quinta-feira, abril 05, 2007

Convites a candidatos

O partido Evolucionista, porém jogava tudo por tudo nas eleições organizadas por Pimenta de Castro. Simas Machado tentava convencer Alfredo de Magalhães a se apresentar como candidato pelo Porto.

Meu caro Simas

Recebi ontem essa carta do Fontinha e respondi-lhe nos termos que também lhe envio a si por cópia.
Se os Evolucionistas me gramarem a conferência como a tenho fisgada, só depois dela poderei definir a minha atitude política.
Isto não quer dizer que não tenha a maior satisfação em reatar relações com o António José, se ele entretanto vier ao Porto; mas no interesse de todos, convém que eu proceda assim. Entendido?

Seu amigo

Alfredo

Etiquetas:

terça-feira, março 13, 2007

Um "Fait-Divers" - Ajudando um criador de Porcos

A 16 de Fevereiro, Alfredo de Magalhães escreve a Simas Machado, a pedir uma “cunha” para um conhecido seu. O pedido em si é pouco importante, mas o texto de Alfredo de Magalhães é carregado de ironia.

Meu caro Simas

Não repare você na ortografia arrazoado incluso, à guisa de memorial, e se tiver paciência para o soletrar, diga-me o que for de justiça.
Conheço o desgraçado que subscreve essa peça literária, e asseguro-lhe que não pode haver melhor criatura. Trabalhou todo o Inverno como um negro para criar uns porquinhos que bem cevados com as lavaduras de um regimento, haviam de ajudá-lo a recuperar de dívidas que o estrangularam; vai daí, os bichos morreram todos com qualquer tranglo-manglo que lhes deu!
Sempre que lhe acontece uma desgraça cá o tenho à porta. O infeliz não conhece pessoa mais importante que eu!
Se você poder aliviá-lo nos termos que requer, muito obrigará o seu

Muito amigo

Alfredo de Magalhães



No dia 19 Alfredo de Magalhães escreve novamente a Simas Machado a agradecer o favor prestado e, talvez por este não acreditar na história dos porquinhos, Alfredo dá-lhe mais pormenores, qual deles o menos hilariante.

Meu bom Simas

Recebi à noite a sua cartinha, pouco depois de sair daqui o Valença. Anteontem quando você passou no consultório, eu estava. Batesse ou tocasse à porta da rua, homem!
Muito obrigado por atender o pobre homem dos … Camachos. É na realidade uma excelente pessoa e chefe de uma honestíssima família. Trabalha como um burro e tudo lhe corre torto … como a nós. Pela infelicidade faz parte cá da confraria. E por isso o estimo mais. Os porquinhos de facto morreram-lhe, e julga-se nada menos que desgraçado e perdido! Veterinário, médico excelente, foi ele próprio, e assim me explicou a patogenia do caso: “Foi mais ou menos, senhor doutor, uma consequência da guerra europeia…”?!
Sim senhor! Com o extraordinário movimento do quartel nos últimos tempos, antes da partida do contingente para Angola, as lavagens naturalmente aumentaram muito, eram muito substanciais, chegavam para administrar a … todo o partido unionista!
Vai daí, quando julgava que os bichos iam engordar e comer até mais não, uma indigestão colectiva atira-me com eles para a eternidade.
Ora veja você Simas, que aventura a do pobre Oliveira, meu afilhado, e que sorte o destino reserva, estabelecida esta patogenia a tantos cavalheiros da nossas relações, que desataram a comer sem conta nem peso desde que a república veio …

O Valença disse-me que talvez fosse esta noite a casa do Adriano. Eu vou, mas não tão cedo. Entre as 10 e as 11, sem honi soit … Convêm ouvir. E a Dona Amélia não deixa de dar-nos aquele arrozinho, que sendo preparado com regra, não há-de fazer-nos o mal que as lavagens fizeram aos malogrados suínos do Sr. Oliveira.
Pois então até logo

Alfredo de Magalhães
19/02/1915

Etiquetas:

domingo, dezembro 17, 2006

Um mau sentimento de náusea

A propósito do novo governo, Adriano Pimenta, convida Simas Machado para uma “passeata seguida de jantar em Leça da Palmeira, onde em amena cavaqueira discutiriam o mau sentimento de náusea relativamente aos miseráveis de Victor Hugo.
Em 28 de Dezembro de 1914, Alfredo de Magalhães escreve a seguinte carta a Simas Machado.

Meu Caro Simas

Acaba de informar-me o Jerónimo Moreira, que vem hoje a Leça, jantar em companhia do Alfredo e possivelmente do Aguibom.
Eu tenho […][…] de que você também tem, porque além do prazer da sua companhia, os acontecimentos são de molde a ter com eles uma interessante cavaqueira, na qual você teria particular interferência.
Nada há melhor para comemorar do que a resolução de um enigma. E a situação é tal ordem enigmática que a não ser convidado para uma caterva de doidos, dá-nos o melhor excerto da incompetência, senão da crassa estupidez dos nossos homens públicos.
Mas não há dúvida nenhuma que tendo que aparecer a apelar para o patriotismo e para a abnegação patriótica o Alexandre Braga acolitado pelo Afonso, tudo está salvo, menos a honra. A não ser que eles forem anichar-se dentro daquelas grandes capacidades ... de negócios escuros.
Por muito que esteja couraçado contra os factos e contra os homens, não podemos deixar de sentir um mau sentimento de náusea, ao ver tanta desfaçatez de uma certa malandragem.
Então verá, não é verdade?
Lá o espero com os nossos amigos, com quem combinarei, pelo telefone, a passeata.

Amigo certo

ADRIANO

Etiquetas:

terça-feira, novembro 28, 2006

Portugal - Uma pequena aldeia

Em 28 de Dezembro de 1914, Alfredo de Magalhães escreve a seguinte carta a Simas Machado.

28 Dez. 1914

Meu caro Simas

Sábado, tive de ir a Leça da Palmeira. Lá jantei em casa de um amigo, e lá estive – sabe com quem? – Com o José Guimarães dos Arcos! Contou-me toda a sua odisseia, que na verdade é estranha, e mostrou-me grandes desejos de que você, por mim acompanhado, o fosse visitar numa das próximas noites.
Ainda pensei em vir pela casa do Adriano Pimenta, mas cheguei muito tarde e tinha de sair ontem de manhã, como saí, às 8 horas para Arêgos.
Se você está disposto a passar hoje um pouco da noite em casa do Adriano, mande dizer que ali aparecerei para lhe transmitir o que o Guimarães me expôs

Seu muito amigo

Alfredo de Magalhães

Estarei no consultório até às 6 horas. Aqui volto às 8 e se você me quiser pro-curar, não estando disposto a ir a casa do Pimenta, também me pode encon-trar até à meia-noite aqui.


Esta carta mostra quão pequeno é Portugal, José dos Santos Guimarães, que já conhecemos das cartas enviadas a Raimundo Meira, e grande apoiante do Partido Democrático, tinha relações estreitas com Alfredo de Magalhães (Seu provável professor na Escola médico-cirúrgica do Porto) e também, pelo teor da carta, com Simas Machado ambos inimigos políticos de Afonso Costa.

Sobre a odisseia de José Guimaraes ver "Um Democrático perseguido por … Democráticos"; "A carta ao "Larápio" Vaz-Guedes".


Etiquetas: