidado?! Faltam-me elementos! Demais, os homens não esperam por isso, segundo o que a alguns tenho ouvido.
E por hoje basta. No entanto, eu quero dizer a Vexa que não esquecerei todas as deferências que teve comigo durante a sua estada em Coimbra e que pode contar comigo como amigo dedicado.

Marcos Martins


Não foi possível saber quem era Marcos Martins, nem que lugar ocupou durante este período.

Regresso à normalidade

No dia 15 de Julho é nomeada pelo governo a nova Comissão administrativa do Concelho de Coimbra, presidida por Falcão Ribeiro.
Uma vez restabelecida a normalidade em Coimbra, Raimundo Enes Meira abandona Coimbra, em 16 de Julho, voltando a reassumir o cargo de Governador Civil de Viana do Castelo. A actuação de Raimundo Meira em Coimbra, mereceu por parte de figuras Republicanas do Distrito uma homenagem na forma de um Pic-nic na Quinta de São Marcos.

Quarta-feira, Janeiro 26, 2005

Luis Inocêncio Ramos Pereira (1870-1938)

Nasceu em 18 de Setembro de 1870 no Porto, filho de José Bento Ramos Pereira e Maria Gertrudes da Silva Pereira.
Formou-se na Escola Médico-Cirúrgica do Porto em 1897 com a tese "A cocaína na cirurgia".
Foi médico municipal em Coimbra, inspector da Procuradoria Central de Lisboa e inspector e prove­dor da Assistência de Lisboa.
Militante do Partido Republicano Português, era Presidente da Comissão Municipal de Caminha deste partido na época do Ulti­mato britânico. A partir de Novembro de 1910 exerceu as funções de adminis­trador, por parte do governo, junto da Companhia do Niassa. Foi eleito depu­tado à Assembleia Constituinte (1911) e senador em todas as legislaturas (à excepção da de 1918), pelo círculo de Viana do Castelo, nas listas do Partido Republicano Português.
Morreu em Lisboa a 22 de Julho de 1938.
Ministros e Parlamentares da 1ª Republica - Guinote et al - Lisboa - 1991 - Assembleia da República

Sábado, Janeiro 22, 2005

Assuntos Minhotos

O facto de ter sido nomeado Delegado especial do Governo em Coimbra, Raimundo Meira não abandonou os assuntos do Distrito de Viana e nesse mesmo dia escreve a Luís Ramos Pereira, sobre uma notícia publicada no Diário de Noticias, relativa a uma sindicância à Escola Normal de Viana do Castelo.



Meu Caro Ramos Pereira

Acabo de ler no Diário de Notícias a notícia que vai ligada a esta carta. Devo-te informar lealmente que se a notícia é verdadeira, logo que chegue a Lisboa (espero que isso aconteça na 2ª Feira) peço a demissão de Governador Civil de Viana.
Castigue-se quem o mereça, mas não há de ser com o meu consentimento que se hão de proteger patifes e inimigos da República.
Positivamente não sirvo para essa política.
A sindicância deve abranger todos e não pode parar porque eu não quero sujar-me nessa porcaria. Devo também dizer que hei-de tornar público o motivo da minha demissão.


A Resposta de Ramos Pereira foi rápida, tendo escrito a Raimundo Meira logo no dia seguinte, 11 de Julho de 1913


Meu caro Meira

Recebi a tua carta de ontem à qual vou responder.
Vi a jornal a que te referes e tenho a dizer-te o que já aqui te disse.
Não me importo nada que a sindicância continue, pois ela só fará sobressair os professores com quem mandou o Lagido e o Alves de Sousa.
As sindicâncias têm sempre um grande lado moral e não serei eu que contrarie os teus pontos negros.
Parece-me isto, assunto liquidado mesmo porque do Diário de Noticias não quer dizer que não se fará, ou antes não continuará, pois segundo me disse hoje o Alfredo Pinto, foi somente para não dar a demissão ao Lopes d’Oliveira que várias vezes pediu ao Ministro por causa da do liceu.
Confirmo o meu telegrama e já pedi audiência ao Presidente para lhe fazer o pedido.
Tenho muito poucas ocasiões de falar contigo, pelo que peço que me digas o dia e as horas certas da tua chegada.
De Valença, o presidente da comissão administrativa da Câmara devolveu a ordem para receber os 50$00 escudos, dizendo em ofício nada ter pedido. É um assunto que necessitamos de ver.
Estou ansioso que voltes para Viana onde fazes imensa falta.

Manda sempre
Teu
Luís Ramos Pereira

Não consegui obter mais informações sobre os motivos da sindicância

Quarta-feira, Janeiro 19, 2005

O fim da Greve

O braço de ferro continuou durante mais 4 dias. No próprio dia 5, Raimundo Meira manda distribuir editais, com as informações constantes do telegrama, que são imediatamente rasgados, tal como noticia o Diário de Noticias na sua edição de 6 de Julho de 1913:
Apareceram rasgados os editais do Governo Civil participando não ser verdade que seja extinta a faculdade de Direito em Coimbra, pois que tudo continuará até aqui
No dia anterior, o Jornal “O Mundo” (Porta-voz do Partido Democrático) publicava uma carta de Afonso Costa, Presidente do Conselho, em que este desmentia a promessa de não criar a faculdade de Direito de Lisboa.
"O Sr. Afonso Costa limitou-se a explicar as razões que determinavam que os exames de Direito se fizessem em Lisboa e afirmou que não desdobraria a Faculdade de Direito como consequência dos acontecimentos de Coimbra. O Sr. Afonso Costa, com efeito, não desdobrou a Faculdade de Direito. E o Sr. Rodrigo Rodrigues, que, como Ministro do Interior, apresentou uma proposta criando a Faculdade de Direito de Lisboa, não o fez por motivo dos acontecimentos de Maio. A criação da faculdade de Direito era um velho compromisso dos republicanos, e que o Sr. Dr. Afonso Costa, quando ministro do governo provisório, afirmou de maneira clara aos representantes de Coimbra que, por sua parte, não mudara de ideias."

No dia 9 de Julho, a comissão de resistência desconvocou a greve, sem que o governo tenha cedido às suas reivindicações, apesar deste ter feito uma promessa, muito vaga, de “melhoramentos”.
No dia seguinte, Raimundo Meira escreve a seguinte carta a destinatário desconhecido, provavelmente o Ministro do Interior, Rodrigo Rodrigues.

Como disse no meu telegrama de hoje, a cidade voltou completamente à nor-malidade. Operários e comerciantes estão já cansados e os segundos com enormes prejuízos. Se não andassem exploradores políticos envolvidos no movimento, isto devia ter terminado na Segunda-Feira.
Creio ter seguido rigorosamente as instruções que recebi de Vexa.
Fui procurado por diversas comissões e indivíduos dizendo-lhes em resumo o seguinte:
1.º- Que o governo não suspendia a lei que criava a faculdade de direito.
2.º Que o governo tinha em harmonia com os interesses gerais do país, resol-vido tomar um certo número de medidas, algumas das quais beneficiaram altamente Coimbra. Que isto estava já resolvido anteriormente à criação da faculdade em Lisboa e que por certo o governo prosseguiria no plano traçado uma vez terminado o estado anormal de Coimbra. Que enquanto durasse este estado, nada se podia tratar e que o governo também não tratava com entida-des estranhas à cidade de Coimbra.
Nunca lhes disse o que o governo tencionava fazer.
A moção aprovada no comício de ontem termina dizendo que a cidade retoma-va o trabalho, que não pede compensações por julgar que coisa alguma a pode compensar dos prejuízos sofridos e resolve nomear uma comissão para tratar da defesa da Universidade. É como Vexa vê, um pouco diferente da que ontem telegrafei.
Estou convencido que já não haverá alterações da ordem. Em todo o caso parece-me conveniente conservar aqui a Guarda Republicana até à posse da comissão municipal administrativa, cuja lista dos nomes enviei hoje pelo cor-reio. Há conveniência que fosse publicada o mais brevemente possível no Diá-rio do Governo. Nas comissões de resistência e donativos, figuram diversos empregados públicos, mas parecia-me conveniente para isto se apaziguar por completo não tomar conhecimento disso. V. Exa. dirá como devo proceder.
A Câmara Municipal é que tem responsabilidades graves, porque para além de ter mandado pôr a Bandeira Nacional a meia-haste, consentiu na paraliza-ção dos serviços eléctricos e outros serviços municipalizados. Creio mesmo que foi a câmara que mandou parar esses serviços causando assim grandes prejuízos à fazenda da própria câmara. Uma sindicância é talvez a única maneira de apurar essas responsabilidades.
Enfim para isto sossegar o mais brevemente possível e até por conveniência política parecia-me que:
1.º - A nova comissão administrativa deve tomar posse, o mais brevemente possível;
2.º - Esquecer tudo o que se tem passado com excepção dos actos praticados pela câmara.

Como a ordem já está completamente restabelecida era conveniente que fosse nomeado já o novo Governador-Civil porque tem muito que fazer no que diz respeito à política do Distrito, sendo vantajoso que não entrasse, por agora, em exercício o substituto, dada a situação em que se encontra.

Segunda-feira, Janeiro 17, 2005

Rodrigo José Rodrigues (1879-1963)

Nasceu em Britelo (Celorico de Basto), em 1879. Concluído o curso liceal em Lamego, ingressou, em Lisboa, na Escola Médico-Cirúrgica, alcançando o bacharelato em Medicina (1902).
Tendo seguido a carreira de oficial do Exército, foi médico militar do Quadro Colonial, com ser­viços prestados em Cabo Verde (1903) e na India (1904-1910).
Desempenhou também os cargos de reitor do Liceu de Goa e de professor da Escola Médica local, de director penitenciário (a partir de 1910), de membro do Conselho Colonial (1912-1919), de administrador e director das prisões (1919), e de ins­pector das Escolas Primárias Superiores (até 1926). No domínio político, man­teve sempre a filiação no Partido Republicano Português. Membro da Liga Académica Republicana, viria a ser governador civil de Aveiro (1911) e do Porto (1911), e deputado por esta cidade (1913), antes de sobraçar a pasta do Interior entre 9 de Janeiro de 1913 e 9 de Fevereiro de 1914. Terminada a sua actividade governamental, regressou à Câmara dos Deputados em representa­ção de Lisboa (1915, 1921 e 1922). Preso em 1918, viria ainda a ser governador de Macau, nos anos de 1922 a 1924, e secretário da delegação portuguesa à Sociedade das Nações, entre 1925 e 1926/27. Demitido do serviço pela Dita­dura Militar, passou à reforma como capitão-médico. Foi autor de vasta biblio­grafia. Morreu em Oliveira de Azeméis, a 19 de Janeiro de 1963.Era membro influente da Família Rodrigues, chamada também de Casa-Civil de Afonso Costa, irmão de Daniel Rodrigues e de Urbano Rodrigues.
Ministros e Parlamentares da 1ª Republica - Guinote et al - Lisboa - 1991 - Assembleia da República

Sábado, Janeiro 15, 2005

Ordens Telegráficas

A 5 de Julho de 1913, Raimundo Meira recebe as seguintes ordens telegráficas, enviadas pelo Ministro do Interior, Rodrigo Rodrigues em resposta a um telegrama seu, em que informava o ministro da reunião tida com a comissão de resistência no passado dia 3, com o objectivo de clarificar a posição governamental relativamente ao futuro da Universidade.

Do telegrama de vexa referente as indicações feitas pelo presidente da comissão distrital, concluo que nessa cidade se não conhece termos em que foi creado o curso jurídico aqui, não sofrerá em nada a universidade e faculdade de direito ahí, que continua integralmente com seu regulamento pessoal etc. sem a menor alteração de facto, não há desdobramento como falsamente se disse.Conveniente fazer disto conhecimento público para impedir especulação e situação fica a mesma da faculdade de medicina. Ministro interior,


Sexta-feira, Janeiro 14, 2005

Coimbra Unida (2ª Parte)

No dia 4 de Julho (Sexta-Feira) continuava o braço de ferro. Em face da recusa em recomeçar o serviço dos eléctricos, Raimundo Meira chama ao Governo-Civil todos os empregados, onde lhes foi novamente ordenado, em vão, que voltassem ao trabalho. Mesmo perante a ameaça de sanções legais (suspensão durante 6 meses) mantêm a recusa.
As cooperativas de consumo dos empregados públicos são abertas à força pela GNR e mantidas sob a sua vigilância.
Na sua edição de 5 de Julho, o Diário de Noticias, aborda a “Questão de Coimbra” é Abordada em editorial.

[...]Queixam-se os Conimbricences de que inesperadamente, e quando, em seguida a conflitos de que só lhe provieram prejuízos e desgostos. Aliás facilmente sanáveis, esperavem por parte do governo resoluções compensadoras , o parlamento lhes agravou a situação, votando de afogadilho, sem ponderação nem estudo, o desdobramento da faculdade de Direito da sua Universidade. E nesta parte, até mesmo aos que entenderam que o ensino de qualquer disciplinas não deve constituir monopólio de qualquer escola, por muito respeitável que esta seja, merece reparo e censura a forma como decorreu a apresentação da discussão (se discussão pode dizer-se que houve naquele tumultuoso levantar de sessão)* da proposta ministerial referente ao aludido desdobramento que, segundo entendem os reclamantes virá a afectar os interesses de Coimbra e os brios da sua Universidade tantas vezes secular.[...]
[...] Urgente nos parece pois, que, por forma que não se firam os interesses legitimos, nem os brios respeitáveis da formississima cidade do Mondego, à qual tantos milhares de corações de novos e de velhos bachareis se prendem por laços de inextinguível saudade, se encontre uma solução imediata e honrosa para o conflito. Nem aconselhamos a Coimbra que seja intransigente, porque também não concordamos com alguns dos meios de que lançou mão para afirmar o seu protesto e evidenciar o seu desgosto, nem aplaudiremos que o governo deixe sem imediatas e insofismáveis compensações, os danos que o desdobramento da faculdade de Direito vai causar à Universidade e á terra que, por assim dizer consubstancia. [...]

* - Nessa mesma sessão, O Senador João de Freitas tentou assassinar Artur Costa (irmão de Afonso Costa). João de Freitas no meio de uma discussão sobre assuntos menos lícitos de uma compahia agricola de São Tomé e Principe, dirigida por Afonso Costa, empunhou uma pistola automática que apontou a Artur Costa. No ultimo momento foi detido por Miranda do Vale, que ficou ferido numa mão com o disparo efectuado.

Coimbra Unida (1ª Parte)

No dia 3 de Julho, a Comissão de Resistência conferencia com Raimundo Enes Meira, tendo pedido que este não mandasse as forças militares para a rua, de modo a evitar confrontos desnecessários, e sublinhou o carácter pacífico da greve.
No mesmo dia, Raimundo Meira dá ordem para que os eléctricos voltassem a operar, ordem que não foi acatada.Na realidade, segundo o que o Diário de Noticias escreve nesses dias, verificava-se em Coimbra um espirito de união e civismo, raro em Portugal, tanto nessa altura como hoje em dia. Noticiava o referido Jornal, na sua edição de 4 de Julho de 1913:
A cidade mantém um aspecto desolador desde Domingo. Os estabelecimentos comerciais e industriais todos fechados e obras paralisadas. Nos centros principais, como na praça 8 de Maio e suas proximidades permanece grande concurso de populares, mas todos na melhor ordem, sem o menor motivo para a intervenção da autoridade . Nunca se viu um movimento assim.
As padarias fornecem, cada uma, 8 Kg de pão por dia aos grevistas
Os negociantes de Sardinha oferecem todos os dias, cada um, um cabaz de Sardinha.
Foi feita hoje a inscrição dos operários que mais precisam de receber socorros.
Amanhã, no teatro Avenida, serão distribuídos ao operariado, arroz, bacalhau, azeite e petróleo.
A federação das associações e a União Geral dos Trabalhadores, pondo de parte desintelingências trabalham de comum acordo para o subsídio aos operários e demais trabalhadores em greve.Alguns soldados da GNR, têm ido às casas de pasto para comer, mas não o conseguem, em vista de estarem também em greve estas casas. Isto tem feito contrariar os militares.

Segunda-feira, Janeiro 10, 2005

Governo responde à greve geral

Em 21 de Junho de 1913, Raimundo Meira é nomeado Governador Civil de Viana do Castelo, e nessa qualidade desloca-se a Lisboa em 30 de Junho para conferenciar com o Ministro do Interior Rodrigo Rodrigues e com o Ministro do Fomento António Maria da Silva, de acordo com o Diário de Noticias de 01/07/1913.
O mesmo jornal publica em 1 de Julho a seguinte nota oficiosa emanada do Ministério do Interior:
Por ordem de Sr. ministro do interior, partem hoje de manhã para Coimbra, em comboio especial, 100 praças de infantaria e cavalaria da guarda republicana. O mesmo ministro submeteu ontem, à assinatura do Sr. Presidente da República, um decreto exonerando o Sr. João de Deus Ramos de Governador civil de Coimbra e um outro nomeando delegado especial do governo naquele distrito o capitão Raimundo Enes Meira, governador civil de Viana do Castelo.
O Sr. Capitão Meira parte hoje de manhã do Porto para Coimbra, onde se lhe juntará o Sr. Beja da Silva, comissário de Policia de Aveiro, em serviço no gabinete do Sr. Ministro do interior, e que hoje mesmo assumirá a administração do distrito de Coimbra.
O Governo, tendo conhecimento de que há exploradores no movimento de protesto que se vem praticando naquela cidade, deu ordens ao seu delegado especial para proceder rigorosamente contra eles. O governo também não permitirá que os estabelecimentos de venda de géneros alimentícios em Coimbra se mantenham por muito mais tempo fechados. Ainda outras medidas serão tomadas, para o restabelecer a normalidade naquela cidade.

Coimbra em Greve Geral

Em Junho e Julho de 1913, esteve à discussão no Congresso da República um projecto de lei da comissão do orçamento do ministério do interior, para a dissolução e encerramento da Universidade de Coimbra. Em 28 de Junho este projecto de Lei foi rejeitado, aparecendo no seu lugar o “desdobramento” da faculdade de direito, que não estava anteriormente previsto.
A reacção em Coimbra foi enorme, independentemente da rejeição da proposta de encerramento da Universidade, os comerciantes também viam no desdobramento o fim económico da cidade.
No dia 29 de Junho, a comissão distrital depõe o seu mandato ao Governador-Civil (João de Deus Ramos). Nesse mesmo dia, a Associação Comercial de Coimbra, reúne-se e vota por unanimidade o encerramento de todos os estabelecimentos comerciais e industriais da cidade.
No dia 30 de Junho a praça de Coimbra suspende todos os pagamentos.
No dia 1 de Julho a greve é geral e Coimbra está totalmente paralizada tal como noticia o Diário de Noticias de 3 de Julho de 1913:
A cidade mantém os seus estabelecimentos comerciais e industriais encerrados, tendo-se estendido a greve a outras classes que ainda ontem não se tinham declarado.
A associação de artes-gráficas resolveu não se deixar que se publicassem os jornais desta cidade e encerrar todas as tipografias. […] Está paralisado o serviço dos eléctricos, luta-se com a impossibilidade de obter meio de transporte, quer dentro da cidade, quer para viagem. […] Muitos operários da construção civil estão em greve; também o estão os das obras municipais excepto das águas e gás. […] Vêem-se muitas bandeiras a meia-haste. […] Foram hoje queimados, no Largo Miguel Bombarda muitos exemplares de um jornal de Lisboa afecto ao governo.

Sexta-feira, Janeiro 07, 2005

Olha o Boné!


De 24 a 28 de Maio de 1913, teve lugar o Roubo do boné! Ou o Olha o boné! Conflito que se travou, em 1º lugar, entre os estudantes e a polícia, depois entre os estudantes e os futricas e, finalmente, entre os estudantes e a Guarda Nacional Republicana.
Tudo começou quando a policia, às ordens do comissário Floro Henriques, agrediu académicos, que se defenderam, no Teatro Avenida, num espectáculo efectuado na noite de Sábado, 24 de Maio.
Na tarde de 28 de Maio veio a dar-se o acontecimento que havia de designar este grave conflito de Maio de 1913.
Sucedeu que o tenente que comandava a G.N.R. foi almoçar a um restaurante da Alta, deixando o boné da farda pendurado num bengaleiro. O estudante madeirense Sebastião Fernandes não esteve com meias medidas e, sub-repticiamente, apoderou-se do dito boné, conquista de que teve conhecimento imediato a Academia.
Foi o delírio! Por toda a noite do dia 28, e no da seguinte, Quinta-feira, os apupos e as troças dos estudantes à G.N.R. choveram por todos os lados. Os gritos de Olha o boné! Oh, Floro, dá o boné ao tenente! Dá cá o boné! Ecoaram por toda a cidade, para gáudio e vingança dos estudantes.
Na Quinta, 29 todos os estudantes presos foram enviados ao tribunal e após terem sido lavrados termos de identificação, postos em liberdade.
Na Sexta-feira, apareceu afixada "A canção do Boné"
A canção do boné

O tal tenente da guarda
Nem já pensa no banzé,
Anda a ver se deita a garra
Ao larápio do boné.

Ó Floro, ó comissário
Não sejas tão inclemente,
Entrega o boné roubado
Ao desgraçado tenente.

E durante muitos anos, os académicos festejaram a data de 27 de Maio, festejos que, posteriormente, se confundiram com a Queima das Fitas, cujo cortejo de carros e queima do grelo decorriam sempre naquele dia.
A ACADEMIA DE COIMBRA (1537-1990) – Lamy, Alberto de Sousa, Rei dos Livros, 1990 –
Texto amavelmente enviado pelo Almocreve das Petas

Segunda-feira, Janeiro 03, 2005

A Crise Coimbrã

O seguinte texto, dividido em dois postais é retirado do Livro "A ACADEMIA DE COIMBRA (1537-1990)" de Alberto de Sousa Lamy editado pela Rei dos Livros em 1990, o qual foi gentilmente enviado pelo Almocreve das Petas.
A 22 de Março de 1911, foram criadas as Universidades de Lisboa e do Porto, o que se traduziu, na prática, à transformação em Universidades das Escolas Politécni­cas daquelas duas cidades.
A criação das novas Universidades, grande golpe dado na Universidade de Coimbra, descontentou o comércio desta cidade e não satisfez, plenamente, a totalidade dos estu­dantes, pois uma grande parte deles exigia o desdobramento da Faculdade de Direito.
Em Abril, mais de 400 académicos assinam um manifesto pedindo esse desdobra­mento e atacando o dr. António José de Almeida; em Outubro é distribuído outro manifesto, do Grupo dos Estudantes Revolucionários de Coimbra, no mesmo sentido.
Iniciou-se imediatamente uma reacção, organizada, veemente, em que entrava uma grande parte da Academia, lentes, comerciantes, industriais, proprietários, futricas, a população de Coimbra quase em peso, contra a campanha do desdobramento, que iria provocar a ruína da Universidade, da cidade inteira, dos milhares de pessoas que viviam à custa dos estudantes.
E um manifesto enérgico apareceu, espalhado por toda a parte e por toda a parte discutidíssimo, como tudo o que em Coimbra interessa a opinião académica. O mani­festo chamava aos que protestavam contra o exclusivo do ensino de Direito na Univer­sidade um grupo de degenerados com criminosas intenções, que, odiando Coimbra, preten­dem o seu completo aniquilamento. Terminava com vivas à Pátria, à República, à Universidade de Coimbra e abaixo os traidores! A excitação era crescente; temia-se a cada momento um conflito gravíssimo. Um grupo mais exaltado fizera à Porta Férrea um auto de fé, em que a Desafronta, o livro máximo da revolta, até ali o guia da Acade­mia liberal, foi queimado ostensivamente, no meio de gritos, de morras e de vaias ao autor, a quem acusavam de traição e era agora o ministro do Interior da República nascente - António José de Almeida.

Agradecimentos

Este blogue agradece as distinções que lhe foram conferidas pelos colegas da Blogoesfera Nova Frente e Almocreve das Petas.
Obrigada pelo estimulo.

Quinta-feira, Dezembro 23, 2004

Boas Festas

Este blogue deseja a todos os seus leitores um
Feliz Natal
e
Próspero Ano Novo
Nota: Este blogue será escrito a conta-gotas nas próximas duas semanas devido ao facto de ter que consultar a imprensa diária de 1913 (Possível na Hemeroteca de Lisboa até às 22h, apenas às Terças-Feiras) para poder enquadrar as cartas escritas por Raimundo Enes Meira, quando ocupou o posto de Governador-Civil de Coimbra, nos acontecimentos ocorridos naquela cidade em Junho/Julho de 1913.

Quarta-feira, Dezembro 15, 2004

Os participantes na Reunião do Directório

Vasconcelos, José Estêvão de (1868-1917) (1)
Nasceu em Olhão, em 13 de Novembro de 1868. Fez estudos em Lisboa, cidade onde alcançou, em 1894, o bacharelato em Medicina pela Escola Médico-Cirúrgica. Exerceu clínica em Vila Real de Santo António e passou a residir em Lisboa em 1911. Foi administrador da Caixa Geral dos Depósitos entre este último ano e 1917. Filiado no Partido Republicano Português (Democrático), integrou o seu Directório, nos anos de 1902-1903 e 1913, e che­fiou a respectiva bancada na Câmara dos Deputados, até 1917. Propagandista da República desde 1890, teve actividade na imprensa como director de A Van­guarda colaborador de O Mundo, e fundador e director de A Pátria (Lisboa). Eleito deputado por Setúbal, em 1908 e em 1910. Deputado e senador por Beja em 1911, foi chamado ao governo no final desse ano, desempenhando as funções de ministro do Fomento entre Novembro de 1911 e Junho de 1912. Regressou ao Senado em 1915, ainda por Beja. Faleceu em Lisboa, em 15 de Maio de 1917.
Guimarães, Vitorino Máximo de Carvalho (1876-1957) (2)
Oficial de administração militar. Começa como franquista, mas logo em 1908 surge como um dos líderes da revolta contra a monarquia. Membro da Jovem Turquia e do partido democrático. Professor na Escola Militar, no Instituto Superior de Comércio e na entidade que lhe sucedeu, o Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras. Assumiu-se politicamente como centrista dos democráticos, entre a ala dos bonzos e dos canhotos. Autor da reforma tributária de 1923.
Deputado às constituintes. Chefe dos serviços administrativos da 2ª divisão do CEP. Ministro das finanças do governo de José de Castro (de 19 de Junho a 29 de Novembro de 1915). Ministro das finanças do governo de Cunha Leal (de 16 de Dezembro de 1921 a 6 de Fevereiro de 1922). Ministro das finanças do governo de António Maria da Silva (de 14 de Setembro a 13 de Agosto de 1923). Presidente do ministério de 15 de Fevereiro a 1 de Julho de 1925. A sua principal obra é Contabilidade Pública. Sua Origem e Evolução em Portugal, publicada na Revista da Contabilidade Pública, entre 1941 e 1943.
Martins, Germano Lopes (1871-1950) (1)
Nasceu no Porto, em 7 de Janeiro de 1871, ingressou na Faculdade de Direito de Coimbra (1889-1897), onde alcan­çou o bacharelato (1897). Repartiu a vida profissional entre o exercício da advo­cacia, no Porto e em Lisboa, e o funcionalismo público. Foi gerente do jornal O Norte, representante do Estado na administração da Companhia de Caminhos de Ferro Portugueses, e Conservador Geral do Registo Civil (1911-1922). Filiou-se no Partido Republicano Português em 1890, participando no 31 de Janeiro. Desempenhou os cargos de vereador da Câmara Municipal do Porto, e de secretário geral (1910-1911) e director geral (1911-1935) do ministé­rio da Justiça. Foi deputado democrático pelo Porto nos anos de 1911 e 1915, presidindo à respectiva Câmara a partir de 1912. Ministro do Interior, entre l de Julho e l de Agosto de 1925. Faleceu em Lisboa, a 21 de Junho de 1950.
Lente de Medicina. Colaborador de Ricardo Jorge. Antigo militante progressista e maçon desde 1909. Deputado às Constituintes em 1911. Ministro da instrução do governo de Afonso Costa, de 9 de Janeiro de 1913 a 9 de Fevereiro de 1914. Chefe dos serviços de saúde da CEP. Ministro da instrução no governo de José Domingos dos Santos, de 22 de Novembro de 1924 a 15 de Fevereiro de 1925.
Fontes:
(1) - Ministros e Parlamentares da 1ª Republica - Guinote et al - Lisboa - 1991 - Assembleia da República

Domingo, Dezembro 12, 2004

A Carta a Estevão

Simas Machado seguiu o primeiro conselho, guardou a carta. A missiva enviada a Estêvão de Vasconcelos rezava assim:

Meu prezado amigo

A minha posição é irredutível, o Sr. Dr. Sousa Júnior afirmou ontem peremptoriamente, que o governo e a maioria parlamentar estavam incompatíveis comigo, dada a atitude a minha atitude de franco ataque ao sistema da nossa administração colonial.
Eu não percebo nem reconheço esta incompatibilidade. Estou fazendo, fiel aos princípios e às tradições do velho partido republicano, uma campanha de moralidade que só pode incompatibilizar-me com aqueles que iludem ou sofismam esses princípios e desejam manter dentro da república os processos que desmoralizaram e perderam a monarquia.
Não posso conceber, por minha parte, outra atitude: só abandonarei o directório ante o congresso que me elegeu – quando eu estava já vivamente empenha-do nesta campanha. Vejo bem a inconveniência de um congresso extraordinário, aliás desnecessário, para julgar a pretensa incompatibilidade; mas se a maioria do directório não concordar comigo e se decidir pela sua convocação, eu declinarei nela a respeitabilidade politica das presumíveis e naturais consequências, e não terei dúvida nenhuma em dar conta dos meus actos perante essa magna assembleia soberana.
Aproveito o ensejo para enviar-lhe por cópia uma carta que recebi ontem, do colega Adriano Pimenta, ausente no Porto.
Sou com verdadeira consideração

Amigo certo, muito admirador

Alfredo Magalhães

Reúne-se o Directório (2ª Parte)

Continuação do último postal

Nesta altura o Germano ofereceu-me uma cerveja que eu não aceitei, por me parecer ou lembrar o Rum dos condenados à guilhotina… E andaram todos a passar-me a mão pelo cabelo; Sousa Júnior, o parvo, aconselhara-me, paternalmente, que saísse sem violência, era o melhor, para não ferir a república. Veja você o procurador da república! Germano coçava a careca e monologava: É o diabo, é o diabo… O congresso extraordinário será um chinfrim levado dos demónios… Vitorino, como um porco de focinho voltado para a terra, pensando mais na pia que nestas mirabolâncias da ortodoxia partidária, sempre mudo e quedo… Estêvão, que delicia! Que sensato ele estava!

Por fim, já maçado e tomado de infinito nojo perante tanta miséria moral e através da qual eu leio o irremediável afundar da raça, fiz a seguinte fala: Pois bem; dada a importância do assunto, eu quero dar aos senhores mais uma prova da minha reflexão. Vou dormir sobre o caso para que não me acusem de precipitado, e amanhã eu lhes comunicarei por carta a minha resolução definitiva.

Acharam óptimo! Perguntaram a quem dirigiria essa carta? Respondi naturalmente: - Para o colega Estêvão, por ser… Ministro de Estado Honorário. Assim ficou assente. Ontem cumpri, enviando a Estêvão a carta que por cópia envio a você só para ficar inteirado da minha atitude. Leia você essa carta duas ou três vezes, pense nele um pouco, e se estiver por isso, diga-me se concorda com a minha orientação.
Aguardo agora os acontecimentos com imperturbável serenidade.
Não tenho tempo para mais.
Veja o meu caro Simas se lhe sirvo para alguma coisa e disponha sempre do seu

Amigo certo

Alfredo Magalhães
Lisboa 5 de Julho de 1913

PS: Olhe que essa carta deve guardá-la ou inutilizá-la. Não a mostre a não ser a pessoas da sua inteira confiança. Julgo ser um bom documento a não ser que seja apanhado pela imprensa nesta conjuntura. Vê bem.

PS: Para lhe poupar a maçada de escrever uma segunda carta ao nosso amigo Pimenta, peço-lhe que o procure já, para ele ler esta carta e dizer-lhe que recebi a carta.Como só voltei do directório às 3 da madrugada. Enviei-a no dia seguinte ao Estêvão. Pode também informá-lo que foi bem atacado por Germano e Sousa a propósito da reunião das comissões do Porto quando os consultou em matéria da Lei eleitoral. Defendi-o como pude e soube, como era um dever.

Reune-se o Directório (1ª Parte)

Alfredo de Magalhães, governador de Moçambique, entra em 1913 em litígio com a politica ultramarina do governo de Afonso Costa. A sua oposição traz-lhe inúmeros inimigos dentro do Partido Democrático e culmina na sua expulsão do Partido.
Em 5 de Julho de 1913 Alfredo de Magalhães escreve a Simas Machado a contar uma reunião do directório do Partido Democrático onde lhe exigiram a demissão.

Meu caro Simas

Reuniu a maioria no Conclave da Regaleira, logo que fecharam as câmaras. O Pimenta assistiu a essa espantosa reunião, ele que lhe conte o que lá se passou. Sobre mim é que infinitamente incidiram os caminhos dos mártires, à ordem e soldo do Júpiter tonante*, que por eu não estar presente, se permitiu cobrir-me de insinuações e impropérios de toda a ordem. Como vem aí eleições e eu vou lançar “O rebate”, aquela malta ou súcia, como você quiser, acha o momento aziago para um sacudir do directório, pois vê que nem num nem noutro campo, no eleitoral e no da imprensa, tem a contar com a fita de um chicote.
No dia seguinte o Directório reuniu. Apareceu o Germano, o Vitorino Guimarães, o Sousa e o Estêvão. A sessão começou tarde porque os sujeitos entraram à formiga e cheios de enleio, os malandretes, com pouca coragem para a sortuda de S .Carlos, saímos só de madrugada.
Expus singelamente a situação partidária, o que fizera nos últimos tempos durante o impedimento de vocês no Parlamento, disse o que convinha fazer no sentido de organizarmos o desmantelado partido, etc. etc. Caí a fundo no Conclave da Regaleira, para que, quando o patrão ou dono daqueles podengos fosse avisado suprisse sobre muitas disposições.
Os tipos ouviram, ouviram, ora enfiados, ora estúpidos, contorcendo-se, e depois um por um foi saindo à atacada para defenderem a escudela.
Refilante, o eleito Germano, enquanto que o Estêvão, cheio de calma e bonomia, fez de pai nobre, todo pretensioso, bom senso e bom concelho. Vitorino, de focinho voltado à terra, amolava, amolava, queria falar, mas não falou.
Por fim voltou-se o Senador Sousa. Era ele que vinha incumbido de apresentar o mandado de despejo! O Sousa Júnior! Foi longa a peça oratória, depois de um monumental elogio, celebrando o meu carácter, o meu talento, o meu patriotismo, o meu patriotismo, o bom do regedor, com ares de esperto, quis mostrar que a minha situação no directório não podia manter-se devido à minha atitude de oposição (!) ao governo e que este e a maioria eram incompatíveis comigo!!! Note você, que tudo isto foi feito com muito açúcar, amavelmente, ouvindo eu tudo sem proferir palavra senão quando ele rapa do bolso uma moção delambida de apoio ao ministério pela obra incomparável, que só pode assombra camelos inconscientes do que dizem, do que fazem e da tristíssima situação em que se encontra este desgraçado país a resvalar para a morte fatal.
Expus as minhas razões, atirei-lhes, claro é, à cabeça, e disse que não só não aprovava a moção, como não sairia do Directório senão em sessão do congresso ordinário ou extraordinário. Ainda o Estêvão opinou que a moção se publicasse embora não aprovada por unanimidade. Observei que faria pública declaração do meu voto. – Então não! Isso é o diabo.
(Continua)
* Jupiter Tonante - Afonso Costa - Nota do Autor

Alfredo de Magalhães (1870-1957)

José Alfredo Mendes de Magalhães, nasceu a 20 de Abril de 1870, em S. Salvador de Gandra (Valença do Minho).
Após ter frequentado o Colégio Jesuíta
do Espirito Santo, em Braga, foi para o Porto onde, concluído o liceu, ingressou na Academia Politécnica e na Escola Médico-Cirúrgica (1890-1896), tendo alcançado o bacharelato nesta última (1896). Frequentou ainda a Universidade de Paris (1898), exercendo clínica nos hospitais de Saínt Louis e Broca Pascal daquela cidade.
Repartiu a vida profissional entre a actividade médica e a docência na Escola Médica do Porto (1902-1910; 1919-1942) e no Instituto Superior de Comércio portuense. Fundador da revista Porto Médico e organizador do 4° Congresso da Liga Nacional contra a Tuberculose (1907), desempenhou as funções de director da Penitenciária de Lisboa (1910), Governador Civil de Viana do Castelo (1910-1911), Governador de Moçambique (1912-1913), comissário do governo na Madeira, director da Faculdade de Medicina do Porto (1923-1925) e reitor da respectiva Universidade (1926).
No Porto foi director da faculdade de Medicina (1923-1928) e a ele se deve a criação da Maternidade Júlio Dinis e Reitor da Universidade do Porto (1925-1926)
Com a Ditadura ascendeu novamente a ministro da Instrução, 1926 e 1928. Presidente da Câmara Municipal do Porto (1933-1937) e procurador à Câmara Corporativa (1935-1937). A partir de 1937 presidiu à Direcção da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras daquela cidade.
Republicano independente, viria a aderir, em 1890, ao Partido Republicano Português, integrando o seu sucedâneo Democrático entre 1911 e 1913 - ano em que foi expulso do partido. Filiou-se depois no Partido Republicano Presidencialista e, após 1926, na União Nacional. Colaborador em jornais republicanos, sucedeu a Duarte Leite na direcção do periódico Pátria (1910). Deputado do P.R.P. por Lisboa (1911), tendo participado na acção revolucionária civil em defesa do novo regime, aquando da primeira incursão monárquica do mesmo ano.
A partir de 11 de Dezembro de 1917, e ao longo de todo o ano seguinte, foi sucessivamente Ministro da Instrução e da Marinha. Candidato a deputado presidencialista por Lisboa em 1921.
Publicou numerosos artigos e livros.
Faleceu no Porto, a 17 de Outubro de 1957
Fonte: inistros e Parlamentares da 1ª República” – Guinote et al - Assembleia da república

Alfredo de Magalhães junto à maquete da Maternidade Julio Dinis - Fonte:Ministério da Saúde

Alfredo de Magalhães é a personalidade com maior número de missivas no acervo do General Simas Machado (Cerca de 50), missivas possuidoras de uma vasta riqueza de informação sobre este periodo.

Quarta-feira, Dezembro 08, 2004

Férias na Neve

Muito se falou há poucos anos de uma vivenda de férias de um certo Primeiro-Ministro. Em 1913, o “Chalet" de Afonso Costa na Serra da Estrela era presença nos postais ilustrados.

O Discurso de Santarém

Em 10 de Novembro de 1912, Afonso Costa, pronunciou em Santarém um discurso no qual estabeleceria as bases da sua actuação futura. Neste discurso para além de dos chavões da independência nacional, equilíbrio orçamental, desenvolvimento e educação, Afonso Costa discursou sobre o que entendia por “Democracia”.
Para Afonso Costa, o Partido Republicano Português – PRP (também conhecido pela sua denominação popular – Partido Democrático) era o único merecedor do nome de “Partido, os restantes partidos (Unionista e Evolucionista) eram “improvisados clubes de província formados por pessoas que desconhecem a ciência da sociedade” não contavam nem poderiam contar.
De acordo com Afonso Costa, “O povo reclamava a reintegração de todos os republicanos no PRP, todos tinham que voltar para onde estavam no 5 de Outubro de 1910, Portugal necessitava de uma ditadura do PRP e tinha de ser entregue aos militantes Republicanos, e todos os Republicanos tinham que obedecer ao PRP. Os funcionários (A base de funcionamento do estado) tinham, para alem de serem honrados, de ter um amor bem comprovado aos princípios republicanos."

Em 9 de Janeiro de 1913, Manuel de Arriaga convida Afonso Costa a formar Governo, nos meses seguintes o Partido Democrático toma de assalto as estruturas do Estado, com particular destaque para os Governos-Civis, procurando desta forma impor a sua vontade e a sua clientela a todo o Portugal.