segunda-feira, Julho 21, 2008

Atirar a toalha ao chão

Adriano Pimenta escreve no dia 20 de Maio a Simas Machado dando-lhe conta do seu desencanto com a nova situação e não aceitando o convite para ingressar no Partido Evolucionista, optando por retirar-se da vida política.

Meu amigo

Escrevo-lhe sob a impressão dos últimos acontecimentos; e, todavia, com a fria serenidade de absoluta descrença e desencanto. E isto me parece, também, ser ensejo próprio e inadiável de responder à sua carta a definir a minha atitude perante a sua amizade.
Tardei em responder-lhe, absorvido com andava em regular coisas íntimas de relativa urgência e forçado, a seguir, a um conveniente repouso por um estado de saúde, que de todo me preocupou.
São estes os motivos e não outros, que foram retardando esta carta, que lhe devia; não pensando sequer, que a qualquer equivoco se prestou o meu retraimento. Conhecemo-nos bastante bem para que eu não duvidasse em confiar-lhe, à sua amizade inteligente, qualquer circunstâncias delicadas que me cortavam o empenho de alinhar ao seu lado e ao dos seus amigos se, melhor pensando, outra orientação tomasse. E assim poupei-me a este esforço, que os meus nervos, a esse tempo, mal consentiriam, tanto mais que me pareceu que a minha resposta era apenas formal e cuja demora não podia ferir a susceptibilidade de amigo.
Enganei-me, pelo que discretamente me informam e eu depreendo. Esse equívoco deu-se. E se muito lamento pela nossa amizade, ela vem mostrar-me, mais uma vez, quanto me é avessa a política. Nela me sacrifiquei e não ganhando amigos novos, quase corri o risco de perder os antigos.
Neste momento, porém, em que nós adivinhamos as dolorosas coisas, que nos perturbam, eu sentiria que um equivoco fosse uma recordação amarga entre nós ambos.
Daí esta explicação que lhe devia.
Posto isto vou responder à sua carta, correspondendo ao honroso convite que me faz para ingressar no partido evolucionista. E responderei com a lealdade que nos devemos à nossa amizade.
Conhece, porque tantas vezes lhe afirmei a minha simpatia pelo partido evolucionista. E disso dei provas, na última fase da minha modesta acção parlamentar, combatendo ao lado dele na defesa da justiça e moralidade republicana. E fi-lo espontaneamente, posto que nem sempre, (vá dito de passagem) lá encontrei a melhor das solidariedades.
Era que se harmonizavam com muitos dos meus pontos de vista; e os seus processos distanciavam-se infinitamente de uma democracia brava e inculta de selecção regressiva, que agora tripudia, sem decoro, sobre os farrapos de uma pátria.
E porque, quaisquer que fossem as nossas divergências e friezas, eu faço justiça ao Dr. António José de Almeida cujo carácter é para mim garantia segura de que, sob a sua direcção, a República não voltaria a ser a agência de negócios escuros para clientes vorazes. Isto considerei-o eu como fundamental, porque não pode ser outra a orientação da República, que se fez e o país acatou, menos, por considerações de ordem filosófica ou política, do que por uma afirmação moral.
Era pois lógico que fosse a esse partido que eu desse toda a minha cooperação, ao lado dos homens. O meu amigo, no dia em que me determinar, por um dever moral, a abandonar o retraimento político em que me isolei.
Somente, a minha filiação partidária dependeria da oportunidade que logicamente me imporem o ingresso de novo na política e depois de esclarecidos alguns pontos de vista da acção politica desse partido e que eu considero essenciais. Isso se combinou, como sabe, constando como um simples incidente, fácil de remover, o estado das relações tensas entre mim e o Dr. Almeida. Na refrega política jogamo-nos alguns agravos, sem afectar, creio eu, o carácter de cada um; e entendi sempre que, nestas circunstâncias, os superiores interesses do país e da República sobre elevavam em muito às arranhaduras de vaidades.
O rumo que, a seguir, tomavam as coisas políticas, o emaranhou de uma situação cada vez mais complexa em que mal se podia prever a atitude de cada um, retardavam a oportunidade, parecendo mesmo que a minha intervenção na vida do partido seria mais prejudicial que profícua, mercê de possíveis discrepâncias, que no momento eu antevi.
Hoje, ante os últimos acontecimentos, no seu duplo aspecto de golpe de estado e de cobardia, eu sinto que para mim desinteresso-me de um regímen cuja agonia ameaça matar a própria. Dizem os papéis que a República está condenada. Pois meu amigo, nunca a via tão próxima do seu fim, ante a repulsa e a antipatia duma opinião que percebe muito bem que a mentira oficial esconde apenas o triunfo efémero de uma demagogia cada vez mais opressiva e tirânica e pressinto que já não é com as reacções internas que nos salvaremos tão cedo do “democratismo”, que em nada escrupulisa.
Oxalá que me engane e que a nação por algum dos seus homens de inteligência e carácter possa sacudir, antes de mais desastres, por um repelão da consciência colectiva, a quadrilha que nos infama.
Até lá, meu amigo, não estou disposto a pegar no andor do Afonsismo bárbaro e vilão. Porque é dar-lhe alento até o combatê-lo. O que é preciso é isolá-lo, abandonando-o ao impulso da sua incompetência e ambição.
Para despertar a consciência pública é necessário que o país fique sozinho e bem em frente do bando democrático, a aparar-lhe os golpes, sem o anteparo das oposições.
E quando sentir quanto lhe doe é possível que tome juízo.
Voltarei, portanto a ser o que dantes era; um amigo seu, devotado mas sincero e orgulhoso do seu carácter e cioso da sua estima.
Á política deu ficar alheio.

Abraça-o

Seu amigo

Adriano Pimenta

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domingo, Julho 13, 2008

Entregando as Chaves

A 18 de Maio, Artur Jorge Guimarães escreve a Simas Machado a dar-lhe conta das perseguições de que estava a ser alvo por parte de apoiantes do Partido de Afonso Costa. Alertado por um amigo, o medo foi tão grande que Artur Guimarães foge de casa, demite-se e envia na carta, as chaves do centro republicano evolucionista a Simas Machado.

Porto, 18/5/1915

Meu Exmo. Camarada e prezadíssimo amigo

Nos agitados dias que passaram não pude falar-lhe, embora procurasse por várias vezes fazê-lo. Na segunda-feira (17 de Maio) saí para cumprir com as obrigações que estão a meu cargo e julgava poder continuar a minha vida habitual, pois nunca julguei que pudesse ser perseguido por republicanos por pertencer a um partido republicano, que só tem honrado a republica. Porém procurou-me na minha casa pessoa categorizada e chefe revolucionário que me foi pedir para me retirar da minha casa e afastar-me por algum tempo daqui. Estranhei tal pedido e respondi-lhe o que a minha consciência e a minha dignidade me ditavam. Porém, as razões que me expôs convenceram-me a retirar. Não sei ainda ara onde irei, mas antes de partir era meu dever comunicar-lhe o que se passava e dizer-lhe, antes de escrever ao Dr. Almeida, quais as disposições do meu espírito, ante a tremenda catástrofe que abalou tão desgraçado país. Completamente desiludido, perdida toda a fé, julgando mesmo já impossível de realizar o programa do nosso partido, único que poderia dar a felicidade a este povo e assentar em bases sólidas a republica eu resolvera retirar-me completamente da política diante da hecatombe. Retirava-me por julgar inútil, todo o meu esforço por maior que ele pudesse ser. Mas depois de me ver perseguido pelos próprios republicanos a quem eu sempre ajudei quanto pude, não procurando mesmo saber a que partido pertenciam, pois nunca nutri ódio ou desprezo por ninguém, eu julgo que só tenho um caminho a seguir que é o de me retirar completamente de tudo. Assim lho comunico, antes de o fazer a mais ninguém, pela muita estima e consideração que me merece.
Peço-lhe o favor de transmitir aos nossos dedicados correligionários as razões expostas e pelas quais não me poderão ver ao seu lado, não esquecendo o Alfredo de Magalhães cujo carácter muito apreciei sempre. Junto remeto duas chaves, sendo uma da porta do centro e a outra da secretária. Muito desejava saber as impressões do meu bom amigo e se tiver um momento disponível pode escrever-me para a minha casa, Avenida do Brasil, 791, porque ficou lá pessoa encarregue de me remeter a correspondência. E disponha sempre do exilado.

Do amigo muito dedicado
Arthur Jorge Guimarães

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quarta-feira, Julho 02, 2008

O novo Governo

O Governo indigitado pela junta revolucionária era presidido por João Chagas (1) e era constituído por (2) Magalhães Lima – Instrução; (3) Teixeira Queiroz – Estrangeiros; (4) Fernandes Costa – Marinha; (5) Manuel Monteiro – Fomento; (6) José de Castro – Guerra; (7) Paulo Falcão – Justiça e (8) Barros Queiroz – Finanças.

Apesar de o novo governo ter apenas um ministro oriundo do Partido Democrático (Monteiro) era na realidade totalmente controlado por ele, pois Magalhães Lima, Chagas, Teixeira Queiroz e Falcão eram republicanos históricos desde o tempo da Propaganda e completamente fieis a Afonso Costa. Barros Queirós era Unionista e Fernandes Costa filiado no Partido Evolucionista, participava no governo a título pessoal pois António José de Almeida retirou-lhe a qualidade de representante do partido.

No entanto João Chagas nunca chegaria a tomar posse. Vindo do Porto no Comboio da noite, Chagas sofreria um atentado no Entroncamento perpetrado pelo Senador João de Freitas que o baleou na cabeça e tórax. Chagas perdeu um olho, mas salvou-se milagrosamente. Para o Senador João de Freitas não houve milagre. Preso pela Guarda Republicana do Entroncamento, foi adequadamente abandonado na sala de espera, onde a Formiga Branca o espancou até à morte.

Com João Chagas debatendo-se entre a vida e a morte, José de Castro (O decano) assume a presidência do Conselho de Ministros.

No dia 18 de Maio ocorre a primeira reunião do novo executivo. O jornalista de “A Capital” interpela alguns dos ministros.

Magalhães Lima afirma que irá pagar os ordenados em atraso e que no ministério irá continuar a “obra propagandística do ideal republicano”.

Manuel Monteiro afirma sinceramente que “Vim de Braga sem saber que ia ser encarregado da gerência de uma pasta. Ainda quis furtar-me, mas não pude.”

