terça-feira, março 06, 2007

Venda engatada

Em 28 de Janeiro, Raimundo Meira recebe uma carta do Poeta António Correia de Oliveira, cujo processo de venda da casa de Belinho se encontrava completamente encravado pelas lutas dos caciques do Partido Democrático em Viana do Castelo. Correia de Oliveira pede a Raimundo Meira o favor de interceder pela conclusão do processo de venda.

Belinho, 28 Jan. 1915

Meu Exmo. Amigo

Bem-haja pelo favor da sua carta que nos consolou.
Compreendo e respeito os escrúpulos e melindres de Vexa. Mas consinta que de novo o afirme, – nós não solicitamos, de forma alguma, um favor em prejuízo dos interesses da cidade. Estes estão, fortemente defendidos. Nós é que nos encontramos sem defesa, e em evidente e dolorosa inferioridade de acção. E acudir-nos um pouco, – dentro de nítidos limites, – não deixará de ser, aos olhos de toda a gente de bem, um gesto do nobre justiça. De resto, sincera e lealmente o penso e digo, os próprios interesses da cidade reclamam a interferência de Vexa., a ser certo que ela tenha, como parece ter, vantagem em utilizar a nova casa. Ora, pela opinião do Sr. Antunes Viana, encarniçadamente defendida e apregoada por toda a parte, – vai tornar-se impossível qualquer transacção; e nem esta mesma é precisa, pois que se põe inteiramente de parte o Governo Civil, para aplicar-se todo o dinheiro às avenidas … Não é verdade, como ele informou, termos pedido vinte e cinco contos. Até hoje ainda não fizemos preço, nem oficialmente se tratou dele. Nós queremos e precisamos vender; Vexa sabe-o quasi tão bem como eu. Assim os outros o não soubessem e isso não foi contra nós, uma espada de dois gumes. Mas a nossa vontade tem limites extremos que não está no nosso interesse ultrapassar.
Enfim, Senhor Capitão Raimundo Meira, confiamos inteiramente na sua autoridade moral e política, ambas indiscutíveis, para levar as coisas à razão e à justiça. Que deus o traga cedo a Viana de tantas e tão desvairadas gentes.
Perdoe as nossas constantes importunações. E, com os afectuosos cumprimentos de todos nós, creia-me na alta estima e consideração do seu muito afeiçoado, grato e desinteressado criado e amigo

António Correia de Oliveira

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3 Comments:

Anonymous O Embaixador said...

Este é um dos melhores blogs que já li.

4:36 da tarde  
Blogger Luís Bonifácio said...

Obrigado pelo incentivo

11:05 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Uma vez mais a confusão entre o Palácio dos Cunhas Sottomayor, em Viana do castelo na Rua da Bandeira e a Casa de Belinho, em São Paio de Antas, Esposende. Um e outro da minha família, mas só o Palácio de Viana estava em causa, como aliás se depreende da própria carta do meu Avô António.
Rui Corrêa d'Oliveira

6:35 da tarde  

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