José de Castro, afirma que o objectivo do governo é “Pacificar a família republicana e garantir a todos os cidadãos, o livre exercício dos direitos que a Constituição lhes faculta. […] A nova revolução demonstrou que a República é o regime do povo, que para a defender é capaz de todos os sacrifícios e provou que não é possível a nenhum governo atropelar a Constituição nem desrespeitar as leis. Procederemos de harmonia com a vontade do povo, que é a grande força que nos apoia.”
Populares armados (Formiga Branca) festejando a vitória
Foto de Anselmo Franco – Arquivo fotográfico da C.M.L.

José de Castro, falou e o governo cumpriu. No entanto o “Povo” a que ele se refere não é constituído pela grande massa do operariado rural e urbano analfabeto. O “Povo” de José de Castro são os pequenos comerciantes, funcionários públicos menores; a pequena burguesia urbana que compõe as hostes radicais da formiga branca. No dia 14 de Maio foram estes 15 000 homens que pegaram em armas e nas futuras eleições será este “Povo” que irá autorização para votar - 16 000 votos no Partido democrático e quase 7000 nos restantes partidos. Apesar de a taxa oficial de abstenção ser de 40%, apenas votaram 18.6% da população masculina maior de 21 anos.

Fontes:
"A República Velha (1910-1917) Ensaio", Valente, Vasco Pulido, Gradiva, Lisboa 1997
"O Poder e a Guerra 1914-1918", Teixeira, Nuno Severiano, Estampa
"História Politica de Portugal 1910-1926, Wheeler, Douglas L., Europa-América
Jornal "A Capital"

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terça-feira, Junho 24, 2008

Os dias seguintes

A pesquisa sobre os dias seguintes à revolução do 14 de Maio está limitada aos recursos online, nomeadamente o Jornal “A Capital”, jornal que, segundo David Ferreira, foi um dos focos onde se preparou a Revolução.
Esse facto nota-se na leitura do jornal, os seus jornalistas estiveram presentes a bordo do Cruzador Vasco da Gama e do Almirante Reis, de onde relataram os acontecimentos. Os restantes artigos eram perfeitamente laudatórios da nova situação, entremeados de pequenos apontamentos que relatavam a situação nos bancos dos hospitais.

À direita, Leote do Rego, em cima Assis Camilo e do lado esquerdo, os Cruzadores Vasco da Gana, Almirante Reis e São Gabriel – Ilustração Portuguesa
O repórter que esteve no Vasco da Gama, entrevista um dos chefes da revolução, Leote do Rego, grande apoiante de João Franco, Monárquico a 4 de Outubro e republicano histórico no dia seguinte. Na entrevista Leote revela todo o seu cinismo, característico da sua personalidade “adesiva”, ao descrever o assassinato pela tripulação do anterior comandante do navio, Assis Camilo, quando Leote abordou o navio. “Foi um momento pungente. Era um camarada e um amigo. Foi morto pela tripulação em legitima defesa”

Mais caricato é o artigo de Brito Camacho publicado na Luta, que “A Capital” dá destaque. Camacho, apoiante de Pimenta de Castro até 24 horas antes da revolta, ataca fortemente o governo que apoiou, chamando de “vaidosos e medíocres” aos seus membros. O alvo da sua “ira” era Guilherme Moreira que apoda de “Criatura de mesquinha inteligência, Republicano de tirar e pôr, como os colarinhos de borracha.”
Nesse mesmo editorial, Camacho, que tudo tentou para ser ele, e não Pimenta de Castro a ser nomeado Presidente do Conselho, remata cinicamente dizendo que “A União Republicana participaria no novo governo apenas porque o presidente o havia solicitado, pois está muito bem assim, sentimos que a velhice precoce indica-nos que nos devemos afastar para dar lugar aos mais novos, aos sãos e robustos. Nunca tivemos ambições políticas e neste momento quasi nenhuma outra ambição temos senão a de nos apagarmos na sombra de uma honesta mediocridade entregue às predilecções do nosso espírito."
Brito Camacho, provavelmente o Político republicano com mais ambições, sempre disposto a dar passos maiores que as curtas pernas, que ele e o seu partido dispunham, não escreveu isto a pensar nele.
Estes dois últimos parágrafos são directamente dirigidos a António José de Almeida, esse sim com problemas de saúde e precocemente envelhecido, como as cartas de Luís Mesquita de Carvalho o demonstram, e que permaneceu neutral na disputa de 14 de Maio.


Pânico na Praça do Município – Ilustração Portuguesa
Sobre tudo o resto o Jornal apenas se limita a descrever que Lisboa está calma, não dando quase relevo às acções da formiga branca.

Piquete de populares e Marinheiros a revistarem automóveis – Ilustração Portuguesa

“A Capital” informa da presença das esquadras Inglesa (Alguns cruzadores) e Espanhola (1 Couraçado e 3 Cruzadores), afirmando que não havia qualquer motivo para a sua presença intimidatória.

NOTA: As fotografias foram obtidas a partir das digitalizações que Mariana Pinheiro fez da sua colecção da Ilustração Portuguesa" as quais podem ser consultadas no seu blogue "A Ilustração Portuguesa" e publicadas com sua autorização.

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segunda-feira, Junho 02, 2008

A revolução de 14 de Maio

A seguir ao congresso de 4 de Março, os democráticos estabeleceram uma junta revolucionária constituída por José de Freitas Ribeiro (Marinha), Norton de Matos, Álvaro de Castro e Sá Cardoso (Exército) e Antó￳nio Maria da Silva(Maçonaria e Carbonária) para preparar o golpe contra o governo de Pimenta de Castro. Este golpe deveria ser em tudo idêntico ao 5 de Outubro e apoiava-se na Marinha (O Ramo mais favorável aos democráticos) e nas violentas organizações civis (Carbonária e Formiga Branca), uma vez que os apoios do exército eram reduzidos ou de pouca confiança.

Marinheiros Revoltosos carregam uma peça do cruzador Vasco da Gama - Ilustração Portuguesa
No dia 14 de Maio, a Marinha, Guarda-fiscal, uma parte da Guarda Republicana e 15000 civis armados enquadrados pela Carbonária e formiga branca revoltam-se e ocupam o arsenal da Marinha, onde se apoderam de um grande número de armas. Estas são distribuídas pelos civis. A reacção das tropas fiéis ao governo é tímida e apenas eficaz no primeiro dia. Infantaria 16 ainda cerca o arsenal da Marinha, mas é violentamente bombardeado pelos navios da armada. Artilharia tenta ainda bombardear os navios, mas estes ripostam e arrasam o alto de Santa Catarina. Ao todo crê-se que a revolta de 14 de Maio provocou entre 200 a 500 mortos e mais de 1000 feridos, Até hoje, o 14 de Maio foi a mais violenta revolta que sucedeu em Portugal.

Sá Cardoso proclamando o fim do Governo de Pimenta de Castro – Benoliel-Arquivo fotográfico da C.M.L.

No entanto a maioria dos mortos não ocorreu com os bombardeamentos navais do dia 14, mas sim com as perseguições e ajustes de contas da Carbonária e formiga branca. Entre 14 e 17 de Maio não existiu lei na cidade de Lisboa, o que deu mão livre à carbonária e à formiga branca para realizarem razias, pilhagens e assassinatos dos seus inimigos (+ de 20 policias e vários cadetes da escola de guerra foram sumariamente executados). Tal violência motivou o envio de esquadras de França, Espanha e Inglaterra, e foi apenas a sua presença que acalmou os ânimos e obrigou as novas autoridades a restabelecerem a ordem.

Elementos da Formiga Branca à Porta do Arsenal da Marinha
Sobre a actuação da Formiga Branca, Afonso Costa tece-lhe um profundo elogio nas Páginas do Jornal “O Mundo” –
"A verdade é que a Formiga Branca, como associação ou instituição revolucionária, não existe. A chamada Formiga Branca é apenas o povo que ama a republica, hoje como em 5 de Outubro, e que, por muito a amar, zelosamente a vigia e a defende. O partido republicano português não tem que enjeitar essa formiga branca, porque o partido republicano português tem de ser, e é, um partido popular, no exacto sentido do termo"

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sábado, Maio 17, 2008

Aquecer a Campanha!

Meu Exmo. amigo

No Domingo (2) realizam-se comícios em todas as capitais de distrito e cidades importantes. Para Viana vai com o delegado do distrito o Dr. Augusto Soares. Para que a manifestação seja imponente, é conveniente que V.Ex.ª, escreva para Viana a recomendar a maior concorrência.

Até Breve
Abraça-o o dedicado amigo

Afonso Costa
Lisboa 28/4/1915

PS: Convém aquecer a campanha, sobretudo no norte.

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quinta-feira, Maio 08, 2008

Aquecer a campanha

No mesmo dia, Afonso Costa, escreve a Raimundo Meira, a solicitar a sua intervenção no sentido de tentar obter a maior participação nos comícios do Partido Democrático. A sua carta denota uma certa insegurança nos apoios e é bem diferente da que escreveu durante a campanha de 1913, quando era presidente do Conselho de Ministros

Meu Exmo. amigo

No Domingo (2) realizam-se comícios em todas as capitais de distrito e cidades importantes. Para Viana vai com o delegado do distrito o Dr. Augusto Soares. Para que a manifestação seja imponente, é conveniente que V.Ex.ª, escreva para Viana a recomendar a maior concorrência.

Até Breve
Abraça-o o dedicado amigo

Afonso Costa
Lisboa 28/4/1915

PS: Convém aquecer a campanha, sobretudo no norte.

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quarta-feira, Abril 23, 2008

Os Nomes

Definitivamente sanados os conflitos internos no Porto, António José de Almeida escreve a Simas Machado a pedir nomes para a elaboração da lista de candidatos a Deputado pelo círculo do Porto para o Partido Evolucionista. Entretanto aproveita para dar conta do andamento das amigáveis conversações com Pimenta de Castro.

Meu Exmo. e Prezado amigo

Recebi a sua carta que muito agradeço, apresentando-lhe em nome da Junta Central os protestos da nossa satisfação por se terem composto as coisas aí no Porto. Peço-lhe que nunca deixe de vigiar de perto os procedimentos das nossas juntas, que sendo imensamente dedicadas e sempre cheias das melhores intenções, por vezes se deixam arrebatar em demasia.
V.Ex.ª, com o seu bom critério e o seu alto prestígio, auxiliado pelos seus colegas da junta distrital, tudo poderá fazer.
Peço-lhe o obséquio de mandar dizer, na volta do correio, se possível for, quantos são os membros que o Partido Unionista tem nas comissões administrativas do Porto. Os evolucionistas, creio que são dois: Capitão Artur Jorge e Manuel Granjo*. Também lhe peço o favor de me mandar dizer, e com toda a urgência, quem são os nomes que os nossos correligionários do Porto preferem para meter na lista dos deputados e dos Senadores. Devo ter no Domingo ou na segunda-feira uma conferência que espero que seja definitiva, sobre os assuntos eleitorais, com o Pimenta de Castro.
O governo deseja que os nossos nomes entrem na lista com os nomes do governo e eu preciso de estar habilitado com dados o mais positivo possível a entender-me com ele.
Aceite os protestos da minha mais alta consideração e amizade.

O seu amigo certo e obrigado

António José de Almeida
28/4/1915



António José de Almeida conferencia com Pimenta de Castro
Foto de Benoliel – Arquivo fotográfico da C.M.L.
Faltavam 16 dias para a revolução de 14 de Maio de 1915

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quarta-feira, Abril 09, 2008

Instruções

Em 25 de Abril, António José de Almeida escreve a Simas Machado, visivelmente satisfeito por os diversos contratempos surgidos terem sido ultrapassados. Aproveita para lhe dar conta do andamento de conversações com o governo e dá-lhe instruções para a realização de acordos e pedindo-lhe para vigiar a acção das diversas comissões.

Meu Exmo. e Prezado amigo

Ainda bem que as nossas juntas emendaram o erro que tinham praticado e que aqui me ia causando certos embaraços, chegando-nos a fazer algum mal.
Bem sei que o Governador Civil tem procedido, para com o Partido Evolucionista, de uma maneira quase inqualificável, mas não podíamos, por causa desse cavalheiro e da sua felonia, prejudicar a política geral do Partido.
Agradeço-lhe o cuidado que pôs neste assunto e peço-lhe que vigie sempre de perto os actos das nossas juntas, que cheias de patriotismo e de dedicação partidária, se deixam por vezes arrebatar prematura e excessivamente.
Ainda nada está assente com o governo sobre a maneira de intervir no acto eleitoral, não porque tenhamos posto embaraço, mas porque o governo ainda não aceitou um plano.
Em qualquer hipótese, porém, nós devemos ter sobre os unionistas aí no Porto uma superioridade de dois deputados pelo menos. Levar-lhes a vantagem de um apenas, seria, além de mesquinho, ridículo.
Nesse sentido pois, deverá V.Ex.ª, em cujo bom senso temos confiança ilimitada, dirigir qualquer entendimento que se lhe proporcionem, mas sempre com carácter provisório, nada acertando definitivamente sem de aqui ir à opinião da Junta central que se fundamentará combinações que fizer com o governo.
Apresento-lhe os protestos da minha mais alta consideração e desejando-lhe a melhor saúde

António José de Almeida
25/4/1915

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sábado, Março 29, 2008

O Congresso Evolucionista III - Vãs palavras

Luís Mesquita Carvalho ataca fortemente Afonso Costa e Brito Camacho, que acusa de conspirarem para a destruição do Partido Evolucionista e recusa qualquer entendimento com eles pois segundo Mesquita Carvalho, o Partido Evolucionista está prestes a assumir o poder.

Sempre que
António José de Almeida usa da palavra, apenas o consegue fazer após longos minutos de efusivos aplausos. No seu discurso final, e certamente arrebatado pela audiência. António José afirma que “ O Partido Evolucionista é uma agremiação política, mas também é uma religião.” Continua o seu discurso atacando sem dói nem piedade Afonso Costa e Brito Camacho e termina com dificuldade os seu discurso, devido aos aplausos dos assistentes propondo uma moção de apoio a Pimenta de Castro, a qual foi aprovada por unanimidade.

Mas no Portugal de 1915 as convicções eram mais voláteis que a gasolina, e estas belas palavras de apoio a Pimenta de Castro, “firmeza”, “ardor”, “convicção plena”, “missão patriótica”, não eram mais que meras “Palavras”. E um mês mais tarde serviriam mesmo para, atabalhoadamente, os evolucionistas darem o dito pelo não dito, apoiarem a revolução de 14 de Maio, e a tentarem um entendimento com aqueles que, de acordo com Mesquita Carvalho, conspiravam para a destruição do Partido.

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terça-feira, Março 25, 2008

O Congresso Evolucionista II - António José discursa


António José de Almeida discursando no congresso (Simas Machado está sentado ao centro com a mão a apoiar a face)
Foto de Benoliel – Arquivo fotográfico da C.M.L.

Para António José de Almeida a situação que se vivia era transitória e que só havia uma força política capaz de salvar a república – O Partido Evolucionista.
"Pode o governo estar na ilegalidade, mas esta ilegalidade, tem por fim salvar a Pátria e a República". António José ataca fortemente os Democráticos de Afonso Costa dizendo "Aqueles que o combatem (O Governo) fazem alarde de uma ilegalidade mentirosa pelas frinchas da qual entram todos os crimes".
Escreve a Capital que estas palavras foram proferidas com extraordinária violência. Segundo António José, "Os evolucionistas apoiam o governo, porque á sua frente está um homem honrado e que lhe merece toda a sua confiança". António José termina o discurso propondo Simas Machado para presidente da mesa do congresso, ao qual se segue uma chuva de aplausos que dura vário minutos.

O Discurso de Simas Machado
Simas Machado começa por agradecer a nomeação para presidente da mesa do congresso e explica que a sua decisão em aderir ao Partido Evolucionista foi motivada às opressões e enxovalhos que António José de Almeida foi vítima no Porto.
Para Simas Machado o congresso servia para o Partido Evolucionista provar ao país que era um partido de governo.
Para Simas, a republica tinha-se transviado e era necessário levá-la para o caminho correcto:
- Suavizar a lei de separação;
- Modificar a lei do registo civil;
- Reformar, em bases sólidas o exército.

Os restantes discursos, para além de mútuos elogios defendem a revogação da Lei da Separação e sua substituição por uma concordata e a Liga Naval propõe uma lei eleitoral no qual o recenseamento fosse o mais alargado possível.

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segunda-feira, Março 24, 2008

O Congresso Evolucionista I

O congresso realizou-se nos dias 10 e 11 de Abril de 1915. Inicialmente estava previsto para se efectuar no Coliseu da Rua da Palma, mas o proprietário, Conde de Folgosa, não o permitiu, pelo que o congresso foi transferido para o Teatro Politeama.


Noticía o Jornal "A Capital"
Chegam os Marechais do Partido – Mesquita Carvalho, Júlio Martins, Simas Machado, Arnaldo Bigote, Celestino de Almeida, Trindade Coelho assiste ao congresso do primeiro balcão.
No "Foyer" vendem-se retratos de António José de Almeida e de … Pimenta da Castro.

Diz o mesmo Jornal que Antero de Figueiredo, parece meditar num novo livro, de tão alheio se mostrava ao desenrolar do congresso.
A entrada de António José de Almeida no palco, provoca longos minutos de aplausos entusiásticos.

terça-feira, Março 04, 2008

Recenseamento a passo de caracol

O recenseamento pela nova lei avançava muito lentamente, pois as câmaras municipais, controladas na sua maioria por elementos afectos ao partido de Afonso Costa, não o estavam a implementar na prática. O motivo disto prendia-se com o facto de que um escrutínio mais alargado iria penalizar fortemente o Partido Democrático, afastando desse modo Afonso Costa do poder.Urgia pois, e por qualquer meio impedir a concessão do direito de voto a todos aqueles que não simpatizavam com os democráticos. Para obstar a este bloqueio o governo de Pimenta de Castro dissolve as câmaras municipais que se opunham à realização do recenseamento. Esta seguinte carta, com uma assinatura desconhecida, mas de um camarada de armas, foi remetida em 18 de Abril de 1915.



Meu Exmo. Amigo

Aqui me conservo, por enquanto, visto ter requerido para ir à junta.
Quero ver, até onde chega a perseguição do Justino, Assis e cia. Limitada.
E, dizem, que fizeram um movimento para que os civis não interferissem na tropa!! Pois eu sei que os meus camaradas todos, embora alguns com pouca vontade, da guarnição fizeram sentir o seu desgosto para o Ministro da Guerra. Logo e concerteza, fará de nós monárquicos e conspiradores.
A isto chegamos.
Resistirei e se chegar o açoite, vir-me-hei embora desta coisa, ainda que a desgraça me bata à Porta.
Isto vai ao fundo e já não há dúvidas.
Hoje, violentamente e sem o mais pequeno pretexto, foi dissolvida a câmara daqui.
Quem mais manda aqui no Distrito é o Manuel Tomás e filho.

Meu caro amigo

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sábado, Março 01, 2008

Amuos

A organização do congresso não correu de feição a Simas Machado, que em carta escrita a António José de Almeida ponderou não se deslocar a Lisboa. Este, em carta datada de 6 de Abril o tenta demover dessa decisão.

Meu prezado Amigo

Recebi a sua carta e escrevo-lhe esta para o demover da resolução em que está de não vir ao congresso.
É indispensável que V.Ex.ª assista a essa reunião do nosso partido porque se a questão do número é muito importante, a questão da qualidade não o é menos. E o meu amigo ao aumentar a quantidade em mais um, aumenta a qualidade em mais mil.
Peço-lhe pois encarecidamente que disponha as suas coisas e apareça cá ainda que não seja senão de passagem.
Desculpe a impertinência e creia-me sempre na amizade sincera do seu dedicado amigo

António José de Almeida

P.S. – peço-lhe que insista junto do Carvalho Mourão e outros amigos de maior relevo para que não faltem

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sexta-feira, Fevereiro 08, 2008

Preparando o Congresso Evolucionista

No mesmo dia, Luís Mesquita Carvalho, advogado, genro de Guerra Junqueiro e deputado do Partido Evolucionista por Santo Tirso, escreve a Simas Machado dando instruções sobre a preparação do congresso.

Meu Caro Simas

Quando recebi a sua carta, estava já publicada no “República” a nota da constituição da Junta Distrital partidária do Porto, o que para todos os efeitos equivale ao seu reconhecimento oficial e o deve ter satisfeito. No entanto, falei com o António José sobre o assunto; dizendo-me de que a demora na aprovação pela Junta Central resultou apenas do seu estado de Saúde e de um novo ataque de gota na mão direita, que o tem em casa há uma semana e o impossibilita absolutamente de escrever.
Pelo que respeita ao Miguel de Abreu, compete à comissão organizadora do congresso entender-se com ele; o que fará agora com facilidade, visto ele estar em Lisboa.
Não descure o meu amigo no distrito do Porto a representação ao congresso; lembre-se que a sua importância pela numerosa concorrência é para nós, neste momento, politicamente decisiva.
E lá nos entenderemos todos animados da mais viva fé para influirmos poderosamente, como convém, nos destinos desta infeliz República.

Abraça-o o seu amigo dedicado e obrigado

Luís de Mesquita Carvalho
Lisboa, 30/3/1915

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terça-feira, Fevereiro 05, 2008

Almeida, António José de (1866-1929)

(Penacova, 18 de Julho de 1866 - Lisboa, 31 de Outubro de 1929). Médico, jornalista e político, 6° Presidente da República Portuguesa, nasceu de uma família de modestos lavradores (José António de Almeida e Maria Rita das Neves e Almeida) que o mandaram estudar a Coimbra, onde se formou (1895). Republicano desde os bancos da escola, viveu intensamente o período do Ultimato (1890), distinguindo-se por um contundente ataque ao rei D. Carlos no jornal académico O Ultimato, que intitulou «Bragança o último» e que lhe valeu a cadeia por três meses. Esteve também implicado na revolta republicana de 1891, mas sem lhe sofrer consequências. Concluído o curso de Medicina, embarcou para São Tomé onde exerceu clínica (1896-1903), se espe¬cializou em doenças tropicais e amealhou uma pequena fortuna que gastaria mais tarde no jornalismo e na política. De regresso à Europa, e depois de um breve estágio em clínicas de Paris (1903-04), abriu consultório em Lisboa, onde se tornou querido de uma vasta clientela popular.
Ingressando no Partido Republicano Português e, mais tarde, também na Maçonaria e na Carbonária, António José de Almeida depressa se tornou uma das figuras mais conhecidas e prestigiadas do republicanismo, quer pelas suas capacidades como orador impetuoso, agressivo e completamente demagógico.
Escreveu para vários jornais, sobretudo para A Luta, mas foi no Parlamento (1906-07; 1908-10) e nos comícios dos últimos anos da Monarquia que o seu talento oratório o impôs como caudilho indiscutível, além de o revelar como mestre de arte retórica. Em 1910 fundou a revista Alma Nacional, que dirigiu, e onde colaborou assiduamente até à proclamação da República.
Conspirador contra a ditadura de João Franco, preso e logo libertado após o Regicídio (1908), participou activamente na preparação do movimento republicano, sendo natural que lhe colhesse parte dos louros como ministro do Interior no Governo Provisório (5-X-1910 a 3-IX-1911) e como deputado (1911-15; 1915-17; 1919).
Como ministro deveu-se-lhe uma actividade fecunda, sobretudo no campo da Instrução pública. A necessidade da manutenção da ordem numa época difícil e conturbada por toda a espécie de fermentos políticos e sociais valeu-lhe a má vontade de parte das populações de Lisboa e Porto, que o acusaram de traidor e de certa maneira o empurraram para uma posição conservadora que nunca fora a sua. Ainda ministro, fundara e começara a dirigir o jornal República (1911), que se tornou o órgão de combate e de expressão de toda uma camada de republicanos que se opunham a Afonso Costa e às suas tendências radicais. Aí escreveu continuadamente até 1919. Fundou o Partido Republicano Evolucionista (1912), agrupamento heterogéneo e confusamente programado, onde militavam conservadores, extremistas e simples despeitados. Apesar da sua aparente força e da projecção nacional que teve, o Partido justificava-se tão-somente pela figura do seu chefe. Em 1916 reconciliou-se com Afonso Costa e aceitou a presidência de um governo de guerra conhecido como governo da União Sagrada (16-111-1916 a 25-IV-1917), onde também geriu a pasta das Colónias. Abandonando-o mais tarde, continuou porém a apoiar Afonso Costa até ao Sidonismo, que sempre repudiou, ao contrário da maioria dos evolucionistas.
Em Agosto de 1919, proposto pêlos Partidos Evolucionista e Unionista, mas com o apoio de muitos Democráticos, foi eleito presidente da República, cargo que desempenhou até ao fim do mandato (1919-23), com o aplauso e respeito unânime dos vários agrupamentos políticos e entre escolhos que pareciam insuperáveis. Visitou o Brasil (1922) para tomar parte nas festividades do centenário da Independência, deixando fama quase lendária pelas suas capa¬cidades oratórias. Ainda voltou a ser deputado por Lisboa em 1925 mas depois, doente e prematuramente envelhecido, passou em silêncio literário e político os últimos anos de vida.
Iniciado maçon por comunicação em 1907 (Álvaro Vaz de Almada), pertenceu à loja Montanha. Foi eleito Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano em 1929, nunca podendo tomar posse devido ao seu estado de saúde.
Ministros e Parlamentares da 1ª Republica - Guinote et al - Lisboa - 1991 - Assembleia da República

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Entretanto, no campo Evolucionista

Simas Machado, simpatizante do Partido Evolucionista de António José de Almeida, é eleito presidente da Junta distrital do Porto desta agremiação política. António José, a convalescer de um ataque de gota (Excesso de ácido úrico), escreve-lhe a dar instruções para o congresso próximo.

Meu Ex.mo e prezado amigo

A doença não tem permitido que eu lhe escrevesse há mais tempo. V.Ex.ª me desculpará esta falta que tem sido inteiramente involuntária e que eu sou o primeiro a lamentar.
A junta Distrital do Porto foi sancionada e com muito prazer pela junta central. Esperamos agora que ela desempenhe as suas funções com o entusiasmo e o ardor próprio dos homens que a compõem entre os quais, com o mais alto prazer para mim, se encontre V.Ex.ª que muito estimo e respeito. Entre os trabalhos mais urgentes que essa junta tem a desempenhar deve contar-se uma grande representação de todo o distrito do Porto ao próximo congresso e que V.Exas. promoverão, tudo em vista que nas localidades onde não houver comissões organizadas nem por isso as diferentes tendências devem deixar de se fazer representar, porque qualquer núcleo de evolucionistas, à face do nosso estatuto tem o direito a enviar delegado.
Considero este assunto como muito importante, pois de uma larga e idónea representação do nosso congresso, dependerá em grande parte o nosso sucesso político no meio dos acontecimentos que se estão desenrolando.
Espero que V.Ex.ª e por sua parte como membro da junta distrital faça tudo o que puder para que neste momento difícil, mas tão cheio de esperanças para nós, o Partido Evolucionista consiga definitivamente a situação a que tem direito. Muito folgarei também de ver V.Ex.ª no congresso de Lisboa onde a sua alta inteligência e o seu grande critério muito úteis serão à orientação partidária.
Desculpe V.Ex.ª não escrever esta carta mais cedo, mas um fortíssimo ataque de gota me impede de escrever há mais de dez dias.
Aceite os protestos da minha consideração e da minha mais devota amizade.

Afectuosos cumprimentos

António José de Almeida

30/3/1915

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terça-feira, Janeiro 29, 2008

Apoios a qualquer preço

A 23 de Março, Rodrigo de Abreu, escreve a Raimundo Meira das diligências que tem vindo a fazer no sentido de granjear mais apoios para o lado republicano.

23/3/1915

No correio de hoje seguiram para o directório, registados, os documentos constantes da circular confidencial, os quais requeri à câmara por meu próprio punho. De Coura nada sei por enquanto mas não admira. Estive, como lhe disse com o Manuel Tomás. Não lhe fiz confidências, porque as não faço senão a quem deve ser. O homem diz que os monárquicos não vão às urnas, como também afirmam os mais entendidos. Se forem, diz, têm de perder, se não for a bem é a mal. Eu, diz ele, não sou hoje um político, mas tenho todo o interesse e orgulho em que o nome de meu irmão, que foi sempre republicano, fique ligado à história e só pode ficar salvando a República, pois que a monarquia nunca mais volta. Não tem ligações com partidos e conta com todos os republicanos. Foi a primeira vez que vi aquele homem a falar sem se rir e dizer que dava a sua palavra de honra, que serviria, sem ser político, a República com toda a dedicação. Que estava pronto a receber os republicanos sempre que quisessem e agradecer todos os informes que lhe dessem. A opinião e informe dele é que os monárquicos não vão às urnas, mas são capazes de fazerem qualquer garotice para perturbar, mais nada.
Em resumo. O nosso partido poderá sofrer nesta triste conjuntura que atravessa a República, mas os monárquicos ainda desta não vencem.
Note, eu declarei ao homem logo de princípio, que era republicano acima de tudo mas filiado num partido, o Democrático, cuja orientação e programa acompanhava. Falou-me em si com as melhores referências.
Seria bom vir por cá e abordá-lo também. Em artilharia houve uma festa militar onde oficiais e sargentos fizeram declarações de amor à República. Que pândegos. Pareciam mais republicanos que nós! Estive com o Segismundo.

Seu amigo certo

Rodrigo de Abreu

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domingo, Janeiro 27, 2008

O Pânico aumenta

A 18 de Março, Rodrigo de Abreu, informa Raimundo Meira do enorme pânico que grassa em todas as hostes republicanas devido à grande adesão que os monárquicos vêem registando nas suas acções de campanha.

18/3/1915,
São duas horas da noite e chego a casa onde encontro a sua carta. Vou dar-lhe cumprimentos amanhã e por isso hoje fica pronta com a circular dentro, a carta para Coura dirigida ao A.V. para seguir no primeiro correio.
Isto por aqui corre mal se houver eleições. Eu ando a ver se conserto o que posso, mas não vejo as coisas bem.
Os evolucionistas de cá estão descontentíssimos e apavorados com as reuniões monárquicas, bem como com as autoridades e o trabalho eleitoral que têm feito. Amanhã vou terminar uma conferência com Manuel Tomás velho, o qual disse que pretendia ouvir-me sobre as questões monárquicas e sobre os regedores, que eu considero conspiradores. O homem deu a sua palavra de honra ao Ferreira Soares que estava resolvido a combater os monárquicos por todos os processos, embora o irmão lho proibisse, (1) pois só assim seria possível fazer alguma coisa e ele desejava servir o irmão que no presente momento tinha o seu nome ligado a uma missão histórica que havia de honrar a sua família. Ele não era republicano, mas que o irmão sempre o foi e havia de servir a República através de tudo, que podia ter a certeza disso. Este homem é um velhaco mas eu não direi senão o que me convém e ficamos a conhecê-lo mais. O Soares ficou surpreendido com a atitude dele, que não o esperava. Eu avisei desta entrevista apenas o Brandão. O Zé de Abreu trabalha com eles incondicionalmente. O António Carvalho da mesma forma. O Martinho Cerqueira e o Conde de Azevedo recolheram ontem a casa depois das duas horas. O Reimão foi procurado pelo Zé Gatuno em Casa. Por a minha parte estarei sempre firme para tudo o que for possível, nada me apavora, nada me altera, no caminho que devo seguir, sempre pela República, enquanto ela precisar e viver. Mande sempre e se puder apareça. Tenho empenho de ir ao congresso. Vamos a ver se o poderei fazer.
A questão económica é sempre a dificuldade. Leia no Povo a atitude da Câmara. Para os outros mandei indicações idênticas. Dar-lhe-ei conhecimento das démarches junto do Manuel Tomás.

Seu amigo certo

Rodrigo de Abreu

PS: Dê sempre informes de tudo, pois preciso sempre de estar a par de tudo! Homem prevenido vale por dois …
Vai ao Congresso?

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sexta-feira, Janeiro 25, 2008

O Pânico democrata

Em Março de 1915, os Democráticos de Viana do Castelo estavam em pânico. Viam conspirações em todos os cantos e esquinas. A perspectiva de umas eleições nas quais todos pudessem votar, afigurava-se-lhes uma catástrofe anunciada. A organização e apoio que pela primeira vez os monárquicos demonstravam, estavam a pôr os cabelos em pé aos partidários de Afonso Costa. Em face disto, era necessário prepararem-se para o pior e vigiar de perto as acções monárquicas.

Viana, 16/3/1915

Meu caro amigo

Ontem houve aqui grande reunião monárquica. Nela estiveram vários conspiradores de categoria. Esteve o Zé gatuno, Luís de Magalhães, Conde de Azevedo, Adolfo Pimentel, Reitor de Caminha, Regos de Caminha, Conde Vitorino, Amândio Lisboa, António Carvalho e outros. O Zé gatuno procurou e falou com o Reimão*.
O Zé de Abreu de Ponte de Lima mandou dizer que estava com os monárquicos ainda mesmo que pelo distrito propusessem o filho.
O assunto que, segundo me informou, foi discutida a questão eleitoral. Resolveram, depois de breve discussão ir às urnas em todos os concelhos onde pudessem ganhar. Onde não fossem disputariam as eleições camarárias e paroquiais.
Participei este assunto ao Governador Civil sem entrar em pormenores, porque não confio nele, e só lhe disse isto, que tinham cá estado estes membros, foi apenas para ver o que ele dizia. Continuam, ao mesmo tempo que preparam estas coisas, a conspirar à bruta, aguardando o momento propício para um movimento pela força armada. Veja se decifra esse papel que aí vai a lápis duns apontamentos que tirei à pressa para uso próprio.
Eu talvez vá ao Porto brevemente. Por aqui tem nomeado conspiradores para regedores. Já estão dois nomeados, um em Santa Marta outro na Meadela.
Não tenho tempo agora para mais. Escreva e conte coisas.

Seu amigo certo

Rodrigo de Abreu


* Malheiro Reimão - Ministro do Governo de João Franco de Castelo Branco

Este é o manuscrito referido por Rodrigo de Abreu, provavelmente copiado de um relatório de uma toupeira que actuava dentro da organização monárquica.

Dia 4 – Rua formosa, 237- Zé de Azevedo, Joaquim Machado, G. Abreu, P. Torres, Luís Magalhães e Reitor de Caminha – Esperam tumultos por ocasião da Reunião do congresso ou o assassinato de Afonso Costa.
Adiamento (das eleições) – Não lhes foram favoráveis as notícias de Lisboa.
Nova Reunião no Porto com O. Lima e Abel Martins Pinto dizendo este – é questão de mais uns dias – Paiva continua na Galiza. Padre Domingos continua em Vigo.
Dia 6 – Às 16 horas, Hotel Universal, Batalha. Vão aliciados falar com Reitor de Caminha por serem chamados. Recomendam vigiar os quartéis para não serem atacados pelos carbonários. Confirmando-se este assalto aos quartéis, devem participá-lo imediatamente aos dirigentes do Hotel Universal para serem avisados grupos e conjuntamente com a polícia assaltarem casas de republicanos e fazerem a anunciada matança.
Dia 8 – Teve uma conferência com D.C. de Menezes.
Dia 9 – Reunião no Hotel Universal com Abel Ferreira, Abel Pereira, Reitor de Caminha e Luís de Magalhães. Este diz "A coisa vai bem. O Pimenta de Castro tem quase tudo na ordem".

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sexta-feira, Janeiro 18, 2008

Uma cunha no meio da "barafunda"

Em 15 de Março, Simas Machado recebe mais uma carta de Luís Mesquita de Carvalho, no meio da "barafunda" política em que o país se encontra, a “cunha” para o lugar de Barcelos continua a ser uma preocupação para Simas Machado.

Meu Caro Simas

Obrigado pela amabilidade do seu telegrama; infelizmente não pode você servir-me desta vez.
Não suponha que me esqueci do seu pedido acerca do Dr. Porfírio, de Barcelos. Simplesmente ele veio encontrar-me de cama, onde estive quatro dias com forte dose de gripe. Hoje que já pude levantar-me, procurei falar ao Afonso de Mello (Chefe de Gabinete) pelo telefone; mas, em resposta, informam-me neste momento que ele não está em Lisboa. Se amanhã já me puder levantar (o que não creio) procurá-lo-ei pessoalmente; no caso contrário, voltarei a insistir pelo telefone.
De política nem me anima a falar-lhe. Isto está sendo uma barafunda em que nem o diabo se entende. A atitude do governo é um tanto enigmática e a gente não sabe bem para onde caminha. A ver vamos se isto tomará uma orientação mais firme e decidida. Na minha opinião, não há dúvida que o governo pensa e procura amarfanhar os democráticos; mas onde para mim existe a grande incógnita é em saber se procura auxiliar-nos a nós ou fazer política. Se assim for, resultará no futuro congresso para as direitas um gachis mil vezes pior do que o anterior, de que só poderão sair governos a viverem à mercê de apoios traiçoeiros, sem força própria, sem hegemonia partidária, sem programa definido de reformas: uma embrulhada de lutas de grupelhos e de ambições pessoais, de que afinal resultará cada vez maior o enfraquecimento da Republica e sua lenta agonia.
Deus super omnia. Mas mal irá a inspiração divina se os homens não conseguem entender-se e … ter juízo.
Abraça-o o seu amigo dedicado e obrigado

Mesquita Carvalho
Lisboa. 15/3/1915

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terça-feira, Janeiro 15, 2008

A reacção democrática e a Retracção “Moderada”

O Partido Democrático após a publicação da nova lei eleitoral declarou guerra ao governo de Pimenta de Castro.

O Presidente do Parlamento (Manuel Monteiro) é informado por um oficial da Guarda da proibição da abertura do Congresso (Foto de Benoliel)

Estava marcado para o dia 4 de Março uma reunião do Congresso da República (Sessão conjunta das duas câmaras). Nesse dia os deputados e senadores ao chegarem a São Bento viram o edifício cercado por tropas da Guarda Nacional Republica, que impediram o acesso ao interior do Edifício, impossibilitando assim a reunião parlamentar.

Desafiando o governo, Afonso Costa e os seus deputados e senadores, reuniu-se no Palácio da Mitra em São Julião do Tojal, Loures. Acção que os deputados moderados (Unionistas, Evolucionistas e independentes) não secundaram. Mesmo assim o Partido Democrático considerou a reunião como um congresso das duas câmaras mesmo não passando de uma reunião do grupo parlamentar.


Reunião dos parlamentares do partido Democrático na Mitra (Foto de Benoliel)
Nesta reunião, e por unanimidade, o governo de Pimenta de Castro foi considerado “fora-da-lei” e os seus actos legislativos foram considerandos “nulos e sem efeito”. Mais ainda, Afonso Costa, no seu discurso compara Pimenta de Castro a João Franco, dizendo que a "ditadura” de Pimenta era pior, mais indigna e mais infame, rematando o seu discurso dizendo “[…] Não sei que horas sombrias virão, o que sei é que a república vingará”. Tal como Nuno Severiano Teixeira afirma no seu livro “O Poder e a Guerra 1914-1918” - “Se não era o incitamento ao derrube do ditador, era pelo menos uma declaração de guerra à ditadura, que o mesmo era dizer, a ameaça de uma nova revolução”.
Perante esta ameaça de revolução bastaria a Pimenta de Castro o apoio cada vez mais relutante dos moderados e do exército? Não.
Nem os moderados tinham grande poder, nem o exército desejava combater para apoiar Camacho e Almeida, que considerava parte da "Canalha reinante". Por isso Pimenta de Castro voltou-se para outro sector da sociedade que até aí estava legalmente excluído da vida cívica – Os monárquicos.
Pimenta de Castro a coberto de uma politica "Nacional" começou a atribuir cargos a monárquicos, incluindo os membros do Integralismo Lusitano. A 20 de Abril publica uma lei da amnistia a todos os monárquicos e levanta a proibição da constituição de centros e partidos monárquicos. Isto enfurece os republicanos, que não admitiam que a republica pudesse tolerar os monárquicos no seu seio. Com a lei eleitoral de Pimenta de Castro, que diluía o voto urbano (Democrático) no voto rural (Monárquico), com os mecanismos de recenseamento nas mãos do governo, que o queria o mais alargado possível, as eleições estariam ganhas à partida pelos monárquicos.
Com a amnistia Pimenta de Castro perde o apoio dos moderados, com excepção de Brito Camacho, que como não possuía qualquer poder, optou por permanecer ao lado de Pimenta, bem como Machado dos Santos, este último mais por ódio a Afonso Costa, que por apoio às políticas de Pimenta de Castro.

Fontes:
A Republica Velha (1910-1917) Ensaio, Vasco Pulido Valente, Gradiva Publicações Lda. – Lisboa 1997
O Poder e a Guerra 1914-1918 – Objectivos nacionais e estratégicos na entrada de Portugal na Grande Guerra, Nuno Severiano Teixeira – Editorial Estampa Lda. - Lisboa 1996
História de Portugal - Suplemento - Direcção de Damião Peres, Portucalense Editora - Porto 1954

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segunda-feira, Abril 23, 2007

Contando espingardas

A 14 de Março Segismundo A. Pereira, militar, escreve a Raimundo Meira a combinar um encontro no Porto. Pela Carta Segismundo informa Raimundo Meira da sua disponibilidade para secundar um possível golpe militar.

Meu caro Meira

Há palavras da tua carta anterior à que anteontem recebi que não dei o sentido restrito do seu significado literal, mas antes (conforme fiz ver ao Manuel dos Santos, que foi chamado à barra) dei-lhes uma interpretação de tal modo diferente que sem dúvida nela há de caber ou moldar-se a causa que a mim ou ao Manuel reclama aí. Presumo do que se trata e deve tratar-se. Não surgindo daí qualquer contrariedade irei na próxima Sexta-Feira no comboio-correio da tarde e seguirei para o hotel Aliança onde te esperarei pelas oito e meia.
Que não haja desânimo, dizes-me que sim, eu pelo menos não desanimo: antes vibro com franca fé pela República, meu único credo político no passado e no presente, e no futuro se não surgir um certo rei perfeito.
Trago sim confrangido o coração com o hiper-desvairamento que se encontram muitos republicanos por causa da organização deste ministério, da sua política, da sua obra, que não sei se tem por objectivo hostilizar o partido democrático, se por bem intencionado reparar erros, ou ainda se, pelo andar que as coisas estão tomando, irritado, azedado, atalassado, preparar a intriga, como por vezes se chega a presumir da República à nação. Seja como for, creio assim a República uma tal situação quer os seus amigos, sobretudo nos meios pequenos, remetem-se humilhados. Mas não ficará por aqui a nova revolução. Se com este ministério a Talassaria concorrer às urnas, neste distrito e no de Braga e por certo nos outros, os republicanos nem talvez apanhem as minorias.
Ora tudo isto não fazendo perder a fé numa vida sadia da República, vai no entretanto torturando muito e muito aqueles que não cultivaram o “sport” de atirar à república em vez de atirar à nação, obras que lhe dessem prosperidade e achatassem a talassaria. Agora sem ruído é preciso restabelecer a Republica. Para isso tem o meu franco concurso. Falaremos. Até Sexta-Feira à noite.

Teu certo e estimado amigo
Viana 14/03/1915
Ségis

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terça-feira, Abril 17, 2007

Preparando o golpe

No dia seguinte Sá Cardoso relata a Raimundo Meira o ambiente que se vive na capital, onde impera o ódio aos Democráticos. Dois meses antes do golpe que organizou, Sá Cardoso não deixa transparecer as suas intenções nesta carta.

Lisboa 13/3/1915

Meu caro amigo

Fiquei contentíssimo com o que me conta. Oxalá um dia, eu possa dizer-lhe o mesmo de Lisboa.
Por enquanto isto por cá não está bem. Em verdade pode dizer-se que predomina o ódio aos democráticos e que, a isto, tudo se […], opiniões, República, tudo enfim.
Em Lisboa só há, por assim dizer, democráticos e anti-democráticos, estando todos, unionistas, evolucionistas, machadistas e monárquicos unidos contra nós.
Isto faz com que qualquer movimento que aqui se tentam agora tirem todo o carácter partidário, o que não convém nem mesmo ao partido que possa defender a República e os seus interesses.
Para mim, tenho por certo que isto não acabe bem. As perseguições são constantes aos republicanos e não só aos democráticos, havendo blandicias para os monárquicos, que são afinal, quem manda no Ministério da Guerra.
Temos de deixar passar a opinião para então aqui e deixar desde já preparadas as coisas para pararmos o grande golpe que se está a preparar na sombra.
A República não morrerá porque tem o povo a defendê-la mas tenho a certeza que vai ser minada fortemente pelos monárquicos que habilmente estão a preparar o voto favorável para prepararem a volta do tigre com o amotinamento, ie, queria dizer consentimento do António José e do Camacho.
O que importa é saber, porque de vários pontos me chegam notícias, que fora de Lisboa a atmosfera é democrática.
O caso do empréstimo, este está ao cuidado dos próprios que têm para o despachar. Que deve de estar por um fio se o novo ministro não levantar embaraços
Adeus caro amigo

Sá Cardoso

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domingo, Abril 08, 2007

Viana ao Rubro

Os democráticos, por outro lado, estavam extremamente nervosos, pois, ao não possuírem qualquer apoio no governo, estavam a perder o controlo dos governos civis e das administrações de concelhos, conforme podemos ler nesta carta de Rodrigo de Abreu a Raimundo Meira escrita a 12 de Março de 1915.

Meu caro Amigo

Recebi a sua carta. Eu também tenho trabalhado na defesa da República quanto tenho podido e para mim não há desânimos, nem mesmo na hora de maior perigo. As violências já começaram também por cá. Eu estou envolvido num caso de bombas, acusado por o Esgueira Machado e outros conspiradores da Meadela. Estão a instaurar um processo e falam em buscas. Não tenho nada na minha casa, mas só lá entram à força porque eu não consinto que lá entrem doutro modo enquanto não está no trono o D. Manuel. Já disse ao administrador que trabalho nestes assuntos desde 1904 e não me deixo cair assim à boa nas artimanhas dum parvo como ele e que me vendo caro. Os talassas continuam radiantes e fazem no Domingo a procissão dos Passos. Estão a ser nomeados os regedores entre tudo o que há de mais talassas.
São mais covardes. Há dias escreveram uma insolência ao nosso partido por debaixo do telegrama que anunciava a reunião do congresso em Loures. Estava presente o A. Campos, o Sabonete, o General Marques, o Capitão Branco, os filhos e outros. Desafiei-os, chamei-lhes Garotos, disse tudo quanto me veio à cabeça e os tipos rasparam-se sem dar um pio. Disse-lhes que era formiga mas que antes dos talassas me porem um dedo eu havia de fazer virar a algum, as pernas por cima da cabeça – Nem assim!!! Quanto à Câmara mandou a sua adesão e vou reunir a deliberativa que alguma coisa fará também.
Entre os requerimentos nossos, evolucionistas e talassas entraram 800 e tantos, mas desses, 300 devem ser deles, dos talassas. Vai-se fazer o protesto contra a entrada dos requerimentos depois do dia 28. Ficou hoje de manhã alguém encarregue disso. Hoje esteve cá o Ramos Pereira e mostra grande empenho que alguém vá daqui à reunião do congresso. Vou hoje ver se se pode conseguir alguma coisa nesse sentido, porque eu, somente á minha custa não posso ir, porque os tempos estão bicudos … Se não for ninguém, delegaremos na gente de Lisboa.
O Congresso é muito importante e não se deve dar lá uma impressão de fraqueza que o torne inferior ao da Figueira. Eu queria ir mas talvez não o consiga.
Vou mandar a sua carta ao Oliveira. Também me parece que este governo não chega às eleições, mas é preciso estar a pau porque isto não está nada bem. Mande sempre

O seu amigo

Rodrigo de Abreu

12/3/1915

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quinta-feira, Abril 05, 2007

Convites a candidatos

O partido Evolucionista, porém jogava tudo por tudo nas eleições organizadas por Pimenta de Castro. Simas Machado tentava convencer Alfredo de Magalhães a se apresentar como candidato pelo Porto.

Meu caro Simas

Recebi ontem essa carta do Fontinha e respondi-lhe nos termos que também lhe envio a si por cópia.
Se os Evolucionistas me gramarem a conferência como a tenho fisgada, só depois dela poderei definir a minha atitude política.
Isto não quer dizer que não tenha a maior satisfação em reatar relações com o António José, se ele entretanto vier ao Porto; mas no interesse de todos, convém que eu proceda assim. Entendido?

Seu amigo

Alfredo

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quarta-feira, Março 28, 2007

Luís Augusto de Sales Pinto Mesquita de Carvalho (1868-1931)

Nasceu no Porto em 1868, filho do General Luís Pinto de Mesquita Carvalho e de Mafalda Júlia de Lemos Barbosa de Albuquerque.
Frequentou a Faculdade de Direito de Coimbra, tendo obtido o grau de Bacharel em 1890. Dedicou a sua vida profissional à advocacia e ao notariado.
Foi notário público em Vila do Conde, Vila da Feira, advogado em Aveiro, Vila do Conde, Porto e Lisboa. 1º oficial da Direcção Geral de Saúde do Ministério do Interior (Até 1917).
Foi membro do s Partidos Evolucionista e Liberal. Deputado por Santo Tirso (1911 e 1915). Ministro da Justiça entre 16 de Março de 1916 e 25 de Abril de 1917, e novamente entre Janeiro e Março de 1920. Esteve preso em 1918, tendo retomado o assento parlamentar por Oliveira de Azeméis em 1919. Casou com Fernanda Elísia de Catalã do Amaral Osório da qual teve dois filhos e mais tarde viria a casar com Maria Isabel de Guerra Junqueiro, filha do famoso escritor. Faleceu em 1931.
Publicou as Obras A Família o Casamento (1908) e Projecto de Lei do divórcio em Portugal (1910).
Constituiu a fundação Maria Isabel Guerra Junqueiro e Luís Mesquita de Carvalho, pertença da Câmara Municipal do Porto, a qual mantém ainda hoje a casa-museu Guerra Junqueiro no Porto
Ministros e Parlamentares da 1ª Republica - Guinote et al - Lisboa - 1991 - Assembleia da República

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Apreensões e esperanças Evolucionistas

No campo Evolucionista existiam algumas apreensões, mas reinava um comedido optimismo com a perspectiva de uma maioria absoluta no futuro acto eleitoral.
Em 26 de Fevereiro, Luís Mesquita de Carvalho, dá conta das suas apreensões a Simas Machado. Para ele havia de facto uma ditadura que, apesar de ferir os seu temperamento democrático, julgava necessária para por cobro aos desmandos de quase 5 anos de poder de Afonso Costa.

Meu caro Amigo

A esta hora talvez saiba que na vaga de notário do Porto foi colocado o Pinto Osório, que exercia idênticas funções em Braga. Quando falei ao ministro da Justiça, já ele tinha o caso resolvido e até o decreto lavrado. É possível que nada se tivesse conseguido, mas a verdade é que o seu pedido veio tarde. Infelizmente, como vê, nada se pode arranjar, por este lado; mas, em compensação, o ministro deu-me as melhores esperanças de que seria atendido no outro pedido – o da transferência do delegado de Ponte de Lima para Barcelos. Se assim for já não conseguíamos pouco, porque a vaga de Barcelos é muito e muito disputada.

De política, meu amigo, havendo imenso de importante, há afinal pouco que dizer. Como compreende, a situação nos últimos dias variou por completo. O governo enveredou pela ditadura franca e rasgada contra os democráticos. O facto, como precedente é gravíssimo pela violência das medidas; como providência política, tornava-se sem dúvida indispensável. Para onde caminhamos? Não sei bem. Fazer uma afirmativa optimista sem algumas preocupações parece-me temerário; pôr as coisas em negro (de luto como fez “o mundo”) ante o espectro da monarquia, parece-me também exagerado desvairo.
Não, Tenho para mim que o governo é sinceramente republicano e que as instituições não correm risco. Os próprios monárquicos não estão contentes e vão-se desiludindo de encontrarem uma maré de favor, como a principio supuseram. A meu ver, o governo tem um programa único e imediato: reduzir os democráticos a proporções inofensivas e meter na ordem a formiga. E esse, creio, há de esforçar-se por o realizar.
Quanto a nós, como partido, prevejo que a monção nos virá a ser propícia. Dentro da República somos os únicos que padecemos e devemos governar. As eleições, convenientemente trabalhadas em propaganda e sem perseguição do governo, devem dar-nos maioria parlamentar, pelo menos a indispensável para constitucionalmente governarmos. E então, dentro da lei e dos princípios realizarmos o nosso programa e de se sair deste pesadelo de ditadura e de farsa que, embora necessária e consequência fatal os destemperos democráticos é da perfídia Camachista, nem por isso deixa de ferir os temperamentos, como o meu, e de penalizar as almas, como a minha, verdadeiramente imparciais e republicanas. Os fins muitas vezes justificam os meios; mas nem sempre se podem aceitar sem inteira relutância. Certo é, porém, que os democráticos não têm de se queixar-se e são indignos de protestar: foi esta a sua desgraçada obra; é esta a deplorável situação que criaram.
A nova resolução partidária vai ser tomada logo numa reunião que temos à noite; mas não lhe será difícil presumir qual seja. Não há senão uma…
Adeus. Apareça. Impaciente por vê-lo e abraçá-lo está o seu amigo muito dedicado

Luís Mesquita de Carvalho
Lisboa, 26/2/1915

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terça-feira, Março 27, 2007

Nervosismo Democrático

O nervosismo dos democráticos é bem patente nesta carta dirigida a Raimundo Enes Meira, para eles a Monarquia já estava instalada. A perda de poder estava a traduzir-se no recenseamento eleitoral de adversários políticos a que rotulavam de Talassas (monárquicos) independentemente de o serem ou não.
Carta escrita no dia 23 de Fevereiro de 1915, de remetente desconhecido. O sobrescrito tinha o timbre do Colégio Beira-Mar de Leça da Palmeira.

Como tem passado em face de toda esta temperatura politica?
Na minha humilde opinião, se os monárquicos não forem tão chapadamente burros como os republicanos, têm agora uma magnífica oportunidade única de consultar o país com a celebração do plebiscito Couceirista. E olhe que vencem em toda a linha, ou a lógica é uma cebola.
Com a nova lei eleitoral só podem lucrar os monárquicos e os democráticos, ou a lógica continuará a ser uma abóbora.
Olhe que só neste concelho têm sido recenseados nos últimos dias cerca de setecentos talassas…
Preparam o golpe. Como vê, e levarão de vencida os republicanos. Só quem for cego de alma e de corpo não verá em tudo isto, um plano monárquico habilmente levado a bom termo e com quase certeza de um êxito seguro.
As maiorias serão vencidas pelos monárquicos se, a sério as disputassem e pelos democráticos se aqueles não quiserem trabalhar como devem.
Eis na minha humilde opinião o estupendo resultado das manobras do traidor Camacho e dos poltrões de espada a quem ele, no seu cobotinismo piramidal, pensou servir de Saldanha de lata!
Não haverá meio de dissolver o chamado nosso exército? …
Se não há, só nos resta entoar um “de profundis” em honra da república e de nossa independência.

Quando aparece por aqui?
Cumprimentos à sua Exma. esposa e um abraço do

G?


Átrio do Colégio Beira-Mar em Leça da Palmeira (Bilhete Postal Ilustrado)

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segunda-feira, Março 26, 2007

O Governo Pimenta de Castro (A Lei Eleitoral)

O governo de Pimenta de Castro era essencialmente um governo militar. Estes ocupavam 7 das 9 pastas ministeriais.
Os militares desprezavam os partidos em geral, não apenas os democráticos e, aspiravam a mantê-los na ordem. Não admitiam, ou pelos menos afectavam não admitir distinções entre os Portugueses. A nação pertencia igualmente a republicanos e a monárquicos, a moderados e a radicais. Todos tinham os mesmos direitos e, em particular, o mesmo direito à vida política.
O Governo de Pimenta de Castro demitiu por isso, os militares democráticos (de Sargentos a Generais) que exerciam cargos de comando. Protegida a sua retaguarda, Pimenta de Castro adiou as eleições marcadas para 4 de Março e iniciou a elaboração de uma nova lei eleitoral.
Pimenta da Castro era um perito em questões eleitorais, para ele “A lei eleitoral de um país deveria ser uma lei imutável, equitativa e justa, nunca uma lei transitória e arbritrária”. Pimenta da Castro já em 1884 e 1890 tentara, em vão, realizar uma reforma eleitoral. Tinha portanto uma ideia clara e definitiva sobre o assunto. A proposta inicial da lei era baseada no sistema de lista incompleta, uninominal, “sem alçapões nem escaninhos”, que impedisse “as tricas e estorvos politiqueiros” e estabelecia o sufrágio universal.
Os republicanos, moderados e radicais, ficaram em sobressalto, pois este tipo de lei faria com que a república não sobrevivesse, pois conduziria a um governo conservador e mais tarde à restauração do regime Monárquico. Como Pimenta de Castro dependia do apoio de Manuel de Arriaga e dos moderados (Unionistas e Evolucionistas), teve de encetar negociações, para poder chegar a um compromisso.
A lei resultante desse compromisso, publicada a 24 de Fevereiro, pouco mudou em relação às leis eleitorais de Afonso Costa. Devolvia o voto aos militares, simplificava os processos de candidatura e recenseamento e retomava, com poucas adaptações os círculos eleitorais do tempo da monarquia, que a propaganda republicana havia apodado de “ignóbil porcaria”. Na nova ignóbil porcaria, o voto democrático (urbano) seria afogado com o voto provinciano (conservador). Os unionistas e Evolucionistas ficavam dependentes da boa vontade do Governo, cuja influência era tanto maior quanto maiores eram os círculos.

Fontes:
A Republica Velha (1910-1917) Ensaio, Vasco Pulido Valente, Gradiva Publicações Lda. – Lisboa 1997
O Poder e a Guerra 1914-1918 – Objectivos nacionais e estratégicos na entrada de Portugal na Grande Guerra, Nuno Severiano Teixeira – Editorial Estampa Lda. - Lisboa 1996

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terça-feira, Março 13, 2007

Um "Fait-Divers" - Ajudando um criador de Porcos

A 16 de Fevereiro, Alfredo de Magalhães escreve a Simas Machado, a pedir uma “cunha” para um conhecido seu. O pedido em si é pouco importante, mas o texto de Alfredo de Magalhães é carregado de ironia.

Meu caro Simas

Não repare você na ortografia arrazoado incluso, à guisa de memorial, e se tiver paciência para o soletrar, diga-me o que for de justiça.
Conheço o desgraçado que subscreve essa peça literária, e asseguro-lhe que não pode haver melhor criatura. Trabalhou todo o Inverno como um negro para criar uns porquinhos que bem cevados com as lavaduras de um regimento, haviam de ajudá-lo a recuperar de dívidas que o estrangularam; vai daí, os bichos morreram todos com qualquer tranglo-manglo que lhes deu!
Sempre que lhe acontece uma desgraça cá o tenho à porta. O infeliz não conhece pessoa mais importante que eu!
Se você poder aliviá-lo nos termos que requer, muito obrigará o seu

Muito amigo

Alfredo de Magalhães



No dia 19 Alfredo de Magalhães escreve novamente a Simas Machado a agradecer o favor prestado e, talvez por este não acreditar na história dos porquinhos, Alfredo dá-lhe mais pormenores, qual deles o menos hilariante.

Meu bom Simas

Recebi à noite a sua cartinha, pouco depois de sair daqui o Valença. Anteontem quando você passou no consultório, eu estava. Batesse ou tocasse à porta da rua, homem!
Muito obrigado por atender o pobre homem dos … Camachos. É na realidade uma excelente pessoa e chefe de uma honestíssima família. Trabalha como um burro e tudo lhe corre torto … como a nós. Pela infelicidade faz parte cá da confraria. E por isso o estimo mais. Os porquinhos de facto morreram-lhe, e julga-se nada menos que desgraçado e perdido! Veterinário, médico excelente, foi ele próprio, e assim me explicou a patogenia do caso: “Foi mais ou menos, senhor doutor, uma consequência da guerra europeia…”?!
Sim senhor! Com o extraordinário movimento do quartel nos últimos tempos, antes da partida do contingente para Angola, as lavagens naturalmente aumentaram muito, eram muito substanciais, chegavam para administrar a … todo o partido unionista!
Vai daí, quando julgava que os bichos iam engordar e comer até mais não, uma indigestão colectiva atira-me com eles para a eternidade.
Ora veja você Simas, que aventura a do pobre Oliveira, meu afilhado, e que sorte o destino reserva, estabelecida esta patogenia a tantos cavalheiros da nossas relações, que desataram a comer sem conta nem peso desde que a república veio …

O Valença disse-me que talvez fosse esta noite a casa do Adriano. Eu vou, mas não tão cedo. Entre as 10 e as 11, sem honi soit … Convêm ouvir. E a Dona Amélia não deixa de dar-nos aquele arrozinho, que sendo preparado com regra, não há-de fazer-nos o mal que as lavagens fizeram aos malogrados suínos do Sr. Oliveira.
Pois então até logo

Alfredo de Magalhães
19/02/1915

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terça-feira, Março 06, 2007

Venda engatada

Em 28 de Janeiro, Raimundo Meira recebe uma carta do Poeta António Correia de Oliveira, cujo processo de venda da casa de Belinho se encontrava completamente encravado pelas lutas dos caciques do Partido Democrático em Viana do Castelo. Correia de Oliveira pede a Raimundo Meira o favor de interceder pela conclusão do processo de venda.

Belinho, 28 Jan. 1915

Meu Exmo. Amigo

Bem-haja pelo favor da sua carta que nos consolou.
Compreendo e respeito os escrúpulos e melindres de Vexa. Mas consinta que de novo o afirme, – nós não solicitamos, de forma alguma, um favor em prejuízo dos interesses da cidade. Estes estão, fortemente defendidos. Nós é que nos encontramos sem defesa, e em evidente e dolorosa inferioridade de acção. E acudir-nos um pouco, – dentro de nítidos limites, – não deixará de ser, aos olhos de toda a gente de bem, um gesto do nobre justiça. De resto, sincera e lealmente o penso e digo, os próprios interesses da cidade reclamam a interferência de Vexa., a ser certo que ela tenha, como parece ter, vantagem em utilizar a nova casa. Ora, pela opinião do Sr. Antunes Viana, encarniçadamente defendida e apregoada por toda a parte, – vai tornar-se impossível qualquer transacção; e nem esta mesma é precisa, pois que se põe inteiramente de parte o Governo Civil, para aplicar-se todo o dinheiro às avenidas … Não é verdade, como ele informou, termos pedido vinte e cinco contos. Até hoje ainda não fizemos preço, nem oficialmente se tratou dele. Nós queremos e precisamos vender; Vexa sabe-o quasi tão bem como eu. Assim os outros o não soubessem e isso não foi contra nós, uma espada de dois gumes. Mas a nossa vontade tem limites extremos que não está no nosso interesse ultrapassar.
Enfim, Senhor Capitão Raimundo Meira, confiamos inteiramente na sua autoridade moral e política, ambas indiscutíveis, para levar as coisas à razão e à justiça. Que deus o traga cedo a Viana de tantas e tão desvairadas gentes.
Perdoe as nossas constantes importunações. E, com os afectuosos cumprimentos de todos nós, creia-me na alta estima e consideração do seu muito afeiçoado, grato e desinteressado criado e amigo

António Correia de Oliveira

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quarta-feira, Fevereiro 28, 2007

Distribuindo os "Tachos"

Para a nomeação do novo Juiz, Raimundo Meira escreve, não ao secretário do ministério da Justiça, Germano Lopes Martins, mas ao secretário do ministro da Guerra – Alfredo Sá Cardoso – que no meio da crise das espadas, ainda tem tempo para pôr e dispôr da política de Viana e movimentos dos militares afectos. O facto de certos pedidos de colocações de funcionários públicos serem discutidas e conseguidas entre duas pessoas que, oficialmente, não desempenhavam quaisquer funções públicas, demonstra que este tipo de decisões eram tomadas à revelia dos poderes instituídos, Ministério do Interior e da Justiça, tendo por base apenas o poder e o ascendente que Raimundo Meira tinha sobre o Distrito de Viana e Sá Cardos sobre o Governo Central.
Na mesma carta Sá Cardoso desabafa sobre o movimento das espadas, que entretanto decorria, e batia na teoria governamental da “Conspiração Monárquica

Lisboa – 23/1/1915

Meu caro Meira
1º Está feito o pedido para a colocação do juiz de Ovar em Viana. Talvez se consiga, mas o pior é que o Pinho de Monção também pede por outro. […] Vou surpreender-lhe dizendo que chegou tarde, se bem que ele diz que já foi há tempos feito este pedido.
2º A primeira vaga veio de Infantaria 17 (Santarém), já está prometida ao Major Carvalho Martins, mas logo que fique a segunda vaga (Pinto da Cruz) será para o Capitão Abel Falcão. Isto na hipótese, é claro, de ainda sermos governo!
3º Quando recebi a sua carta já tinha escrito duas vezes ao Dr. Adolfo Cunha.
Ele não recebeu a minha primeira carta, não sei porquê. Recebeu a segunda e espero que ele mande os documentos que lhe pedi para ver se consegue despachar.
4º Ainda não tive resposta ao assunto do farmacêutico. Logo que tenha man-do-lhe dizer.
Agora outro assunto. Que efeito tem […] em círculos do […] no país.
Que […], que grande especulação se está fazendo com isto.
Os oficiais estão, na sua maioria, sendo manipulados e arrastados, sem o saberem, por monárquicos que habilmente vêm preparando este movimento sem denunciarem o propósito monárquico.
Deu-se uma insubordinação perigosíssima e agora querem passar uma esponja por tudo isto!!! Pelo menos é o que se reclama por grande parte dos oficiais!
Que há a respeito de deputados pelo circulo?
Não tenho empenho nenhum em ser deputado. Só o seria se o lugar for em aberto, isto é: se a minha candidatura não for tirar o lugar a nenhum dos deputados actuais ou àqueles que o desejem ser.
Diga-me portanto o que devo fazer.
Ainda bem que o Pedralva lhes agradou, bem como aos nossos correligioná-rios de Viana. Tive essa impressão quando lhe falei.
Estou aborrecidíssimo com tudo quanto se passa. Deus sabe ainda o que farei.
Tudo depende da resolução final deste conflito e do meu estado de espírito.

Abraça-o o seu amigo

Sá Cardoso

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domingo, Fevereiro 25, 2007

No interesse do Partido

Enquanto se sucedem estes acontecimentos, Antunes Viana, um dos líderes de uma das inúmeras facções do partido Democrático de Viana do Castelo e Vice-Governador Civil, escreve a 22 de Janeiro de 1915, a seguinte missiva a Raimundo Meira a respeito do falecimento do Juiz de Viana, pedindo calma e apontando alguns nomes possíveis para serem nomeados Juízes. Tudo no interesse do partido, pois como ele bem afirma “Como eu não tenho parentes para este lugar, o meu interesse é todo do partido

Meu caro Meira

Que chega de bom é esse o meu desejo.
Hoje faleceu o juiz daqui, e como falando com o visconde de Pedralva, me deixou ver que o meu amigo é que se interessa pelo Queirós, é meu dever lembrar-lhe que ele não é bem recebido por ser Jesuíta.
Como eu não tenho parentes para este lugar, o meu interesse é todo do partido, e como tal vejo que não é de boa política ser nomeado para aqui quem é parente do Porto, e de todos os Talassas de cá e de Lacerdas de Vasconcelos.
Que venha para cá quem queira, mas um homem que seja democrático, um homem e não um jesuíta.
As nossas amizades devem ser postas de parte para não servirem inimigos nossos, aliás do regime.
Olhe bem para os monárquicos militares que aproveitando a ingenuidade de uns, e do Camachismo de outros, como eles apareceram para ver se pegava.
Este movimento deve servir de lição para termos sempre distância de quem não e republicano.
O Governador Civil é que me pediu para lhe escrever, isto é por eleição ir amanhã à terra lhe não poder falar pelo pouco tempo que aí tem. Ele não conhece o homem e como sabe é de conveniência que nós friamente olhemos para o dia de amanhã. Façamos política de alcance e de ser proveitosa para o futuro. Pense e se em sua consciência entender o bem da política que devem por de parte esse Queirós, façam-no. Veja o nosso correligionário da Junta Geral Gomes, e não se esqueça deste rifão,- antes que cases vê o que fazes-. Se querem ter o juiz dos Arcos, o Sousa – que não fura paredes mas é bom homem pode ajudar-nos
Há um de Mourão que quer vir para aqui, não sei o que ele é, e não haja pressa e faça-se uma decisão acertada. O Figueiredo da Guerra, quer ir para Mourão e esse é nosso amigo e ali recebem-no bem.
Julgo Conveniente que escreva para Lisboa para pensarem até que friamente acertem.

Saúde boa é o que eu lhe desejo

Seu amigo velho

Antunes Viana

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domingo, Fevereiro 18, 2007

O Golpe das Espadas

Os oficiais das forças armadas eram, de uma maneira geral, neutrais perante a situação política, com excepção dos militares ligados à carbonária (Machado dos Santos) e os Jovens Turcos (Norton de Matos, Sá Cardoso, etc).
Os subalternos, pelo contrário estavam fortemente politizados e este facto, conjuntamente com a acção da formiga branca, fez com que a disciplina militar desaparecesse rapidamente dos quartéis.
Na Marinha, o corpo militar mais politizado, os oficiais monárquicos foram afastados sendo promovidos, com base na sua lealdade politica, indivíduos incapazes. Em 1913 a maioria dos navios estava atracada ou inactiva devido a danos provocados por acidentes. Um dos cruzadores encalhou com perda de vidas e do próprio navio.

Os oficiais das forças armadas não eram aumentados desde 1896. A modernização muitas vezes prometida não passava do papel e mesmo assim os planos eram absolutamente megalómanos. A construção/compra de dois couraçados tipo Dreadnougth constava deles.

Os desejos de Beligerância de Bernardino Machado e Afonso Costa, aliadas às derrotas sucessivas do exército Português em África e conjuntamente com as deserções em massa e às condições insalubres proporcionadas aos militares, fizeram com que estes abandonassem a sua posição neutral de modo a evitar uma aventura militar fatal.

Estavam então reunidas as condições para um golpe militar, faltava apenas a gota que faria transbordar o copo.

Em Janeiro de 1915, a carbonária da Figueira da Foz exige a transferência do comandante do regimento de Infantaria 28, estacionado então naquela cidade, o Major Craveiro Lopes (Pai do Futuro Presidente da Republica Craveiro Lopes). Este tipo de exigências era bastante normal, tal como normal foi o assinar o despacho de transferência pelo ministro da Guerra. Mas a situação não era a mesma de outros tempos e o reacção foi tudo menos que normal.
Um grupo de oficiais oportunamente indignado com este acontecimento banal, entregou as suas espadas ao Presidente Arriaga. A reacção do Governo de Victor Hugo foi o de ordenar a sua prisão imediata enquanto a imprensa afecta ao Partido Democrático apodará os oficiais de “Perigosos Conspiradores Monárquicos”, por isso esta entrega de espadas corria o risco de não passar de mais um “fait-divers” tão normal nesses dias. Em 22 de Janeiro, ocorre um golpe de teatro. O herói da república, Machado dos Santos, dirige-se ao palácio de Belém e entrega, numa encenação melodramática a “espada da rotunda.

Como ninguém em Portugal podia chamar de “conspirador Monárquico” a Machado dos Santos, a maioria dos oficiais do exército impedidos de chegar ao Presidente Arriaga ofereceu as suas espadas (através de telegrama) ao oficial do exército mais antigo, o General Pimenta de Castro.
Antevendo a possibilidade de o governo ser demitido, Brito Camacho organiza ele próprio cerimónias de entrega de espadas e publica inflamados artigos contra o governo no seu Jornal “A Luta”
Rapidamente a situação descambou para a anarquia. Agitadores anti-Partido Democrático sabotavam o embarque de tropas para África. Em face disto Victor Hugo, tenta fazer com que Arriaga assine um decreto que declare o estado de emergência e suspenda as garantias constitucionais. Arriaga recusa e demite o governo.
Mas, para grande descontentamento de Brito Camacho, Arriaga convida Pimenta de Castro, seu amigo pessoal a formar governo. Este tinha sido ao mesmo tempo eleito pelos oficiais rebeldes para defender os seus interesses, depois da “desistência” do chefe do estado-maior, General Martins Carvalho.

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